Crítica: Milton Hatoum. Relato de um certo Oriente (1989)
Pelos meandros da memória.
Esta
é a história de uma família de imigrantes libaneses radicados em Manaus. Mais do que
isso, é um esforço da memória em recuperar o passado desta família. Como todo
relato baseado na memória, a fluidez afetiva se impõe à objetividade fria das
crônicas históricas. Assim, somos levados a uma imersão nos labirintos
recônditos das recordações de família que recompõem, passo a passo, toda uma
época remota, todo um passado que não é somente familiar, mas também da cidade
de Manaus.
É possível afirmar que esta demanda
pelo passado se torne mais complexa com a introdução de outras variantes que
dão a forma da narrativa. O exercício da memória, puro e simples, esbarra nos
obstáculos da língua e da cultura que distanciam brasileiros e sírio-libaneses,
fazendo com que seja também, um exercício de alteridade. A memória, desde
sempre feita protagonista deste romance, comporta uma função consoladora da
ausência deixada pelos mortos, ao mesmo tempo em que reabre antigas feridas,
tornadas tão vívidas como outrora. Só não pode fazer ressuscitar o tempo que já
se passou, presentificá-lo, embora permita aos homens recordar para que possam
prosseguir adiante.
A história da família em questão só
aos poucos é esclarecida ao leitor. Na realidade, tal qual um espectador ativo,
é dele a incumbência em articular os vários episódios da narrativa. Os relatos
do texto, principalmente os de tio Hakim, não procuram oferecer uma visão
panorâmica, cronológica e coordenada dos fatos, mas são antes ditados ao sabor
daqueles eventos mais importantes para o narrador. Esta é uma estratégia
narrativa fundamental para o sucesso do romance, já que a filha ausente está
quase na mesma situação do leitor: quer, através dos relatos dos mais velhos,
compor todo um quadro de sua infância e da vida da sua família. Isto nos obriga
a provocar desde logo uma aliança lógica com a filha ausente, nos alinhando à
sua perspectiva para combinar diferentes eventos e assim, lograr atribuir
sentido ao texto.
A libanesa Emilie é a protagonista
destes relatos. De uma família cristã, veio jovem ao Brasil na companhia dos
pais e dos dois irmãos. Aqui, viveu sempre entre a comunidade sírio-libanesa do
Amazonas, construindo ali as suas principais relações de amizade, inclusive o
seu próprio casamento, com um homem muçulmano. Deste casamento teve quatro
filhos: Hakim, Samara e mais outros dois “inomináveis”. Já na maturidade
adotara mais outros dois filhos, ambos irmãos que pela distância no tempo,
hesitavam em chamar
Emilie de mãe ou de avó. Fazem parte do núcleo principal da
trama uma empregada doméstica chamada Anastácia Socorro e a melhor amiga de
Emilie, Hindié Conceição.
Bem ou mal, esta família é um
microcosmo da intersecção dos valores familiares orientais e dos valores
familiares brasileiros. Estamos assim, sempre no limiar, como estavam todos os
membros daquela família. Diversas fronteiras são sucessivamente violadas e
recompostas: a fronteira da língua, sempre hesitante entre o árabe, o português
culto e o português dialetal da Amazônia; a fronteira da religião, sempre um
motivo de discórdia entre o marido muçulmano e a mulher cristã; a fronteira dos
costumes; a fronteira das gerações. Obviamente, fronteira não é algo
impermeável e, como disse, as fronteiras deste romance são sempre rompidas e
restabelecidas.
As tensões desta família, como em
qualquer outra, são freqüentes, embora tenham o seu brilho próprio derivado do
pitoresco e do inaudito. As sucessivas mortes de parentes, as brigas e
rivalidades freqüentes entre irmãos, e a inevitável desagregação familiar disto
decorrente, lançam os personagens numa terrível solidão. São permanentemente
fustigados pelas lembranças do passado e, como se pode deduzir, nenhum deles
alcançou libertar-se completamente das culpas e dos complexos que ainda os
ligam à família, mais exatamente à Emilie, o centro afetivo de toda vida em
comum.
Esta permanente sensação de vazio,
de falta, faz com que a filha adotiva de Emilie, após muito tergiversar,
retorne a Manaus para reencontrar-se com a mãe e assim, ficar em paz consigo
mesma e com seu passado.Ocorre que nada do que vivera no passado existia mais.
A família estava despedaçada e a própria cidade de Manaus, tal como ela havia
conhecido, sucumbira diante do crescimento desordenado. O que restara? Apenas
as lembranças dos mais velhos, daqueles que sobreviveram àqueles tempos. Daí
sua única opção fosse a de evocar, através daquelas lembranças, todo aquele
mundo evanescente.
As lembranças de seus
interlocutores, transcreve em forma de relato ao irmão que agora vive em Barcelona. Talvez
ele também, como todos os que fizeram parte da família, sofressem com o peso da
ausência de um tempo completamente desaparecido. Nesse sentido, o relato é o
único instrumento possível de conforto, o único que ainda pode oferecer alguma
esperança de conciliação com o passado e com o presente.
Por que é um
clássico brasileiro:
Mais do que qualquer outra grande
obra de ficção brasileira, este é o romance que alcança a mais afetiva das
representações da memória. Aqui, ela deixa de ser um instrumento ou artifício
narrativo para se transformar na protagonista da obra, sem finalidade outra,
que a de sua própria evocação. Para conseguir tal resultado foi necessário ao
autor uma linguagem que pudesse transpô-la para a ficção. E consegue por meio
de uma prosa densa e lírica, cravada de saudade e poesia, que clarifica a
relação do homem com o seu passado.
Obras do autor.
Milton Hatoum
nasceu em Manaus em 1952. Publicou:
Romance: Relato de um certo Oriente (1989); Dois irmãos (2000); Cinzas do
Norte |(2005) e Órfãos do Eldorado (2008).