Crítica: Bernardo Guimarães. O Seminarista (1872)
Um romance anti-clerical?
Os temas do amor impossível são característicos do
romantismo e a história de Eugênio e Margarida seria apenas mais um deles, não
fosse o caráter eminentemente político de O
Seminarista. Não é só o problema do celibato clerical que estorva a pena de
Bernardo Guimarães, mas toda a radicalização da ortodoxia católica desde a
irrupção da chamada Questão Religiosa.
Durante todo o período colonial e monárquico, o clero
católico esteve submisso à autoridade do Estado mediante o chamado regime de
padroado. No caso, o catolicismo era declarado religião oficial ao mesmo tempo
em que perdia sua autonomia perante o governo. Os sacerdotes cumpriam uma
função pública e as suas paróquias serviam de circunscrição eleitoral,
cartório, entre outras atividades típicas de governo. Como a autoridade do
Estado sobre a Igreja no Brasil prevalecia em detrimento da autoridade da Santa
Sé, a maior parte dos sacerdotes prestava obediência mais imediata ao governo
que ao Vaticano. Isto gerava uma série de problemas.
No que diz respeito à moralidade dos padres, havia um
relaxamento tal, que muitos sacerdotes mantinham concubinas; outros tinham
filhos e os educavam abertamente; não eram raros aqueles que foram grandes
proprietários de terra e importantes políticos. Alguns destes padres,
inclusive, eram filiados à maçonaria; os Seminários, como o de Olinda, por
exemplo, eram conhecidos centros de divulgação do liberalismo e de outras
doutrinas modernas. Este quadro começa a se transformar na década de 1860,
quando a Santa Sé procura tomar as rédeas da disciplina clerical. Novos
seminários são fundados sob a estrita observância da ortodoxia; os padres são
obrigados a saírem da maçonaria; as práticas tradicionais do catolicismo
popular são combatidas e toda uma nova política de centralização romana é
iniciada: este é o conhecido Processo de
Romanização do Catolicismo Brasileiro.
Um dos centros mais importantes da difusão do
ultramontanismo (como eram pejorativamente conhecidas as idéias da romanização)
foi o Seminário de Congonhas do Campo em Minas Gerais , onde se
passa a maior parte da ação do romance. Bernardo Guimarães não perde a
oportunidade em caracterizar aquele ambiente como saturado de fanatismo,
mostrando os irmãos vicentinos (que dirigiam a escola) como uma organização
disposta a tudo para fortalecer o seu projeto político e engrossar as suas
fileiras. O longo e doloroso processo de doutrinação de Eugênio, levado a cabo
pelo diretor-mestre do Seminário, representa a insensibilidade da congregação
em aceitar a total falta de vocação sacerdotal do rapaz.
Outro alvo da crítica de Guimarães é a família de
Eugênio, pois sob o manto de uma propalada devoção, se escondem os mais vis
interesses econômicos. A temeridade maior que assombra mãe e pai é a
possibilidade do casamento de seu filho com Margarida, filha de uma dependente
de sua propriedade, portanto incompatível com a sua posição social. Eugênio tem
outros irmãos maiores, mencionados somente no segundo capítulo, ambos casados,
o que alivia a tensão quanto a falta de herdeiros. A sua paixão, espécie de
loucura, tem que ser tratada com internação e o seminário presta-se bem a esta
função.
Tíbio e inseguro, Eugênio não consegue fazer frente à
pressão de pais e padres para escapar do destino. Confessa a todos a sua
incapacidade de suportar uma vida separada de Margarida. Não lhe dão ouvidos.
Ao contrário, exortam-no a resistir às tentações diabólicas, simbolizada na
figura mesma de Margarida. Ao notar a progressiva decadência física e psicológica
de Eugênio no último ano do Seminário, seu pai manda a notícia (falsa) do
casamento de Margarida. Ao mesmo tempo expulsa a menina e sua mãe da fazenda,
deixando-as na miséria. Desconhecendo tudo isto e crendo numa traição de
Margarida, Eugênio não vê outra alternativa a não ser tomar as ordens sacras.
Ao final, ao se deparar com mentira urdida por seus
pais e com a miséria que vitimava Margarida, Eugênio revolta-se. A morte da
amada, inconfessa e abandonada, dói-lhe na alma. As últimas páginas de O Seminarista são de uma expressividade
dramática poucas vezes alcançada pelos escritores da época. Sem alternativas,
Eugênio despe-se das vestes sacerdotais no dia de sua primeira missa e foge,
“louco e furioso”, de um mundo em cujos limites não lhe coube o direito de
escolher como viver.
Por
que é um Clássico Brasileiro:
O
Seminarista é um passo seguro em direção ao realismo. A estrutura
psicológica das personagens, o tema do amor impossível, o desfecho trágico,
ainda são claramente românticos, mas o propósito de se fazer uma denúncia ideológica,
desnudando a hipocrisia das elites, é sintoma de uma literatura realista. Esta
indefinição programática é característica deste período de transição de uma
escola a outra, que vai de 1870
a 1880. Nenhum romance, no entanto, caracteriza tão
claramente esta situação que O
Seminarista.
Obras
do autor:
Bernardo
Joaquim da Silva Guimarães nasceu em Ouro Preto (MG) em 1825 e lá faleceu em 1884.
Publicou:
Romance: O Ermitão do Muquém (1864),
Lendas e Romances (1871), O Garimpeiro (1872), O Seminarista (1872), O Índio Afonso (1873), Jupira (1873),
A Escrava Isaura (1875), Maurício ou Os Paulistas em S. João Del Rey (1877), A Ilha Maldita e o Pão de Ouro (1879), Rosaura, a enjeitada (1883).
Poesia: Cantos da Solidão (1852), Poesias
(1865), Novas Poesias (1876), Folhas de Outono (1883).
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