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Crítica: José Lins do Rego. Usina. (1936)
Modernidade capitalista no Nordeste
brasileiro:
Usina
é, sem dúvida alguma, o mais dramático dos romances do ciclo da
cana-de-açúcar. Isto porque sente-se nele uma aceleração do movimento histórico
e a percepção da tragédia se torna mais aguda. Esta “aceleração” é causada pela
transformação da estrutura de produção que substitui o engenho: a usina. A
mudança de engenho para usina corresponde à implantação da moderna
agroindústria capitalista no campo.
Evidentemente, que as relações de
trabalho e de produção que o engenho tradicional ensejara já duravam mais de
quatrocentos anos. Durante todo este tempo floresceu uma cultura tradicional,
baseado na rotina dos métodos de produção e na estabilidade das relações
sociais. O lugar social, ou seja, o papel que cabia a cada pessoa desempenhar
neste mundo já estava mais ou menos definido e qualquer alteração nesse sentido
causaria espécie à comunidade.
Entretanto, como já havia ficado
claro nos romances anteriores de José Lins do Rego, o tempo dos grandes
engenhos da várzea nordestina havia passado. A crise da civilização do açúcar
também repercute no âmbito da cultura e dos valores tradicionais. Ela significa
crise da autoridade do senhor de engenho; crise nas relações de compadrio;
crise dos valores familiares; crise do trabalho. O símbolo maior deste mundo em
crise fora o próprio doutor Carlos de Melo – o herdeiro do engenhoo - que
fracassara no seu intento de resgatar o mundo perdido do coronel José Paulino.
Carlos de Melo desiste do engenho e vende a sua parte na propriedade para seus
parentes. Assim se encerra, no âmbito literário deste ciclo, a possibilidade de
recuperação daquele mundo idílico.
Novos tempos surgem. Está em curso o
processo de modernização da grande propriedade rural nordestina. Os engenhos
desaparecem para dar lugar à usina de açúcar e de álcool. Esta não é apenas uma
mudança tecnológica, mas também uma radical transformação de mentalidade. O
senhor de engenho se vê como um senhor feudal que se responsabiliza não apenas
pela produção agrícola, como também pela manutenção da ordem tradicional. Neste
sentido ele é o patriarca, o líder moral da comunidade. Já o usineiro é o
empresário capitalista moderno que se move única e exclusivamente pelo cálculo
e pela ambição.
O doutor Juca, filho do coronel José
Paulino é quem vai comandar esta transformação. Em conseqüência dela, os
grilhões da opressão social que já eram bastante fortes, se intensificam. Os
antigos moradores da fazenda são rebaixados à condição de operários,
destituídos de suas prerrogativas “feudais”, trocando as velhas relações de
dependência por novas relações de trabalho. Sentem, com mais vivacidade, o jugo
da exploração da empresa capitalista, tida como pior do que o da escravidão.
No entanto, a velha cultura
tradicional ainda subsiste. O doutor Juca, velozmente transformado num rico
usineiro, não incorporara de todo o “espírito do capitalismo”, que sugere não
só audácia, como também uma boa dose de prudência nos negócios, poupança e
preparo para as crises cíclicas do sistema. Juca, no fundo, é ainda um menino
mimado, obsedado pelos prazeres do dinheiro que o permitem viver uma existência
nababesca. Gastando a rodo, endividando-se, alheio à qualquer cálculo ou
planejamento futuro, Juca acaba vítima de seu despreparo para enfrentar essas
novas situações. Na primeira crise do açúcar, vê a fortuna rapidamente
dissipada e a família reduzida à miséria.
Contrastando com ele, temos o doutor
Luís, da usina São Félix. Apesar de ter sido menos “instruído” que o doutor
Juca, guarda consigo certos valores que o permitem não somente sobreviver às
crises, como também crescer com elas. Luís vem do sertão, onde o irromper
constante das secas, o fizera mais prudente que Juca, mais conformado aos
reveses da sorte. É esta mentalidade que o permite vencer no mundo novo do
capitalismo. Não esbanja, não se endivida, planeja, explora seus trabalhadores
e engana seus fornecedores. É uma raposa que conseguiu transpor a
competitividade pela sobrevivência no sertão para a competitividade pela
sobrevivência no mercado.
O conjunto dos trabalhadores da
usina do doutor Juca também rebela-se contra a nova ordem econômica imposta.
Estão mais pobres e, consequentemente, o fanatismo religioso recrudesce em
inúmeras manifestações supersticiosas. O clima de fanatismo – que nada mais é
que uma forma primitiva de resistência – recrudesce quando são acossados pela
força policial do estado. Desfaz-se então qualquer horizonte de colaboração
entre trabalhadores e patrão, para sempre divididos num ódio de classe.
Ao cabo, com as crises sucessivas,
Juca acaba também impregnando-se da superstição, ou seja, deixa-se tomar pelo
clima lúgubre de maldições e imprecações dirigidas a ele. Não consegue, tomado
por uma doença, reagir e é levado de roldão pela sanha especulativa dos seus
concorrentes. A aventura do capitalismo destrói, afinal, o mundo do engenho
Santa Rosa.
Por que é um
clássico brasileiro:
Esta é uma das obras mais complexas
do moderno realismo da literatura brasileira. Os temas que propõe são
verdadeiros estudos psico-sociológicos, de rara profundidade. Apesar disso,
mantém uma narrativa mágica, impregnada da memória e do lirismo, tão peculiares
ao autor. Ou seja, apesar de ser uma obra sociológica, não deixa de ser, na
mesma medida, um grande monumento literário. Livro imprescindível para a
compreensão do Brasil moderno.
Obras do autor:
José Lins
Cavalcanti do Rego nasceu em Pilar (PB) em 1901 e morreu no Rio de Janeiro
(1957). Publicou:
Romance: Menino de Engenho (1932), Doidinho
(1933), Bangüê (1934), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936), Pureza (1937), Pedra Bonita (1938),
Riacho Doce (1939), Água Mãe (1941), Fogo Morto (1943), Eurídice (1947), Cangaceiros (1953);
Autobiografia: Meus Verdes Anos (1956);
Literatura Infantil: Histórias da Velha Totônia (1936);
Ensaio: Gordos e Magros (1943), Pedro
Américo (1944), Conferências no Prata
(1946), Poesia e vida (1946), Homens, seres e coisas (1952), Bota de sete léguas (1957).
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