quinta-feira, 21 de março de 2013


Crítica: Ivan Ângelo. A Festa. (1976)

Um país prestes a explodir:

            Este é um dos mais importantes romances que foram escritos no Brasil na década de 1970. Isto, por três razões fundamentais: em primeiro lugar, pelo trabalho experimental com as várias linguagem narrativas, articuladas sob um viés literário, na fronteira entre o conto e o romance; em segundo lugar, por conseguir manter a coerência entre a forma e o conteúdo, pois que ambos expressam não apenas o trabalho de representação, mas também de compreensão crítica do mundo; e, finalmente, em terceiro, por alcançar o raro equilíbrio entre o momento histórico datado e a universalidade temporal, que faz desta, uma obra perene, um verdadeiro clássico.
            É característica inconfundível da literatura brasileira deste período o trabalho experimental, de vanguarda, em que a linguagem deixa de ser simples instrumento narrativo, com uma função meramente representativa do mundo, para tornar-se ela mesma, o objeto com que o escritor cria uma nova realidade. É bem verdade que a herança deixada por Guimarães Rosa (e pelos mestres do romance do século XX) não foi simples assimilação passiva, mas trabalho de ressignificação e reapropriação criativa, em que as questões do tempo presente se encarregaram de atualizar e de levar à limites ainda não alcançados anteriormente.
            No caso particular deste romance (mas também muito presente em Confissões de Ralfo, romance de Sérgio Sant’Anna de 1975) assume lugar de destaque o trabalho do autor com diversas manifestações narrativas, dos mais diferentes gêneros, que dão a este livro uma atmosfera radicalmente contemporânea. Além do conto e do romance, que estão aqui numa sintonia inédita, a obra se alimenta da narrativa jornalística, do inquérito policial, do teatro, do diário íntimo, da televisão e do cinema. Em vários níveis, ainda se apresentam jargões (dos mais diversos matizes, burocrático, jurídico), gíria e calão (jovem, homossexual, regional, etc) numa sucessão vertiginosa de planos narrativos, perspectivas e cenários que demonstram o seu vigor criativo e estético.
            Mas, engana-se quem julgar esta uma narrativa caótica. O caos, embora aparente e sempre insinuante, está numa relação dialética com a ordem, que se faz paulatinamente visível e fascinante, emergindo como de um complexo jogo de quebra-cabeças que inevitavelmente o leitor acaba por montar. A forma (digamos, caleidoscópica) é também representação de um mundo cada vez mais fragmentário, contraditório e plural, mas cujo sentido é possível de ser apreendido, como condição imprescindível para a ação política. E assim, vão se integrando, cada vez mais manifestadamente, conteúdo e forma, como dois lados de um mesmo universo.
            Aliás, no que diz respeito ao conteúdo, ao enredo propriamente dito, somos levados ao Brasil de 1970. O autor oferece-nos, de maneira não linear ou programática, os elementos necessários para a compreensão deste momento: revolução dos costumes, libertação sexual, afirmação da cultura jovem, disseminação do uso de drogas. Ao mesmo tempo, este fluxo tem de se bater com o auge repressivo da ditadura militar, com o tradicionalismo das “famílias de bem”, com a patrulha ideológica da direita e da esquerda e, finalmente, com a cultura que apregoa a necessidade de se “levar vantagem em tudo”. Estamos assim, diante de um caldeirão de contradições prestes a explodir a qualquer momento, que é o que acontece tão logo o trem que deveria levar os retirantes para longe de Minas Gerais pega fogo.
            Este rastilho de pólvora alcança rapidamente um galão de combustível: e os fatos, antes circunscritos a uma ocorrência lamentável da polícia política (do DOPS), vão pouco a pouco contaminando toda a sociedade mineira. Sob os olhares vigilantes dos órgãos repressivos, todos os convidados para a festa do aniversário de Roberto são potencialmente suspeitos de colaboração com os ditos terroristas ou subversivos. Numa seqüência aterradora de pistas falsas, delações, mentiras, chantagens e traições somos levados ao cerne de uma sociedade fundada no jogo de aparências das convenções sociais, em que todos querem se salvar a todo custo.
            O autor quer ser compreendido como alguém que busca reconstruir simbolicamente uma dada realidade espaço-temporal, a Belo Horizonte de 1970. Para isso, não dispensa as referências a inúmeros detalhes da cultura do tempo: seja gíria, objetos de consumo, roupas, bebidas, etc. Mas, mesmo assim, tão rodeado por estas referências, que deveriam fazer soá-lo como algo datado, o leitor rapidamente se convence de sua perenidade estética. Não só porque a geração de 1980 e as seguintes não alcançaram o mesmo grau de requinte ou de ousadia experimental (e, neste sentido, os escritores de 1970 continuam a ser “de vanguarda”), como também porque as questões que levanta não se circunscrevem somente àquele período, mas estão aí, impregnadas no nosso cotidiano, seja em que tempo for.

Por que é um clássico brasileiro:

            A posição de clássico de nossa literatura recai, talvez por dois motivos: por não se conformar diante das arbitrariedades políticas e injustiças sociais, sempre presentes neste país e por não abdicar do trabalho criativo com a linguagem. Seu caráter vanguardista, malgrado já se tenham transcorridos quase quarenta anos de seu lançamento, continua ainda de pé, nos provocando, debochando do conformismo do qual muitas vezes somos lançados.

Obras do autor:

Ivan Ângelo nasceu em Barbacena (MG) em 1936. Publicou:

Romance: A Festa (1976);
Novela: A Casa de Vidro (1979);
Conto: Homem sofrendo no quarto (1956), Duas faces (1961);
Literatura Infanto-Juvenil: O ladrão de sonhos (1994), Pode me bejar, se quiser (1997), O vestido luminoso da princesa (1998), O comprador de aventuras e outras crônicas (2000).

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