segunda-feira, 29 de abril de 2013



Crítica: Ariano Suassuna. O Romance d'A Pedra do Reino (1971)


A vida imita a arte.

O romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta é um épico sertanejo. Poderia, neste caso, ombrear-se com todos os épicos sertanejos que se escreveram ao longo dos últimos 150 anos. Mas, distingue-se radicalmente dos demais por algumas peculiaridades. Antes de tudo, esta narrativa se fundamenta em eventos literários ou, melhor escrevendo, numa tradição literária: a tradição das narrativas (orais e escritas, reais ou imaginadas, míticas e sobrenaturais) que definem a cultura popular nordestina. Neste sentido, a obra é uma reinvenção de tudo o quanto forma aquela tradição literária.
            Necessariamente, este tipo de reinvenção – que se propõe a ser radical e ao mesmo tempo, universal – só é possível aos grandes eruditos. Melhor: aos obsessivos aficcionados do gênero, que não somente têm uma idéia do todo, como também das partes que compõem a rica tessitura das narrativas sertanejas. O último dos grandes, na linha dos eruditos radicais e universais, tais como Câmara Cascudo, é o autor desta insânia literária sem paralelos: Ariano Suassuna.
            Sua reinvenção depende de três princípios coexistentes e complementares. O primeiro princípio é o da erudição, tal como já o dissemos. O segundo princípio é o do amor desenfreado à sua gente, terra e tempo. E, o terceiro, é o da capacidade criativa, argumentativa, imagética, narrativa, inventiva, enfim. Não contribuíssem, cada um destes princípios à construção deste absurdo literário, a obra sequer existiria. Sem erudição, a obra perderia o caudal das referências literárias e ideológicas que traz consigo; sem amor, os tratados de erudição são áridos e estéreis, as ideias não cumprem o seu papel de explicar, de defender, de argumentar; sem criatividade, por fim, esta não seria uma obra literária: talvez um compêndio enciclopédico, nunca um romance.
            É possível, contudo, ao leitor, encarar a obra sob estes primas: como obra de erudição, como panfleto político-amoroso e como tour de force da capacidade de narrar. Mas, mesmo assim, privilegiar um destes aspectos em detrimento do conjunto, empobreceria demasiadamente a compreensão e a fruição do romance. Não nego que a obra possa parecer difícil aos desavisados, aos tantos que se sentem fascinados pela personalidade do autor e se lançam à sua leitura. Tanto há passagens dinâmicas, divertidas e fáceis de ler, quanto também, longos períodos mais lentos, penumbrosos, que exigem do leitor um interesse meditativo e reflexivo na própria narrativa.
            Enfim, este não é um livro para leitores impacientes, nem para aqueles que pretendem “domar” o texto alheio, subordinando-os às suas próprias referências literárias, lingüísticas, espaciais ou temporais. Os gênios da língua não se deixam domar. Na realidade, são eles quem conseguem dominar a leitura e conduzir o leitor aos fins a que bem entendem. É preciso assim deixar-se levar, docemente, através da linguagem do autor, das suas referências, das suas pausas e acelerações, dos seus silêncios e da sua verborragia. Como gosto de falar, é necessário “entrar na brincadeira”, aceitando as suas próprias regras: regras, aliás, que não fizemos, mas que só as compreenderemos se aprendermos a aceitá-las.
            Como todo exercício radical de narração, este romance se desdobra em subnarrativas várias, percorrendo contextos distintos, numa aparente (só aparente) desordem lógica. Ao cabo, estes enredos acabam se harmonizando, e as pontas do enigma começam a ser decifradas. Se for assim, também é verdade que há um eixo principal a partir do qual todos os enredos subseqüentes são derivados: é a história de Dom Pedro Diniz Quaderna e de suas aventuras místico-político-literárias.
            O pressuposto que orienta a narrativa principal é o seguinte: tal como o Quixote, que enlouqueceu lendo romances de cavalaria, o Quaderna despertou para o seu destino manifesto ao entupir-se na leitura de folhetos de cordel e de histórias de trancoso ouvidas na infância. Se se considera que o Quixote não enlouqueceu, mas antes transfigurou-se numa realidade de sonho, talvez muito mais significativa que certa objetividade de mundo, poderemos enfim, desenhar a mesmíssima analogia. Um evento literário os transporta para uma dimensão de sonho, que eles passam a considerar mais real que a própria “realidade”. Entre Quixote e Quaderna há importantes e claras analogias, mas não nos compete ir a fundo nelas.
O destino manifesto de Quaderna é a do trono do Quinto Império, espécie de revivescência sebastianista em pleno sertão brasileiro. A restauração deste Império e, por conseqüência, do seu trono, marcará não somente um retorno a uma vida mais feliz (a uma Idade de Ouro), como também a um processo de libertação cultural do povo. A aparência deste Quinto Império é patriarcal, feudal e, portanto, conservadora; mas sua essência, a da libertação dos pobres (de dinheiro e de espírito) é um projeto messiânico, tantas vezes reverberada em grandes tragédias populares como Canudos.
            Só que as ambições políticas de Quaderna não se restringem somente à arena do poder. É necessário, pari passu, a criação de uma opera magna, que sirva de fundamento a uma nova cultura clássica: a cultura brasileira. Esta obra deve ser ao mesmo tempo fecundada pela épica brasileira e também, fecundar uma arte brasileira. Se sua estética é arcaica, seu propósito é libertário. Daí a explicação de ser este o romance armorial-popular brasileiro. O armorial-popular é fundado, então, na dialética do tradicional com o popular; não quer ser contemporâneo (muito embora o seja, por razões outras), mas quer ser radical (no sentido de ir ao encontro das raízes); não quer ser democrático (porque é aristocrático), mas quer ser fraternal já que propõe uma civilização de irmãos, conjugados todos pelo mesmo passado e pelo mesmo destino.
Em determinado momento da obra, Quaderna é convocado por um magistrado a dar explicações de seus ideais políticos. Pouco a pouco, o herói convence-se da oportunidade única de escrever a sua opera magna: pede ao magistrado que seu depoimento seja vazado em estilo próprio e que, além de servir aos fins da justiça, sirva também como projeto literário. O magistrado (um procurador) envolve-se na narrativa de Quaderna e o processo inquisitorial vai alcançando grandes proporções. Dali a pouco, já não é o cumprimento do dever que move o procurador e sim, a solução do enigma profético e messiânico sugerido por Quaderna. Enfim, as coisas invertem-se: é Quaderna quem “prende” o procurador nas teias de sua narrativa infinda, intrincada. Ele agora já não é mais o Quixote: é a Sherazade das Mil e uma noites.
Mas, nenhum resumo deste romance é possível. Não há dele síntese possível, como não há síntese do Dom Quixote ou das Mil e uma noites. Nem é esse meu papel nesta apreciação. Em todo caso, subsiste um projeto civilizacional na obra de Ariano Suassuna que se traduz na idéia do armorial-popular: este pressuposto pode guiar a leitura e ajudar no seu entendimento. Que fique claro, apesar disso, que não se experimenta ou se vivencia uma obra desta sem articular, numa mesma e sintética visão os princípios da erudição, do amor e da criação, mais do que nunca irmanados e que nos deram uma das mais fascinantes obras de ficção da literatura universal.

