sábado, 16 de março de 2013







Crítica: Machado de Assis. D. Casmurro (1899)



O jardim das veredas que se bifurcam:

Singular na sua expressividade, ritmo e força; plural por suas várias dimensões latentes, pela tensão que emana de seus subterrâneos: assim é D. Casmurro, obra-prima de Machado de Assis.
            Á primeira-vista, o mais corriqueiro dos temas literários: o da traição. O leitor, a qualquer aproximação menos desatenta certifica-se de que há mais, talvez muito ainda encoberto pela ironia do autor. Não basta apenas uma leitura. As várias leituras que se vão sucedendo não esgotam o fascínio ou o mistério deste livro. Há sempre muitas portas pelas quais se podem adentrar na ficção machadiana: cada uma delas nos leva a labirintos, bifurcações e encruzilhadas, que sempre se desdobram e tornam a confundir. Pode ser possível acreditar em infinitas possibilidades de um romance?
            Há um guia seguro nesta leitura? O leitor faz a escolha: por um lado há o narrador, um Bentinho maduro, sem ilusões, irônico e amante da ópera. Este Bentinho dispõe suas memórias seguindo seus próprios interesses estéticos e filosóficos, responsabiliza-se pelo ritmo da narrativa, enfatiza tal ou qual movimento, pinta os retratos das personagens. Mas será isento? O fato de querer unir as duas pontas de sua vida não o faz forçar-lhe um sentido prévio? É possível que o Bentinho maduro herdasse do Bentinho jovem a superficialidade do julgamento moral, que fosse ainda confuso, inseguro, infantil. Em todo caso, o Bentinho maduro é a perspectiva da frustração, da desilusão e do sentimento de fracasso.
            Já o Bentinho jovem nos dá a perspectiva viciada pelo ciúme. Em qualquer conclusão que tenha alcançado deve ser descontado o respectivo grau de distorção. Esta distorção provocada pelo ciúme é ainda agravada por seu lugar social: rodeado de dependentes que o bajulam e cujas intenções não alcança compreender, Bentinho acostuma-se desde logo a ver-se como o centro do mundo, em direção do qual são necessários todos os mimos e atenções.  Os misteres da dissimulação que diariamente lhe ensinam os que o rodeiam, tolhem sua capacidade de ver claramente as ações e as intenções das pessoas. Desconfia de tudo e de todos, pois esta é a única arma que dispõe para não naufragar num mundo tão pouco seguro e confiável.
            Não temos a perspectiva de Capitu para nos arvorarmos e esta é a principal defesa que se lhe pode fazer. Vemos Capitu através de quatro olhares: o de Bentinho maduro, o de Bentinho jovem, o de José Dias e o de Dona Glória. Todos desconfiam de que ela fosse uma arrivista, uma “alpinista social” como se dizia então. Dona Glória resiste-lhe até ser privada de seu filho, a partir daí, aceita e desfruta de sua companhia. Novamente, quando deixa de ser apenas companhia e passa a ser nora, Dona Glória volta a alimentar desconfianças. Intimamente, sabe ser aquele um casamento de conveniência para Capitu, na medida em que a permite desfrutar de um status social superior. Já José Dias nos dá o ponto de vista do criado e do dependente. Não hesita em difamar Capitu enquanto a união não se confirma; confirmando-se, não lhe poupa os elogios. Bentinho efetivamente não crê em Capitu: a convivência mostrou-lhe ser esta a mestra da dissimulação, a sonsa, a fingida. Bentinho a deseja, mas a posse total só pode significar aniquilação: diversas vezes quis matá-la. Não é capaz de amar Capitu, mas, antes de tudo, delicia-se intimamente com a dor auto-infringida pelo ciúme, como confessa.
            Capitu traiu Bentinho? É possível que sim e o narrador faz o possível para que o leitor confirme esta sua opinião. Mas, mesmo o Bentinho maduro – que não é acostumado a pensar por si mesmo – duvida de sua perspectiva, não está seguro daquilo que vê.
            Mas, e se nos dispuséssemos a compreender Capitu como vítima e não como algoz de toda esta situação? Afinal, ela é mulher, duma classe social inferior a de Bentinho, ameaçada pela pobreza iminente, sem qualquer perspectiva de vida que não fosse o casamento. Diante dos obstáculos, desenvolveu uma sensibilidade adequada ao contexto, o tato, o traquejo social. Saber se comportar, saber elogiar, ser dócil, amável, são qualidades fundamentais para que uma moça na sua condição pudesse sobreviver. Aquilo que em Capitu são qualidades necessárias para a vida, Bentinho as vê como falhas de caráter, como dissimulação. Não é possível aceitar passivamente a perspectiva doentia de Bentinho sobre Capitu, que pode ter sido vítima da intolerância de uma sociedade aversa à mobilidade social e atavicamente tradicionalista.
            Afinal, D. Casmurro é um jogo de espelhos, numa metáfora querida pelo escritor argentino Jorge Luís Borges (que bem poderia ter sido o leitor ideal do romance). Na sua leitura, nos movemos entre aparências e o exercício de alcançar a verdade vai ter que necessariamente passar pelo “jardim das veredas que se bifurcam”.

Por que é um Clássico Brasileiro:
           
            D. Casmurro é o mais universal romance da literatura brasileira e o ponto de partida para a nossa literatura moderna. Inaugura o subjetivismo narrativo radical e há quem defenda que Machado antecedeu Proust, em certo sentido. Rompeu com o naturalismo descritivo que permeia nossa produção ficcional e apontou novos caminhos que seriam reelaborados e reconstruídos pela tradição que o sucedeu. Ainda assim, é uma obra incomum, única em nossa história literária: seja pela máxima elegância de estilo, pela força expressiva, pela metáfora social que insinua, pela representação das relações de classe que antevê ou pelo desvelamento do fundo doentio e compulsivo que se imiscui naquilo a que chamamos amor.

Obras do autor:

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e morreu na mesma cidade em 1908. Publicou:
Romance: Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia (1878), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), D. Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908);
Contos: Contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia-Noite (1873), Histórias sem data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899), Relíquias da Casa Velha (1906), Outras Relíquias (1910), Novas Relíquias (1922), Casa Velha (1944);
Poesia: Falenas (1870), Americanas (1875), Ocidentais (1880), Crisálidas (1884), Poesias Completas (1901);
Teatro: Hoje avental, amanhã, luva (1860), Queda que as mulheres têm para os tolos (1861), Desencantos (1861), O Caminho da Porta (1863), O Protocolo (1863), Quase Ministro (1864), Teatro (1861), Os Deuses da Casaca (1866), Tu, só tu, puro amor (1880), Não consultes médico (1896), Lições de Botânica (1906), Teatro (1910).

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