Crítica: Marques Rebelo. A Estrela Sobe. (1938)
O Mundo e suas tentações:
Pode a cidade tornar-se, ela
própria, protagonista de um romance? Na tradição do romance urbano brasileiro,
cujas origens remontam a Manoel Antônio de Almeida, a cidade não é apenas
cenário, mas também personagem da trama. Ela se nos apresenta por inteiro,
influindo na vida das pessoas, condicionando suas atitudes, abrindo ou fechando
os caminhos por onde se movimentam as personagens. Neste sentido, os escritores
do romance urbano são, antes de tudo, cronistas do cotidiano. Sente-se neles o
burburinho das ruas, o rumor incessante da vida, os vários tons e as várias
cores da cidade.
Não houve, nesta tradição, cidade
mais observada, esquadrinhada e comentada do que o Rio de Janeiro. Ao fato de
ter sido, como capital federal, o centro dinâmico da sociedade brasileira,
deve-se somar ainda seu exibicionismo natural: o Rio se mostra, oferecendo ao
expectador toda a sorte de deleites visuais. Apesar de a cidade ter sido
representada sob as mais diferentes perspectivas – satíricas, irônicas,
trágicas – sempre se conservou, até onde é possível sentir, uma empatia entre o
escritor e o povo. Desta empatia nasceu esta escrita etnográfica, em que os
aspectos mais curiosos e peculiares do cotidiano carioca ofuscam todas as
outras dimensões do romance.
Em A Estrela Sobe temos uma
atualização da tradição. O Rio de Janeiro está em toda parte, não só
fisicamente, mas incrustado na alma das pessoas. É a cidade quem dá sentido às
motivações das personagens, não raro enfeitiçados e devorados, subjugados
diante das doces ilusões da Babilônia moderna. A vítima fatal desta história é
Leniza Maier, uma simplória suburbana que se deixa hipnotizar pelo glamour das cantoras do rádio. A cidade
a chama, sussurrando em seus ouvidos promessas de riqueza, fama e luxo.
Obcecada, Leniza mais parece uma mariposa diante da lâmpada: a rua é o mundo do
sonho. Sobreviver nas ruas demanda a pose correta: não se pode cair nas
armadilhas e toda moralidade vulgar deve ser rechaçada. Não cabem as
expectativas burguesas e bem-comportadas que se exigem da mulher: nem afeto,
paixão ou casamento; fidelidade devida somente ao objetivo final. A ética do
sucesso é uma desrazão que permite todas as loucuras: mentiras, fingimento,
dissimulação, traição.
À parte do universo das ruas, a casa
é o refúgio. Leniza é pobre, filha duma viúva que a custo sobrevive. É,
entretanto, no lar modesto onde sobrevivem os afetos verdadeiros. A casa se
presta a abrigo diante da constante ameaça de queda vinda da cidade. A
moralidade das ruas é incompatível com a moralidade da casa e, sendo assim, não
resta alternativa à Leniza que manter uma vida de duplicidade. Cada vez mais se
vê incapaz de equilibrar os opostos: as cartas anônimas, as fofocas, as
denúncias vão minando a segurança daquele pequeno mundo, dissolvendo-o,
forçando Leniza a aderir completamente à cidade, que a quer esmagar,
consumindo-a. Ao mesmo tempo, o remorso, a culpa que sente em mentir para a mãe
cresce a ponto de se transformar em angústia vital. É preciso decidir: ou a
casa ou a rua. Ou o papel de moça às direitas, casadoira, respeitada, ou o
papel de prostituta, escória da sociedade.
Como decidir? É necessário, antes de
tudo, saber-se livre. No começo, Leniza se acha livre por não ter marido e
filhos. A mãe não manda nela. Nada impede que aja como bem entenda. Mas, no
consultório de Oliveira, seu namorado, ouve-o dizer que ninguém é livre. Não o
compreende, de inicio. Depois, quando já está refém do falatório, da chantagem,
dos contratos, das aparências, percebe que não pode decidir. Não é capaz de
romper com a mãe, falar-lhe abertamente de seu comportamento imoral. Isso
significaria o abandono. Tampouco é forte o suficiente para quebrar os laços
que a prendem à cidade. Sofre. A mãe, quando descobre tudo, facilita-lhe as
coisas e, na calada da noite, some-se para nunca mais vê-la. Leniza está só,
mas a angústia desapareceu. Entrega-se ao mundo sem olhar para trás. Em todo
caso, não foi capaz de decidir: as circunstâncias que a levaram a este ponto.
Não era livre, como dizia Oliveira.
Forte retrato – talvez um pouco
moralista, é verdade – da vida carioca dos anos trinta, A Estrela Sobe é um romance que se sobressai pela atualidade da
abordagem. Antecipa a situação de neurose e fetichismo coletivo suscitado pelo
culto às celebridades midiáticas. A prosa, magistralmente construída sobre
diálogos cheios de tensão e amargor, dá ao romance um ritmo vertiginoso,
levando o leitor à imergir na atmosfera de sonho e dor sobre a qual é tecido o
enredo. Como etnografia, o livro é um registro da vida urbana carioca da época,
não só na descrição da paisagem, mas principalmente pelo ambiente moral de seus
habitantes.
Por
que é um clássico brasileiro:
A
Estrela Sobe é um romance cuja genealogia é bem conhecida. Antecedem-lhe as
obras de Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto. Neste
sentido, o papel que lhe pertence é o de atualizar a tradição do romance
carioca, radicalizando-a em certo sentido. A questão ética que perpassa toda a
história coloca Marques Rebelo em sintonia com a sua geração, aproximando-se
assim, de romances como Os Ratos (1935)
de Dyonélio Machado e Angústia (1936)
de Graciliano Ramos.
Obras
do autor:
Marques
Rebelo (pseudônimo de Edi Dias da Cruz) nasceu no Rio de Janeiro (1907) e morreu
em 1975, na mesma cidade. Publicou:
Romance: Marafa (1935), A Estrela Sobe
(1938), O Trapicheiro (1959), A Mudança (1962), A Guerra está em nós (?).
Conto: Oscarina (1931), Três
Caminhos (1933), Stela me abriu a
porta (1942).
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