Crítica: Machado de Assis. D. Casmurro (1899)
O jardim das veredas que se bifurcam:
Singular na sua expressividade, ritmo e força; plural por suas várias
dimensões latentes, pela tensão que emana de seus subterrâneos: assim é D. Casmurro, obra-prima de Machado de
Assis.
Á primeira-vista, o mais corriqueiro
dos temas literários: o da traição. O leitor, a qualquer aproximação menos
desatenta certifica-se de que há mais, talvez muito ainda encoberto pela ironia
do autor. Não basta apenas uma leitura. As várias leituras que se vão sucedendo
não esgotam o fascínio ou o mistério deste livro. Há sempre muitas portas pelas
quais se podem adentrar na ficção machadiana: cada uma delas nos leva a
labirintos, bifurcações e encruzilhadas, que sempre se desdobram e tornam a
confundir. Pode ser possível acreditar em infinitas possibilidades de um
romance?
Há um guia seguro nesta leitura? O
leitor faz a escolha: por um lado há o narrador, um Bentinho maduro, sem
ilusões, irônico e amante da ópera. Este Bentinho dispõe suas memórias seguindo
seus próprios interesses estéticos e filosóficos, responsabiliza-se pelo ritmo
da narrativa, enfatiza tal ou qual movimento, pinta os retratos das
personagens. Mas será isento? O fato de querer unir as duas pontas de sua vida
não o faz forçar-lhe um sentido prévio? É possível que o Bentinho maduro
herdasse do Bentinho jovem a superficialidade do julgamento moral, que fosse
ainda confuso, inseguro, infantil. Em todo caso, o Bentinho maduro é a
perspectiva da frustração, da desilusão e do sentimento de fracasso.
Já o Bentinho jovem nos dá a
perspectiva viciada pelo ciúme. Em qualquer conclusão que tenha alcançado deve
ser descontado o respectivo grau de distorção. Esta distorção provocada pelo
ciúme é ainda agravada por seu lugar social: rodeado de dependentes que o bajulam
e cujas intenções não alcança compreender, Bentinho acostuma-se desde logo a
ver-se como o centro do mundo, em direção do qual são necessários todos os
mimos e atenções. Os misteres da
dissimulação que diariamente lhe ensinam os que o rodeiam, tolhem sua
capacidade de ver claramente as ações e as intenções das pessoas. Desconfia de
tudo e de todos, pois esta é a única arma que dispõe para não naufragar num
mundo tão pouco seguro e confiável.
Não temos a perspectiva de Capitu
para nos arvorarmos e esta é a principal defesa que se lhe pode fazer. Vemos
Capitu através de quatro olhares: o de Bentinho maduro, o de Bentinho jovem, o
de José Dias e o de Dona Glória. Todos desconfiam de que ela fosse uma
arrivista, uma “alpinista social” como se dizia então. Dona Glória resiste-lhe
até ser privada de seu filho, a partir daí, aceita e desfruta de sua companhia.
Novamente, quando deixa de ser apenas companhia e passa a ser nora, Dona Glória
volta a alimentar desconfianças. Intimamente, sabe ser aquele um casamento de
conveniência para Capitu, na medida em que a permite desfrutar de um status social superior. Já José Dias nos
dá o ponto de vista do criado e do dependente. Não hesita em difamar Capitu
enquanto a união não se confirma; confirmando-se, não lhe poupa os elogios.
Bentinho efetivamente não crê em Capitu: a convivência mostrou-lhe ser esta a
mestra da dissimulação, a sonsa, a fingida. Bentinho a deseja, mas a posse
total só pode significar aniquilação: diversas vezes quis matá-la. Não é capaz
de amar Capitu, mas, antes de tudo, delicia-se intimamente com a dor
auto-infringida pelo ciúme, como confessa.
Capitu traiu Bentinho? É possível
que sim e o narrador faz o possível para que o leitor confirme esta sua
opinião. Mas, mesmo o Bentinho maduro – que não é acostumado a pensar por si
mesmo – duvida de sua perspectiva, não está seguro daquilo que vê.
Mas, e se nos dispuséssemos a
compreender Capitu como vítima e não como algoz de toda esta situação? Afinal,
ela é mulher, duma classe social inferior a de Bentinho, ameaçada pela pobreza
iminente, sem qualquer perspectiva de vida que não fosse o casamento. Diante
dos obstáculos, desenvolveu uma sensibilidade adequada ao contexto, o tato, o
traquejo social. Saber se comportar, saber elogiar, ser dócil, amável, são qualidades
fundamentais para que uma moça na sua condição pudesse sobreviver. Aquilo que
em Capitu são qualidades necessárias para a vida, Bentinho as vê como falhas de
caráter, como dissimulação. Não é possível aceitar passivamente a perspectiva
doentia de Bentinho sobre Capitu, que pode ter sido vítima da intolerância de
uma sociedade aversa à mobilidade social e atavicamente tradicionalista.
Afinal, D. Casmurro é um jogo de espelhos, numa metáfora querida pelo
escritor argentino Jorge Luís Borges (que bem poderia ter sido o leitor ideal
do romance). Na sua leitura, nos movemos entre aparências e o exercício de
alcançar a verdade vai ter que necessariamente passar pelo “jardim das veredas
que se bifurcam”.
Por que é um
Clássico Brasileiro:
D.
Casmurro é o mais universal romance da literatura brasileira e o ponto de
partida para a nossa literatura moderna. Inaugura o subjetivismo narrativo radical
e há quem defenda que Machado antecedeu Proust, em certo sentido. Rompeu com o
naturalismo descritivo que permeia nossa produção ficcional e apontou novos
caminhos que seriam reelaborados e reconstruídos pela tradição que o sucedeu.
Ainda assim, é uma obra incomum, única em nossa história literária: seja pela
máxima elegância de estilo, pela força expressiva, pela metáfora social que
insinua, pela representação das relações de classe que antevê ou pelo
desvelamento do fundo doentio e compulsivo que se imiscui naquilo a que
chamamos amor.
Obras do autor:
Joaquim Maria
Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e morreu na mesma cidade em
1908. Publicou:
Romance: Ressurreição (1872), A Mão e
a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), D.
Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904),
Memorial de Aires (1908);
Contos: Contos Fluminenses (1870), Histórias
da Meia-Noite (1873), Histórias sem
data (1884), Várias Histórias (1896),
Páginas Recolhidas (1899), Relíquias da Casa Velha (1906), Outras Relíquias (1910), Novas Relíquias (1922), Casa Velha (1944);
Poesia: Falenas (1870), Americanas (1875),
Ocidentais (1880), Crisálidas (1884), Poesias Completas (1901);
Teatro: Hoje avental, amanhã, luva (1860), Queda que as mulheres têm para os tolos (1861), Desencantos (1861), O Caminho da Porta (1863), O
Protocolo (1863), Quase Ministro (1864),
Teatro (1861), Os Deuses da Casaca (1866), Tu,
só tu, puro amor (1880), Não
consultes médico (1896), Lições de
Botânica (1906), Teatro (1910).
Nenhum comentário:
Postar um comentário