sábado, 28 de fevereiro de 2015




Senhora.
Romance de José de Alencar.

Argumento:

       Aurélia Camargo é a mais bela e mais rica beldade da Corte, atraindo os olhares cobiçosos dos rapazes solteiros da época. Sua vida de ostentação e luxo, contudo, encobre um passado de pobreza, orfandade e decepções. Dentre todas as mágoas que carrega, uma cala fundo em sua alma: a rejeição sofrida por seu noivo, o fútil e interesseiro Fernando Seixas. Agora, estribada na herança milionária que recebera, está pronta para vingar-se, humilhando o antigo noivo com a compra de sua vida e de sua liberdade.

A peleja do amor e do dinheiro:

       Qual a verdadeira razão dos afetos humanos? Num mundo enfeitiçado pelo deus Dinheiro haverá ainda algum espaço para o amor desinteressado? Este romance, talvez a mais complexa realização literária de José de Alencar, fundamenta-se num problema moral, o da natureza das virtudes numa sociedade materialista. Sem deixar de pertencer enfaticamente ao romantismo, chega aos limites de sua própria contestação, colocando em suspenso todos os dogmas desta ideologia, dentre os quais, o mais visível é o da sacralidade do amor conjugal.
       A trama, magistralmente conduzida pelo autor, desenvolve-se em quatro atos: O Preço, Quitação, Posse e Resgate, não à toa, concebidos como lances de uma transação comercial, cujo bem que se procura obter é o amor. A narrativa, sempre ágil, nervosa, frenética, impõe-se à leitura, criando uma atmosfera de suspense muito bem urdida, na qual o autor consegue manipular as expectativas, mantendo e fazendo crescer a atenção do leitor até o desfecho, momento de satisfação e relaxamento, em que toda tensão acumulada se dissipa sob o efeito calmante das soluções definitivas.
       Em nenhum momento José de Alencar parece entrar em acordo com o mundo que descreve. Repudia, pelo viés de uma moralidade conservadora, a baixeza de uma sociedade corrompida pelo dinheiro, onde os homens tornam-se mercadorias e se entregam ao comércio vil das afeições e das liberdades. A esta hegemonia da mentalidade capitalista, o autor imputa-lhe, sarcasticamente, a alcunha de “mentalidade de quitanda”, muito própria ao desvirtuamento das qualidades humanas, nivelando a todos por baixo, dando-lhes os preços correspondentes à sua posição social.
       Aurélia, a heroína deste romance, revela-se alguém capaz de compreender a dinâmica comercial do mundo, rejeitando qualquer hipocrisia com a que se dissimulam as reais intenções mercantis do cotidiano. É através dela que José de Alencar pode reforçar a sua ojeriza à banalização do homem sob o império do dinheiro. As duas primeiras partes, aliás, extremamente incisivas a este respeito, põem em contraste Aurélia e seu tutor, o sr. Lemos, uma velha raposa dos negócios, sempre traído em suas aparências pelo crivo implacável da menina.
       Mas, o alvo preferencial da pena do autor é Fernando Seixas. Este sujeito, que despreza o sofrimento da própria família a quem deveria servir de arrimo, é um hedonista convicto. Dedica-se somente ao culto de sua própria imagem, gastando as parcas economias da mãe em festas, salões de jogos e restaurantes. Crê que, assim procedendo, faz aumentar o seu preço nesta feira livre monumental que é a sociedade. Mal percebe, no entanto, sua depreciação ante aos olhos do “mercado”, que o vê como um reles “alpinista social”.
       Sua união com Aurélia, longe de o elevar aos olhos dos semelhantes, na realidade o rebaixa, pois não conseguirá desvincular-se da imagem de filho ingrato, carreirista, marido submisso e sustentado pela mulher rica. São, na realidade, os remorsos que vão se acumulando na sua alma que o impelem à transformar esta situação. O seu orgulho, seu senso de honra e dever, que até então não se manifestaram, reabilitam-no aos olhos de Aurélia e da sociedade, por conseqüência. É esta transformação da personalidade quem permite o final feliz e, ao cabo, a própria continuidade da essência do romantismo, ou seja, a de que os desequilíbrios da estrutura ideológica podem resolver-se no âmbito do esforço individual.
       Não há como negar, contudo, que mesmo repetindo as velhas fórmulas românticas (que ajudou a criar), José de Alencar está mais amargo neste livro. Como último romance, de alguma forma, Senhora é o seu testamento intelectual. O autor quer mostrar como ainda pode realizar uma grande obra, sumamente bem escrita e bem urdida, para ensinamento e admiração dos pósteros. Quer ainda, expor sua completa indisposição com um mundo que já não é o seu, cujos valores e comportamentos são mais liberais e distantes do ideal de virtude aristocrática que tanto cultivou.
       Este é o romance de mais largo alcance criativo de Alencar. Está-se diante de um escritor que tem pleno conhecimento das situações que narra (diferentemente do indianista de dez anos atrás), que domina a forma do romance, que sabe conduzir uma trama, que compõe os personagens e seu ambiente com toda maestria. É um talento em seu apogeu, amadurecido e na plenitude. Quando, anos após, Machado de Assis confessava-se devedor de Alencar, só podemos nos recordar do escritor da trilogia Diva – Lucíola – Senhora, sua maior contribuição ao romance brasileiro.    

Por que é um clássico brasileiro:

       Em Senhora, José de Alencar manifesta todo o seu talento expressivo, elegância e vivacidade. Se em outras obras havia mostrado uma sensibilidade para as cores, escrevendo como se pintasse, agora revela-se um escultor, buscando obsessivamente a representação escrita das formas, volumes e proporções. Máxima realização do romance urbano carioca até então, faz uma representação total da cidade: desde os subúrbios e seus tipos característicos até o cotidiano social das elites de seu tempo.

Obras do autor:

José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana (hoje, um bairro de Fortaleza) em 1829 e morreu no Rio de Janeiro em 1877. Publicou:
Romance: Cinco Minutos (1856), O Guarani (1857), A Viuvinha (1860), Lucíola (1862), As Minas de Prata (1865 e 1866), Diva (1864), Iracema (1865),  O Gaúcho (1870), A Pata da Gazela (1870), O Tronco do Ipê  (1871), Sonhos d’Ouro (1872), Til (1872), Alfarrábios (1873), A Guerra dos Mascates (1873), Ubirajara (1874), Senhora (1875), O Sertanejo (1875), Encarnação (1893).
Teatro: Verso e Reverso (1857), A Noite de S. João (1857), O Demônio Familiar (1858), As Asas de um Anjo (1860), Mãe (1862), A Expiação (1867), O Jesuíta (1875).
Poesia: Os Filhos de Tupã (1863).

Crítica: Carta sobre a Confederação dos Tamoios (1856), Ao Imperador – Cartas Políticas de Erasmo (1865), O Sistema Representativo (1866), Ao Correr da Pena (1874), Como e por que sou romancista (1893).