segunda-feira, 1 de abril de 2013


Crítica: João Ubaldo Ribeiro. Sargento Getúlio (1971)


Uma história de aretê:

            Aretê (άρετή) em grego significa virtude, mais especificamente certa ética do heroísmo em que se pode demonstrar força e determinação face às adversidades ou seja, uma variante da “coragem”. Inicialmente o termo vinculava-se às virtudes guerreiras, mas aos poucos, generalizou-se como sinônimo de “excelência” também aos atributos do espírito. Havida como uma deusa alegórica era, para os gregos, filha da Justiça e irmã da Harmonia; já os romanos concebiam-na como filha da Verdade e irmã da Honra. Enfim, aretê era um determinado atributo do caráter nobre, honroso, restrito aos cidadãos, homens livres, aristoi.
            Sargento Getúlio é um romance que anuncia ser uma “história de aretê”. O protagonista, que dá título ao livro, é um homem rude que ganha a vida como jagunço do coronel Acrísio e que traz consigo mais de vinte mortes no currículo. Estamos diante de um assassino profissional, um matador de aluguel, alguém que compõe a realidade de injustiça, arbítrio e violência imperantes no Nordeste rural da década de 1950. Em tudo, o sargento Getúlio dos Santos Bezerra parece estar distante do ideal aristocrático de virtude cultivada pelos antigos gregos. Esta contradição inicial desfaz-se quando descobrimos que, sob a aparente vileza do protagonista, oculta-se um homem fiel a seus princípios, incapaz de agir contrariamente a eles, sob pena de anular-se enquanto pessoa e desmoralizar-se como homem.
            Importante, antes de tudo, é reconstituir o lugar social do sargento Getúlio. Enquanto jagunço, se insere nas teias da dominação política e ideológica da elite senhorial nordestina: primeiro, como dependente do chefe local, cuja identidade básica reside no fato de pertencer ao serviço desta pessoa; segundo, como agente do processo de dominação, na medida que toma para si o encargo da manutenção da ordem social favorável às hostes do poder; terceiro como resultado da cultura da violência e da autoridade, da qual é o principal defensor. Ou seja, por onde quer que se olhe, a figura do sargento Getúlio é um produto das relações de poder e, ao mesmo tempo, um produtor destas mesmas relações.
            Haja visto que o seu mundo esteja saturado duma ideologia que exalta as virtudes do mando e da obediência, inquestionáveis diante de uma situação de opressão, o protagonista introjeta-as na sua própria visão de mundo, reproduzindo-as incessantemente. Não à toa, idealiza e admira a situação do coronel Acrísio, sentindo-se honrado em fazer parte do seu serviço e procurando imitar-lhe os gestos, a postura sobranceira e o tom de voz autoritária. Não passa por sua cabeça ser apenas uma engrenagem – altamente dispensável e substituível – de uma realidade injusta e cruel. Na realidade, os valores que partilha já estão plenamente naturalizados, em harmonia com o mundo que enxerga e que sente.
            Prestes a aposentar-se recebe mais uma incumbência do coronel. Deve levar um oposicionista político da cidade de Paulo Afonso, na Bahia até a capital de Sergipe. Não pode matá-lo, mas tem que entregá-lo vivo ao chefe. Eis que, estando no meio do percurso, recebe uma contra-ordem:   em razão de mudanças na política estadual, deve soltar o preso e sumir-se por uns tempos. Getúlio estranha o novo posicionamento do chefe, homem cumpridor dos acordos e fiel à sua palavra. Não gosta de mudanças (pois que elas suspendem as certezas sedimentadas) e não consegue adaptar-se a circunstâncias novas. Desconfia, por isso, que a ordem não tenha partido do chefe e resolve, apesar das resistências que encontra pelo caminho, levar a sua missão até o fim.
            Não há como saber se as mudanças políticas a que se referem as ordens do coronel sejam de caráter estrutural ou meramente circunstancial. Nem é isso que importa, mas sim o próprio irromper da mudança em si mesma. Ela é a maior ameaça à ordem, à própria segurança do mundo de Getúlio. Sintomático é perceber que um homem como este, completamente despojado de qualquer temor diante da morte, da guerra ou da dor, possa temer tão radicalmente a mudança. Aferra-se então à ordem inicialmente dada, pois não há espaço nas suas conjecturas para agir de maneira independente. Se o chefe viesse até ele e desse uma contra-ordem, aí sim Getúlio obedeceria. Mas, como assumir a responsabilidade diante de algo que pode vir a ser tão somente um ardil dos inimigos políticos do coronel? Radicalmente atormentado pela dúvida, ele segue indefinidamente, enfrentando todos os obstáculos e resistências pelo caminho, até que a morte venha, finalmente, restituir-lhe a paz de espírito.
            O elemento trágico da ação define o problema do heroísmo de Getúlio. Seu compromisso é com um mundo alheio à quaisquer transformações, uma realidade petrificada, onde os valores (e a estrutura de poder) mantêm-se inalterados. A perspectiva da transformação põe este mundo de pernas para o ar e Getúlio, incapaz de sobreviver numa realidade cambiante, morre agarrado à última perspectiva de sentido para sua vida: a da continuidade e de fidelidade com o mundo que o gerou.
            O que torna a ação ainda mais interessante é a narrativa densa do romance. Fundado num monólogo que desconhece fronteiras entre o pensamento e a oralidade, a memória e os eventos presentes, se impõe como uma obra-prima da criação do mundo pela linguagem. O sertão da alma de Getúlio é tão árido quanto o sertão de Sergipe; sua fala é cheia de reentrâncias, espinhenta e retorcida quanto a natureza que o rodeia. Não há como apreender o romance ser uma participação efetiva do leitor na construção de seu sentido, pois que ele está vazado para além das conveniências da literatura ocidental, em que as fronteiras da ficção e da realidade são dadas e previamente acatadas.

Por que é um clássico brasileiro:

            Sargento Getúlio ocupa um lugar importante na literatura brasileira, principalmente após as duas revoluções causadas por Graciliano Ramos e por Guimarães Rosa. Em ambos os casos, a matéria estética articulava-se perfeitamente com o conteúdo filosófico da obra de arte, numa unidade radical e totalizante da linguagem. João Ubaldo Ribeiro então, consideradas as influências, promove uma síntese entre o agreste de Graciliano com a imponência de Guimarães Rosa, mantendo, apesar disso, o mesmo esforço de unidade entre a expressão artística e a reflexão ética. Uma das últimas grandes realizações do regionalismo brasileiro, vaza sob o signo da tragédia o irromper definitivo da modernidade urbana industrial do novo país.

Obras do autor:

João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu em Itaparica (BA) em 1941. Publicou:
Romance: Setembro não tem sentido (1968), Sargento Getúlio (1971), Vila Real (1979), Viva o Povo Brasileiro (1984), O Sorriso do Lagarto (1989), O feitiço da Ilha Pavão (1997), A casa dos Budas ditosos (1999), Miséria e grandeza do amor de Benedita (2000), Diário do Farol (2002), O albatroz azul (2009);
Conto: Vencecavalo e outro povo (1974), Livro de histórias (1981), Já podeis da pátria filhos (1991);
Crônica: Sempre aos domingos (1988), Um brasileiro em Berlim (1995), Arte e ciência de roubar galinhas (1999), O Conselheiro Come (2000), A gente se acostuma a tudo (2006), O Rei da Noite (2008);
Ensaio: Política: quem manda, por que manda, como manda (1981);
Literatura infanto-juvenil: Vida e paixão de Pandomar, o cruel (1983), A vingança de Charles Tiburone (1990). 

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