Crítica: João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio (1971)
Uma história de aretê:
Aretê
(άρετή) em grego significa virtude,
mais especificamente certa ética do heroísmo em que se pode demonstrar força e
determinação face às adversidades ou seja, uma variante da “coragem”.
Inicialmente o termo vinculava-se às virtudes guerreiras, mas aos poucos,
generalizou-se como sinônimo de “excelência” também aos atributos do espírito.
Havida como uma deusa alegórica era, para os gregos, filha da Justiça e irmã da
Harmonia; já os romanos concebiam-na como filha da Verdade e irmã da Honra. Enfim,
aretê era um determinado atributo do
caráter nobre, honroso, restrito aos cidadãos, homens livres, aristoi.
Sargento
Getúlio é um romance que anuncia ser uma “história de aretê”. O
protagonista, que dá título ao livro, é um homem rude que ganha a vida como
jagunço do coronel Acrísio e que traz consigo mais de vinte mortes no
currículo. Estamos diante de um assassino profissional, um matador de aluguel,
alguém que compõe a realidade de injustiça, arbítrio e violência imperantes no
Nordeste rural da década de 1950. Em tudo, o sargento Getúlio dos Santos
Bezerra parece estar distante do ideal aristocrático de virtude cultivada pelos
antigos gregos. Esta contradição inicial desfaz-se quando descobrimos que, sob
a aparente vileza do protagonista, oculta-se um homem fiel a seus princípios,
incapaz de agir contrariamente a eles, sob pena de anular-se enquanto pessoa e
desmoralizar-se como homem.
Importante, antes de tudo, é reconstituir
o lugar social do sargento Getúlio. Enquanto jagunço, se insere nas teias da
dominação política e ideológica da elite senhorial nordestina: primeiro, como dependente do chefe local, cuja
identidade básica reside no fato de pertencer ao serviço desta pessoa; segundo,
como agente do processo de dominação,
na medida que toma para si o encargo da manutenção da ordem social favorável às
hostes do poder; terceiro como resultado
da cultura da violência e da autoridade, da qual é o principal defensor. Ou
seja, por onde quer que se olhe, a figura do sargento Getúlio é um produto das relações de poder e, ao
mesmo tempo, um produtor destas
mesmas relações.
Haja visto que o seu mundo esteja
saturado duma ideologia que exalta as virtudes do mando e da obediência,
inquestionáveis diante de uma situação de opressão, o protagonista introjeta-as
na sua própria visão de mundo, reproduzindo-as incessantemente. Não à toa,
idealiza e admira a situação do coronel Acrísio, sentindo-se honrado em fazer
parte do seu serviço e procurando imitar-lhe os gestos, a postura sobranceira e
o tom de voz autoritária. Não passa por sua cabeça ser apenas uma engrenagem –
altamente dispensável e substituível – de uma realidade injusta e cruel. Na
realidade, os valores que partilha já estão plenamente naturalizados, em
harmonia com o mundo que enxerga e que sente.
Prestes a aposentar-se recebe mais
uma incumbência do coronel. Deve levar um oposicionista político da cidade de
Paulo Afonso, na Bahia até a capital de Sergipe. Não pode matá-lo, mas tem que
entregá-lo vivo ao chefe. Eis que, estando no meio do percurso, recebe uma contra-ordem:
em razão de mudanças na política
estadual, deve soltar o preso e sumir-se por uns tempos. Getúlio estranha o
novo posicionamento do chefe, homem cumpridor dos acordos e fiel à sua palavra.
Não gosta de mudanças (pois que elas suspendem as certezas sedimentadas) e não
consegue adaptar-se a circunstâncias novas. Desconfia, por isso, que a ordem
não tenha partido do chefe e resolve, apesar das resistências que encontra pelo
caminho, levar a sua missão até o fim.
