quarta-feira, 10 de abril de 2013




Crítica: Milton Hatoum. Relato de um certo Oriente (1989)

Pelos meandros da memória.

            Esta é a história de uma família de imigrantes libaneses radicados em Manaus. Mais do que isso, é um esforço da memória em recuperar o passado desta família. Como todo relato baseado na memória, a fluidez afetiva se impõe à objetividade fria das crônicas históricas. Assim, somos levados a uma imersão nos labirintos recônditos das recordações de família que recompõem, passo a passo, toda uma época remota, todo um passado que não é somente familiar, mas também da cidade de Manaus.
            É possível afirmar que esta demanda pelo passado se torne mais complexa com a introdução de outras variantes que dão a forma da narrativa. O exercício da memória, puro e simples, esbarra nos obstáculos da língua e da cultura que distanciam brasileiros e sírio-libaneses, fazendo com que seja também, um exercício de alteridade. A memória, desde sempre feita protagonista deste romance, comporta uma função consoladora da ausência deixada pelos mortos, ao mesmo tempo em que reabre antigas feridas, tornadas tão vívidas como outrora. Só não pode fazer ressuscitar o tempo que já se passou, presentificá-lo, embora permita aos homens recordar para que possam prosseguir adiante.
            A história da família em questão só aos poucos é esclarecida ao leitor. Na realidade, tal qual um espectador ativo, é dele a incumbência em articular os vários episódios da narrativa. Os relatos do texto, principalmente os de tio Hakim, não procuram oferecer uma visão panorâmica, cronológica e coordenada dos fatos, mas são antes ditados ao sabor daqueles eventos mais importantes para o narrador. Esta é uma estratégia narrativa fundamental para o sucesso do romance, já que a filha ausente está quase na mesma situação do leitor: quer, através dos relatos dos mais velhos, compor todo um quadro de sua infância e da vida da sua família. Isto nos obriga a provocar desde logo uma aliança lógica com a filha ausente, nos alinhando à sua perspectiva para combinar diferentes eventos e assim, lograr atribuir sentido ao texto.
            A libanesa Emilie é a protagonista destes relatos. De uma família cristã, veio jovem ao Brasil na companhia dos pais e dos dois irmãos. Aqui, viveu sempre entre a comunidade sírio-libanesa do Amazonas, construindo ali as suas principais relações de amizade, inclusive o seu próprio casamento, com um homem muçulmano. Deste casamento teve quatro filhos: Hakim, Samara e mais outros dois “inomináveis”. Já na maturidade adotara mais outros dois filhos, ambos irmãos que pela distância no tempo, hesitavam em chamar Emilie de mãe ou de avó. Fazem parte do núcleo principal da trama uma empregada doméstica chamada Anastácia Socorro e a melhor amiga de Emilie, Hindié Conceição.
            Bem ou mal, esta família é um microcosmo da intersecção dos valores familiares orientais e dos valores familiares brasileiros. Estamos assim, sempre no limiar, como estavam todos os membros daquela família. Diversas fronteiras são sucessivamente violadas e recompostas: a fronteira da língua, sempre hesitante entre o árabe, o português culto e o português dialetal da Amazônia; a fronteira da religião, sempre um motivo de discórdia entre o marido muçulmano e a mulher cristã; a fronteira dos costumes; a fronteira das gerações. Obviamente, fronteira não é algo impermeável e, como disse, as fronteiras deste romance são sempre rompidas e restabelecidas.
            As tensões desta família, como em qualquer outra, são freqüentes, embora tenham o seu brilho próprio derivado do pitoresco e do inaudito. As sucessivas mortes de parentes, as brigas e rivalidades freqüentes entre irmãos, e a inevitável desagregação familiar disto decorrente, lançam os personagens numa terrível solidão. São permanentemente fustigados pelas lembranças do passado e, como se pode deduzir, nenhum deles alcançou libertar-se completamente das culpas e dos complexos que ainda os ligam à família, mais exatamente à Emilie, o centro afetivo de toda vida em comum.
            Esta permanente sensação de vazio, de falta, faz com que a filha adotiva de Emilie, após muito tergiversar, retorne a Manaus para reencontrar-se com a mãe e assim, ficar em paz consigo mesma e com seu passado.Ocorre que nada do que vivera no passado existia mais. A família estava despedaçada e a própria cidade de Manaus, tal como ela havia conhecido, sucumbira diante do crescimento desordenado. O que restara? Apenas as lembranças dos mais velhos, daqueles que sobreviveram àqueles tempos. Daí sua única opção fosse a de evocar, através daquelas lembranças, todo aquele mundo evanescente.
            As lembranças de seus interlocutores, transcreve em forma de relato ao irmão que agora vive em Barcelona. Talvez ele também, como todos os que fizeram parte da família, sofressem com o peso da ausência de um tempo completamente desaparecido. Nesse sentido, o relato é o único instrumento possível de conforto, o único que ainda pode oferecer alguma esperança de conciliação com o passado e com o presente.

Por que é um clássico brasileiro:

            Mais do que qualquer outra grande obra de ficção brasileira, este é o romance que alcança a mais afetiva das representações da memória. Aqui, ela deixa de ser um instrumento ou artifício narrativo para se transformar na protagonista da obra, sem finalidade outra, que a de sua própria evocação. Para conseguir tal resultado foi necessário ao autor uma linguagem que pudesse transpô-la para a ficção. E consegue por meio de uma prosa densa e lírica, cravada de saudade e poesia, que clarifica a relação do homem com o seu passado.

Obras do autor.

