segunda-feira, 18 de março de 2013




Crítica: José Lins do Rego. Usina. (1936)



Modernidade capitalista no Nordeste brasileiro:

            Usina é, sem dúvida alguma, o mais dramático dos romances do ciclo da cana-de-açúcar. Isto porque sente-se nele uma aceleração do movimento histórico e a percepção da tragédia se torna mais aguda. Esta “aceleração” é causada pela transformação da estrutura de produção que substitui o engenho: a usina. A mudança de engenho para usina corresponde à implantação da moderna agroindústria capitalista no campo.
            Evidentemente, que as relações de trabalho e de produção que o engenho tradicional ensejara já duravam mais de quatrocentos anos. Durante todo este tempo floresceu uma cultura tradicional, baseado na rotina dos métodos de produção e na estabilidade das relações sociais. O lugar social, ou seja, o papel que cabia a cada pessoa desempenhar neste mundo já estava mais ou menos definido e qualquer alteração nesse sentido causaria espécie à comunidade.
            Entretanto, como já havia ficado claro nos romances anteriores de José Lins do Rego, o tempo dos grandes engenhos da várzea nordestina havia passado. A crise da civilização do açúcar também repercute no âmbito da cultura e dos valores tradicionais. Ela significa crise da autoridade do senhor de engenho; crise nas relações de compadrio; crise dos valores familiares; crise do trabalho. O símbolo maior deste mundo em crise fora o próprio doutor Carlos de Melo – o herdeiro do engenhoo - que fracassara no seu intento de resgatar o mundo perdido do coronel José Paulino. Carlos de Melo desiste do engenho e vende a sua parte na propriedade para seus parentes. Assim se encerra, no âmbito literário deste ciclo, a possibilidade de recuperação daquele mundo idílico.
            Novos tempos surgem. Está em curso o processo de modernização da grande propriedade rural nordestina. Os engenhos desaparecem para dar lugar à usina de açúcar e de álcool. Esta não é apenas uma mudança tecnológica, mas também uma radical transformação de mentalidade. O senhor de engenho se vê como um senhor feudal que se responsabiliza não apenas pela produção agrícola, como também pela manutenção da ordem tradicional. Neste sentido ele é o patriarca, o líder moral da comunidade. Já o usineiro é o empresário capitalista moderno que se move única e exclusivamente pelo cálculo e pela ambição.
            O doutor Juca, filho do coronel José Paulino é quem vai comandar esta transformação. Em conseqüência dela, os grilhões da opressão social que já eram bastante fortes, se intensificam. Os antigos moradores da fazenda são rebaixados à condição de operários, destituídos de suas prerrogativas “feudais”, trocando as velhas relações de dependência por novas relações de trabalho. Sentem, com mais vivacidade, o jugo da exploração da empresa capitalista, tida como pior do que o da escravidão.
            No entanto, a velha cultura tradicional ainda subsiste. O doutor Juca, velozmente transformado num rico usineiro, não incorporara de todo o “espírito do capitalismo”, que sugere não só audácia, como também uma boa dose de prudência nos negócios, poupança e preparo para as crises cíclicas do sistema. Juca, no fundo, é ainda um menino mimado, obsedado pelos prazeres do dinheiro que o permitem viver uma existência nababesca. Gastando a rodo, endividando-se, alheio à qualquer cálculo ou planejamento futuro, Juca acaba vítima de seu despreparo para enfrentar essas novas situações. Na primeira crise do açúcar, vê a fortuna rapidamente dissipada e a família reduzida à miséria.
            Contrastando com ele, temos o doutor Luís, da usina São Félix. Apesar de ter sido menos “instruído” que o doutor Juca, guarda consigo certos valores que o permitem não somente sobreviver às crises, como também crescer com elas. Luís vem do sertão, onde o irromper constante das secas, o fizera mais prudente que Juca, mais conformado aos reveses da sorte. É esta mentalidade que o permite vencer no mundo novo do capitalismo. Não esbanja, não se endivida, planeja, explora seus trabalhadores e engana seus fornecedores. É uma raposa que conseguiu transpor a competitividade pela sobrevivência no sertão para a competitividade pela sobrevivência no mercado.
            O conjunto dos trabalhadores da usina do doutor Juca também rebela-se contra a nova ordem econômica imposta. Estão mais pobres e, consequentemente, o fanatismo religioso recrudesce em inúmeras manifestações supersticiosas. O clima de fanatismo – que nada mais é que uma forma primitiva de resistência – recrudesce quando são acossados pela força policial do estado. Desfaz-se então qualquer horizonte de colaboração entre trabalhadores e patrão, para sempre divididos num ódio de classe.
            Ao cabo, com as crises sucessivas, Juca acaba também impregnando-se da superstição, ou seja, deixa-se tomar pelo clima lúgubre de maldições e imprecações dirigidas a ele. Não consegue, tomado por uma doença, reagir e é levado de roldão pela sanha especulativa dos seus concorrentes. A aventura do capitalismo destrói, afinal, o mundo do engenho Santa Rosa.       

Por que é um clássico brasileiro:

            Esta é uma das obras mais complexas do moderno realismo da literatura brasileira. Os temas que propõe são verdadeiros estudos psico-sociológicos, de rara profundidade. Apesar disso, mantém uma narrativa mágica, impregnada da memória e do lirismo, tão peculiares ao autor. Ou seja, apesar de ser uma obra sociológica, não deixa de ser, na mesma medida, um grande monumento literário. Livro imprescindível para a compreensão do Brasil moderno.

Obras do autor:

José Lins Cavalcanti do Rego nasceu em Pilar (PB) em 1901 e morreu no Rio de Janeiro (1957). Publicou:
Romance: Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936), Pureza (1937), Pedra Bonita (1938), Riacho Doce (1939), Água Mãe (1941), Fogo Morto (1943),  Eurídice (1947), Cangaceiros (1953);
Autobiografia: Meus Verdes Anos (1956);
Literatura Infantil: Histórias da Velha Totônia (1936);
Ensaio: Gordos e Magros (1943), Pedro Américo (1944), Conferências no Prata (1946), Poesia e vida (1946), Homens, seres e coisas (1952), Bota de sete léguas (1957).

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