Não há como saber se as mudanças políticas
a que se referem as ordens do coronel sejam de caráter estrutural ou meramente
circunstancial. Nem é isso que importa, mas sim o próprio irromper da mudança
em si mesma. Ela é a maior ameaça à ordem, à própria segurança do mundo de
Getúlio. Sintomático é perceber que um homem como este, completamente despojado
de qualquer temor diante da morte, da guerra ou da dor, possa temer tão
radicalmente a mudança. Aferra-se então à ordem inicialmente dada, pois não há
espaço nas suas conjecturas para agir de maneira independente. Se o chefe
viesse até ele e desse uma contra-ordem, aí sim Getúlio obedeceria. Mas, como
assumir a responsabilidade diante de algo que pode vir a ser tão somente um
ardil dos inimigos políticos do coronel? Radicalmente atormentado pela dúvida,
ele segue indefinidamente, enfrentando todos os obstáculos e resistências pelo
caminho, até que a morte venha, finalmente, restituir-lhe a paz de espírito.
O elemento trágico da ação define o
problema do heroísmo de Getúlio. Seu compromisso é com um mundo alheio à
quaisquer transformações, uma realidade petrificada, onde os valores (e a
estrutura de poder) mantêm-se inalterados. A perspectiva da transformação põe
este mundo de pernas para o ar e Getúlio, incapaz de sobreviver numa realidade
cambiante, morre agarrado à última perspectiva de sentido para sua vida: a da
continuidade e de fidelidade com o mundo que o gerou.
O que torna a ação ainda mais
interessante é a narrativa densa do romance. Fundado num monólogo que
desconhece fronteiras entre o pensamento e a oralidade, a memória e os eventos
presentes, se impõe como uma obra-prima da criação do mundo pela linguagem. O
sertão da alma de Getúlio é tão árido quanto o sertão de Sergipe; sua fala é
cheia de reentrâncias, espinhenta e retorcida quanto a natureza que o rodeia.
Não há como apreender o romance ser uma participação efetiva do leitor na
construção de seu sentido, pois que ele está vazado para além das conveniências
da literatura ocidental, em que as fronteiras da ficção e da realidade são dadas
e previamente acatadas.
Por
que é um clássico brasileiro:
Sargento
Getúlio ocupa um lugar importante na literatura brasileira, principalmente
após as duas revoluções causadas por Graciliano Ramos e por Guimarães Rosa. Em
ambos os casos, a matéria estética articulava-se perfeitamente com o conteúdo
filosófico da obra de arte, numa unidade radical e totalizante da linguagem.
João Ubaldo Ribeiro então, consideradas as influências, promove uma síntese
entre o agreste de Graciliano com a imponência de Guimarães Rosa, mantendo,
apesar disso, o mesmo esforço de unidade entre a expressão artística e a
reflexão ética. Uma das últimas grandes realizações do regionalismo brasileiro,
vaza sob o signo da tragédia o irromper definitivo da modernidade urbana industrial
do novo país.
Obras
do autor:
João
Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu em Itaparica (BA) em 1941. Publicou:
Romance: Setembro não tem sentido (1968), Sargento Getúlio (1971), Vila
Real (1979), Viva o Povo Brasileiro (1984),
O Sorriso do Lagarto (1989), O feitiço da Ilha Pavão (1997), A casa dos Budas ditosos (1999), Miséria e grandeza do amor de Benedita (2000),
Diário do Farol (2002), O albatroz azul (2009);
Conto: Vencecavalo e outro povo (1974), Livro de histórias (1981), Já
podeis da pátria filhos (1991);
Crônica: Sempre aos domingos (1988), Um
brasileiro em Berlim (1995), Arte e
ciência de roubar galinhas (1999), O
Conselheiro Come (2000), A gente se
acostuma a tudo (2006), O Rei da
Noite (2008);
Ensaio: Política: quem manda, por que manda, como manda (1981);
Literatura infanto-juvenil: Vida e paixão de Pandomar, o cruel (1983),
A vingança de Charles Tiburone (1990).
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