segunda-feira, 9 de março de 2015


A Paixão segundo G.H.
Romance de Clarice Lispector.

Argumento:

            Um evento fortuito, como a morte de uma barata, faz uma mulher experimentar todo o absurdo da existência. Aos poucos, suas certezas são postas em suspenso e ela deverá reconstruir, a partir de si mesma, o sentido da própria vida.

Em busca da autenticidade:

            A obra de Clarice Lispector é uma das mais desconcertantes realizações da literatura brasileira, a ponto de pairar acima de sua tradição, ignorando o regionalismo triunfante e o romance psicológico em curso. Seu intimismo fenomenológico a filia mais imediatamente ao Noveau Roman francês, de Sartre e de Camus, o que não significa dizer que fosse mera cópia daquilo que se escrevia além mar. Aliás, muito pelo contrário. Combinam-se no seu fazer literário, uma radical intelectualização do Eu e, paradoxalmente, um instinto artístico que a permitia sentir toda a carga dramática da existência do homem contemporâneo, ameaçado por ilusões narcísicas e materialistas num mundo a ele indiferente.
            Na realidade, a percepção deste problema já havia sido integrada à literatura e à filosofia ocidental desde meados do século XIX. O Deus metafísico e distante de Kant e de Hegel, mero princípio racional, impregnou o posterior desenvolvimento da filosofia de um mal-estar radical, fruto da consciência de um mundo cuja marca maior é a da falta de finalidade e de sentido. Daí as diversas tentativas de se substituírem o princípio Deus por outra coisa qualquer, que viesse a remediar este vazio. O pessimismo de Schopenhauer é, de certa maneira, fruto deste momento cultural; já o otimismo panteísta de um Nietzsche coloca o homem (ou no caso, o Ubermensch) no centro mesmo da especulação filosófica, descartando qualquer arremedo metafísico que preenchesse a lacuna deixada pela ausência de um Deus provedor que tudo vê e a tudo conduz com justiça.
            Esta questão acabaria por tornar-se o centro do debate filosófico europeu desde então (digo europeu, excluindo a filosofia anglo-americana que trilhou caminhos diversos, rumando em direção à filosofia da linguagem e ao neopositivismo), influenciando a produção literária de maneira decisiva. Desde Kafka, Joyce, Döblin até os existencialistas franceses (que fizeram de Kierkegaard o seu ícone literário), buscou-se a representação desta orfandade do homem no mundo, ser marcado pela angústia e pelo desespero. Clarice Lispector faz assim, parte desta tradição ocidental mais ampla, onde o romance é o veículo por excelência da expressão do próprio absurdo da existência. Assim, inaugura entre nós uma nova fase do romance filosófico: não mais aquele que simplesmente buscava debater idéias, como Canaã de Graça Aranha ou O Estrangeiro de Plínio Salgado. A sua verve filosófica é resultado de uma busca, que põe em suspenso as certezas longamente aceitas sem reflexão e tenta reconstruir o sentido da vida a partir da experiência individual.
            Em A Paixão segundo GH, uma mulher se dá conta dos limites existenciais que a cercam quando mata uma barata no quarto de empregada de seu apartamento. Pouco a pouco, todos os fundamentos da sua vida vão sendo solapados. Em primeiro lugar, os objetos com os quais toma contato no quarto de empregada – cama, colchão, armário, parede – vão sendo impregnados por projeções da própria subjetividade e, com isso, ganhando significados até então desconhecidos para ela. Após, as próprias dimensões espaço-temporais perdem a frialdade das grandezas matemáticas para reconstruírem-se no âmbito da sua personalidade. Por exemplo: ao sentir-se opressa no interior do quarto, tempo e espaço transmutam-se em elementos reforçadores desta sensação. Impossível é não pensar na fenomenologia de Martin Heidegger quando Clarice Lispector tenta compreender a profundidade do tempo: não mais percebe o tempo como sucessão cronológica, mas como experiência vital, tal o dasein (ser-aí) da obra heideggeriana.
            O primeiro grande problema que se afigura para a narradora é o da expressão. Neste caso, retornamos a um tema clássico na obra de Clarice Lispector: a da distância entre o vivido e o narrado, para óbvio prejuízo deste. É como se, ao materializar a experiência vivida em palavras, perdesse a autora a singularidade do vivido, que deixa de ter a “aura” do sentimento para obscurecer sob a penumbra da razão. Certamente, a protagonista do romance vive uma experiência avassaladora do ponto de vista individual, mas sua sensação desesperada é ainda mais brutal quando se vê incapacitada de exorcizá-la pela linguagem. Daí, muito se fala que é preciso ler Clarice pelas entrelinhas. Na realidade, a autora não pode nos falar diretamente daquilo que vive, senão conduzir-nos aos problemas que ela sente e por isso, somos arrancados de um certo conforto passivo de leitor para, com a autora, reconstruir a vivência alheia.
            Além do problema mesmo de uma linguagem precária, está a questão da própria identidade do eu a todo momento confrontada com a miserabilidade da imagem da barata esmagada contra a porta do armário. Esvai-se então, toda a projeção social do indivíduo: mulher bem-situada na sociedade, confortavelmente arranjada numa cobertura, cercada de amigos grã-finos e intelectuais. Todos os vestígios de uma vida “civilizada”, socialmente triunfante e aceita, vão sendo desfeitos: um esvaziamento do eu é colocado em atividade para, só então, despida da imagem construída pelos outros, a mulher se reconstruir fundamentada na descoberta da própria essência – que não é divina – mas radicalmente humana.
            Há quem aponte a irrupção de Clarice Lispector em nossa literatura como um divisor de águas. Infelizmente, o seu legado não foi completamente assimilado por nossos escritores e creio que muito tempo será levado para que a sua herança efetivamente passe a frutificar a literatura brasileira. Mesmo tornando-se uma autora conhecida – apesar da clara dificuldade da leitura de uma obra que além de complexa, é densa – a cultura brasileira não estava, e nem está, pronta para as questões que levanta. A simples questão de uma valorização do eu não legitima a existência de uma literatura que a tenha incorporado. Assim, embora o seu legado não venha a desaparecer – como atestam as diversas edições de sua obra – é bem exagerada a afirmação de que tenhamos já a compreendido na sua totalidade.

Por que é um clássico brasileiro:

            A inesgotabilidade aparente das questões que suscita, aliada à uma rara intuição da experiência de mundo em que vivemos, faz desta, uma escritora ímpar. Determinados problemas, já profundamente analisados à luz da crítica literária, como o da insuficiência da linguagem na representação da vida é apenas uma das dimensões mais visíveis do seu fazer literário. Sob esta forma precária, pulsa uma pensadora radical, que pretendeu fazer da literatura o caminho para a experiência da vida e daquilo que nos é legitimamente humano, sem as aparências e fantasias em que estamos enredados.

Obras da autora:

Clarice Lispector nasceu em Chechelnik, na Ucrânia em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em 1977. Publicou:
Romance: Perto do Coração Selvagem (1943), O Lustre (1943), A Cidade Sitiada (1949), A Paixão segundo G.H. (1964),  Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), A Hora da Estrela (1977), Um sopro de vida (1978).
Conto: Laços de Família (1960), A Legião Estrangeira (1964), Felicidade Clandestina (1971), Onde estivestes de noite (1974), A Via Crucis do Corpo (1974), A Bela e a Fera (1979).
Crônica: Para não esquecer (1978), A Descoberta do Mundo (1984), Como nasceram as estrelas (1987), Minhas queridas (2007).

Infantil: A Mulher que matou os peixes (1968), A vida intima de Laura (1974), Quase de Verdade (1978).