Crítica: Ivan Ângelo. A Festa. (1976)
Um país prestes a explodir:
Este é um dos mais importantes
romances que foram escritos no Brasil na década de 1970. Isto, por três razões
fundamentais: em primeiro lugar, pelo trabalho experimental com as várias
linguagem narrativas, articuladas sob um viés literário, na fronteira entre o
conto e o romance; em segundo lugar, por conseguir manter a coerência entre a
forma e o conteúdo, pois que ambos expressam não apenas o trabalho de
representação, mas também de compreensão crítica do mundo; e, finalmente, em
terceiro, por alcançar o raro equilíbrio entre o momento histórico datado e a
universalidade temporal, que faz desta, uma obra perene, um verdadeiro clássico.
É característica inconfundível da
literatura brasileira deste período o trabalho experimental, de vanguarda, em
que a linguagem deixa de ser simples instrumento narrativo, com uma função
meramente representativa do mundo, para tornar-se ela mesma, o objeto com que o
escritor cria uma nova realidade. É bem verdade que a herança deixada por
Guimarães Rosa (e pelos mestres do romance do século XX) não foi simples
assimilação passiva, mas trabalho de ressignificação e reapropriação criativa,
em que as questões do tempo presente se encarregaram de atualizar e de levar à
limites ainda não alcançados anteriormente.
No caso particular deste romance
(mas também muito presente em Confissões
de Ralfo, romance de Sérgio Sant’Anna de 1975) assume lugar de destaque o
trabalho do autor com diversas manifestações narrativas, dos mais diferentes
gêneros, que dão a este livro uma atmosfera radicalmente contemporânea. Além do
conto e do romance, que estão aqui numa sintonia inédita, a obra se alimenta da
narrativa jornalística, do inquérito policial, do teatro, do diário íntimo, da
televisão e do cinema. Em vários níveis, ainda se apresentam jargões (dos mais
diversos matizes, burocrático, jurídico), gíria e calão (jovem, homossexual,
regional, etc) numa sucessão vertiginosa de planos narrativos, perspectivas e
cenários que demonstram o seu vigor criativo e estético.
Mas, engana-se quem julgar esta uma
narrativa caótica. O caos, embora aparente e sempre insinuante, está numa
relação dialética com a ordem, que se faz paulatinamente visível e fascinante,
emergindo como de um complexo jogo de quebra-cabeças que inevitavelmente o
leitor acaba por montar. A forma (digamos, caleidoscópica) é também
representação de um mundo cada vez mais fragmentário, contraditório e plural, mas
cujo sentido é possível de ser apreendido, como condição imprescindível para a
ação política. E assim, vão se integrando, cada vez mais manifestadamente,
conteúdo e forma, como dois lados de um mesmo universo.
Aliás, no que diz respeito ao
conteúdo, ao enredo propriamente dito, somos levados ao Brasil de 1970. O autor
oferece-nos, de maneira não linear ou programática, os elementos necessários
para a compreensão deste momento: revolução dos costumes, libertação sexual,
afirmação da cultura jovem, disseminação do uso de drogas. Ao mesmo tempo, este
fluxo tem de se bater com o auge repressivo da ditadura militar, com o
tradicionalismo das “famílias de bem”, com a patrulha ideológica da direita e
da esquerda e, finalmente, com a cultura que apregoa a necessidade de se “levar
vantagem em tudo”. Estamos assim, diante de um caldeirão de contradições
prestes a explodir a qualquer momento, que é o que acontece tão logo o trem que
deveria levar os retirantes para longe de Minas Gerais pega fogo.
Este rastilho de pólvora alcança
rapidamente um galão de combustível: e os fatos, antes circunscritos a uma
ocorrência lamentável da polícia política (do DOPS), vão pouco a pouco
contaminando toda a sociedade mineira. Sob os olhares vigilantes dos órgãos
repressivos, todos os convidados para a festa do aniversário de Roberto são
potencialmente suspeitos de colaboração com os ditos terroristas ou
subversivos. Numa seqüência aterradora de pistas falsas, delações, mentiras,
chantagens e traições somos levados ao cerne de uma sociedade fundada no jogo
de aparências das convenções sociais, em que todos querem se salvar a todo
custo.
O autor quer ser compreendido como
alguém que busca reconstruir simbolicamente uma dada realidade espaço-temporal,
a Belo Horizonte de 1970. Para isso, não dispensa as referências a inúmeros
detalhes da cultura do tempo: seja gíria, objetos de consumo, roupas, bebidas,
etc. Mas, mesmo assim, tão rodeado por estas referências, que deveriam fazer
soá-lo como algo datado, o leitor rapidamente se convence de sua perenidade
estética. Não só porque a geração de 1980 e as seguintes não alcançaram o mesmo
grau de requinte ou de ousadia experimental (e, neste sentido, os escritores de
1970 continuam a ser “de vanguarda”), como também porque as questões que levanta
não se circunscrevem somente àquele período, mas estão aí, impregnadas no nosso
cotidiano, seja em que tempo for.
Por
que é um clássico brasileiro:
A posição de clássico de nossa
literatura recai, talvez por dois motivos: por não se conformar diante das
arbitrariedades políticas e injustiças sociais, sempre presentes neste país e
por não abdicar do trabalho criativo com a linguagem. Seu caráter vanguardista,
malgrado já se tenham transcorridos quase quarenta anos de seu lançamento,
continua ainda de pé, nos provocando, debochando do conformismo do qual muitas
vezes somos lançados.
Obras
do autor:
Ivan
Ângelo nasceu em Barbacena (MG) em 1936. Publicou:
Romance: A Festa (1976);
Novela: A Casa de Vidro (1979);
Conto: Homem sofrendo no quarto (1956), Duas faces (1961);
Literatura Infanto-Juvenil: O ladrão de sonhos (1994), Pode me bejar, se quiser (1997), O vestido luminoso da princesa (1998), O comprador de aventuras e outras crônicas (2000).
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