Milton Hatoum nasceu em Manaus em 1952. Publicou:
Romance: Relato de um certo Oriente (1989); Dois irmãos (2000); Cinzas do Norte |(2005) e Órfãos do Eldorado (2008).

segunda-feira, 8 de abril de 2013


Crítica: Bernardo Guimarães. O Seminarista (1872)

Um romance anti-clerical?

Os temas do amor impossível são característicos do romantismo e a história de Eugênio e Margarida seria apenas mais um deles, não fosse o caráter eminentemente político de O Seminarista. Não é só o problema do celibato clerical que estorva a pena de Bernardo Guimarães, mas toda a radicalização da ortodoxia católica desde a irrupção da chamada Questão Religiosa.
Durante todo o período colonial e monárquico, o clero católico esteve submisso à autoridade do Estado mediante o chamado regime de padroado. No caso, o catolicismo era declarado religião oficial ao mesmo tempo em que perdia sua autonomia perante o governo. Os sacerdotes cumpriam uma função pública e as suas paróquias serviam de circunscrição eleitoral, cartório, entre outras atividades típicas de governo. Como a autoridade do Estado sobre a Igreja no Brasil prevalecia em detrimento da autoridade da Santa Sé, a maior parte dos sacerdotes prestava obediência mais imediata ao governo que ao Vaticano. Isto gerava uma série de problemas.
No que diz respeito à moralidade dos padres, havia um relaxamento tal, que muitos sacerdotes mantinham concubinas; outros tinham filhos e os educavam abertamente; não eram raros aqueles que foram grandes proprietários de terra e importantes políticos. Alguns destes padres, inclusive, eram filiados à maçonaria; os Seminários, como o de Olinda, por exemplo, eram conhecidos centros de divulgação do liberalismo e de outras doutrinas modernas. Este quadro começa a se transformar na década de 1860, quando a Santa Sé procura tomar as rédeas da disciplina clerical. Novos seminários são fundados sob a estrita observância da ortodoxia; os padres são obrigados a saírem da maçonaria; as práticas tradicionais do catolicismo popular são combatidas e toda uma nova política de centralização romana é iniciada: este é o conhecido Processo de Romanização do Catolicismo Brasileiro.
Um dos centros mais importantes da difusão do ultramontanismo (como eram pejorativamente conhecidas as idéias da romanização) foi o Seminário de Congonhas do Campo em Minas Gerais, onde se passa a maior parte da ação do romance. Bernardo Guimarães não perde a oportunidade em caracterizar aquele ambiente como saturado de fanatismo, mostrando os irmãos vicentinos (que dirigiam a escola) como uma organização disposta a tudo para fortalecer o seu projeto político e engrossar as suas fileiras. O longo e doloroso processo de doutrinação de Eugênio, levado a cabo pelo diretor-mestre do Seminário, representa a insensibilidade da congregação em aceitar a total falta de vocação sacerdotal do rapaz.
Outro alvo da crítica de Guimarães é a família de Eugênio, pois sob o manto de uma propalada devoção, se escondem os mais vis interesses econômicos. A temeridade maior que assombra mãe e pai é a possibilidade do casamento de seu filho com Margarida, filha de uma dependente de sua propriedade, portanto incompatível com a sua posição social. Eugênio tem outros irmãos maiores, mencionados somente no segundo capítulo, ambos casados, o que alivia a tensão quanto a falta de herdeiros. A sua paixão, espécie de loucura, tem que ser tratada com internação e o seminário presta-se bem a esta função.
Tíbio e inseguro, Eugênio não consegue fazer frente à pressão de pais e padres para escapar do destino. Confessa a todos a sua incapacidade de suportar uma vida separada de Margarida. Não lhe dão ouvidos. Ao contrário, exortam-no a resistir às tentações diabólicas, simbolizada na figura mesma de Margarida. Ao notar a progressiva decadência física e psicológica de Eugênio no último ano do Seminário, seu pai manda a notícia (falsa) do casamento de Margarida. Ao mesmo tempo expulsa a menina e sua mãe da fazenda, deixando-as na miséria. Desconhecendo tudo isto e crendo numa traição de Margarida, Eugênio não vê outra alternativa a não ser tomar as ordens sacras.
Ao final, ao se deparar com mentira urdida por seus pais e com a miséria que vitimava Margarida, Eugênio revolta-se. A morte da amada, inconfessa e abandonada, dói-lhe na alma. As últimas páginas de O Seminarista são de uma expressividade dramática poucas vezes alcançada pelos escritores da época. Sem alternativas, Eugênio despe-se das vestes sacerdotais no dia de sua primeira missa e foge, “louco e furioso”, de um mundo em cujos limites não lhe coube o direito de escolher como viver.

Por que é um Clássico Brasileiro:

       O Seminarista é um passo seguro em direção ao realismo. A estrutura psicológica das personagens, o tema do amor impossível, o desfecho trágico, ainda são claramente românticos, mas o propósito de se fazer uma denúncia ideológica, desnudando a hipocrisia das elites, é sintoma de uma literatura realista. Esta indefinição programática é característica deste período de transição de uma escola a outra, que vai de 1870 a 1880. Nenhum romance, no entanto, caracteriza tão claramente esta situação que O Seminarista.

Obras do autor:

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu em Ouro Preto (MG) em 1825 e lá faleceu em 1884. Publicou:
Romance: O Ermitão do Muquém (1864), Lendas e Romances (1871), O Garimpeiro (1872), O Seminarista (1872), O Índio Afonso (1873), Jupira (1873), A Escrava Isaura (1875), Maurício ou Os Paulistas em S. João Del Rey (1877), A Ilha Maldita e o Pão de Ouro (1879), Rosaura, a enjeitada (1883).
Poesia: Cantos da Solidão (1852), Poesias (1865), Novas Poesias (1876), Folhas de Outono (1883).