Por que é um clássico brasileiro:

O romance d’A Pedra do Reino... representa a visão definitiva do que seja o projeto armorial-popular no universo criativo de Ariano Suassuna. Comparativamente ao seu teatro, este romance procura ser muito mais profundo, no sentido de explorar com mais vagar, os princípios da sua própria criação literária e dos seus pressupostos políticos. A experiência da sua leitura, contudo, é ímpar: este não é um tratado estético, é uma verdadeira obra literária, com todos os elementos presentes nas grandes narrativas fundantes do gênero.

Obras do autor:

Ariano Vilar Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves (hoje João Pessoa, PB) em 1927. Publicou:
Teatro: Uma mulher vestida de sol (1947), Cantam as harpas de Sião (ou O Desertor da Princesa) (1948), Os homens de barro (1949), Auto de Joao da Cruz (1950), Torturas de um coração (1951), O Arco Desolado (1952), O Castigo da Soberba (1953), O Rico Avarento (1954), Auto da Compadecida (1955), O Casamento Suspeitoso (1957), O Santo e a Porca (1958), O Homem da Vaca e o poder da fortuna (1958), A Pena e a Lei (1959), Farsa da boa preguiça (1960), A Caseira e a Catarina (1962), As Conchabranças de Quaderna (1987), A História de Amor de Romeu e Julieta (1997);

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