Crítica: Bernardo Carvalho. Nove Noites (2002).
Um meta-romance investigativo:
A
experiência da “alteridade” é um dos sustentáculos de toda Antropologia
Cultural. O termo se refere à sensação de estranhamento que se dá quando nos
deparamos com o Outro, ou seja, com alguém que viva num universo cultural
diverso do nosso. Neste momento, avaliamos não somente os seus costumes,
valores ou ideias, como também reavaliamos os nossos próprios costumes, valores
ou ideias. Ou seja, através do contato com o radicalmente distinto (o Outro)
somos capazes de nos enxergar melhor, na medida em que “desnaturalizamos” uma
série de hábitos (conscientes ou não) que são condicionados pela cultura,
mas que são difíceis de enxergar, pois estão encobertos pelo véu do cotidiano,
que os torna “comuns”, “naturais”.
No caso, Nove Noites é um romance impregnado deste “estranhamento” que a
experiência da alteridade nos suscita. Só que a alteridade não se dá sob uma
perspectiva antropológica, mas sim, literária. Não há aqui, nenhuma repetição
dos códigos ou da arquitetura do romance, de maneira que, sem pretendê-lo, o
autor se coloca na vanguarda do experimentalismo em prosa de sua geração. No
nível mais básico da linguagem, por exemplo, o autor lida com várias peças,
oriundas de discursos distintos: jornalismo, etnografia, diário íntimo,
correspondência epistolar, relatórios policiais, mitologia indígena,
memorialismo e coloquialismo. As relações espaço-temporais também são complexas
e remetem a vários contextos: o interior do Maranhão, seja nos dias de hoje,
seja na década de 1930; os Estados Unidos, hoje e há sessenta anos atrás; uma
aldeia indígena, vivendo ainda nos tempos pré-diluvianos; o mundo acadêmico do
Rio de Janeiro sob o governo Vargas. Enfim, cada uma dessas situações remete,
inexoravelmente, a uma tipologia discursiva distinta, seja em português, inglês
ou na língua dos Tremai; seja no jargão acadêmico, na linguagem coloquial,
investigativa ou policial; seja, enfim, nas várias épocas e momentos de cada
universo cultural.
O que se desenha como exaustivo e
panorâmico, na realidade se revela como prosa altamente sucinta, num texto
enxuto. A primeira leitura pode se revelar confusa, tal a magnitude das falas
que os contextos remetem; mas o texto se encarrega de, progressivamente,
revelar os fundamentos do seu próprio sentido. Esta técnica, que aos poucos
descortina o mistério inscrito no texto, faz com que o leitor tenha a sensação
de ser, ele próprio o agente da decifração do mistério. É necessário, neste
caso, estar atento para os detalhes que subjazem nas entrelinhas e, a partir de
cada revelação, ser capaz de ressignificar todas as páginas que ficaram para
trás. Nessas idas e vindas da leitura está o verdadeiro prazer do texto.
As questões já abordadas seriam
satisfatórias para que tivéssemos diante de nós um bom livro policial. Afinal,
surgem contextos exóticos, um suicídio misterioso e um narrador obcecado por
seu desvendamento. Mas, para além dos estereótipos, estamos diante de um drama.
Não somente de um drama existencial, mas também de um drama literário. Isto
porque, na realidade, Nove Noites não
é somente a história do antropólogo Buell Quain e de sua tragédia pessoal;
também não é só a história do narrador atormentado, roído de ansiedade, à
procura de seu personagem. O livro é o drama de sua própria existência como
obra de literatura. Até o seu desfecho, o leitor fica em suspenso, sem saber se
aquele livro se revelará como romance ou se, desafortunadamente, acabará
malogrando, no limiar dos muitos gêneros que suscita, mas não realiza.
Esta ambigüidade radical do texto,
que se desdobra em tantos gêneros, apesar de manter-se como romance, se revela
mais eficazmente como meta-romance. Ou seja, é um texto que se vai construindo
para ser um romance – que não existe objetivamente, senão nos propósitos do
narrador – através do qual nós apreendemos os passos de sua tessitura
literária. Experimentações como esta já não são novidades na literatura
brasileira, talvez desde as Confissões de
Ralfo de Sérgio Sant’Anna (1975). Mas a radicalidade de sua experiência, o
grau de consistência que atinge, somente se realiza com este Nove Noites. Isto porque enquanto em Confissões de Ralfo já somos
imediatamente levados à contemplar a obra literária como artifício, em Nove
Noites ela não se revela assim. Talvez muito pelo
contrário, já que o livro se estriba numa verossimilhança que é reforçada pela
situação de trabalhar com elementos oriundos da história, que tiveram uma vida
objetiva. Parece até contraditório, mas é o narrador (anônimo) quem faz parte
de um universo ficcional. Isto desconstrói nossas certezas, já que a tendência
clássica do leitor é apoiar-se na versão dos fatos apresentada pelo narrador.
Mas, enfim, neste caso, embora não seja um mentiroso, o narrador é um
personagem ficcional legítimo. Não se confunde com o autor, embora possa ter
consigo um vínculo, talvez como um alter-ego.
Não
é um texto fácil, realmente. Mas a dificuldade da leitura de Nove Noites não está, como pudesse soar
óbvio, na decifração da palavra, senão na decifração do sentido, do contexto e
do fluxo narrativo. Os problemas que procura levantar, aliado a uma firme
consciência da arquitetura do romance e de suas limitações, fazem deste, certamente,
o mais perturbador romance brasileiro da primeira década do século XXI.
Por que é um
clássico brasileiro:
Nove
noites recupera para a literatura brasileira o experimentalismo de
vanguarda, que desde a década de 1980, aparecera episodicamente, sem gerar um
movimento mais consistente. Raras vezes, contudo, um romance nosso consegue ser
de vanguarda e ao mesmo tempo, um drama, antes preferindo soar de maneira
irônica. A subversão das fronteiras entre os gêneros também é feita de modo
brilhante, sem copiar o que já se tinha feito e inaugurando uma narrativa
ficcional amplamente baseada na verossimilhança do enredo.
Obras do autor:
Bernardo
Teixeira de Carvalho nasceu no Rio de Janeiro (1960). Publicou:
Romance: Onze (1995), Os Bêbados e os
Sonâmbulos (1996), Teatro (1998),
As Iniciais (1999), Medo de Sade (2000), Nove Noites (2002), Mongólia (2003), O Sol se põe
em São Paulo
(2007), O Filho da mãe (2009).
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