Crítica: João do Rio. A alma encantadora das ruas.
A Bélle-Époque do avesso:
A Alma encantadora
das ruas é um precioso documento literário e antropológico acerca das
transformações pelas quais passava o Rio de Janeiro na primeira década do século
XX. Esta coleção de crônicas e contos, publicados em jornais e revistas da
então Capital Federal, é o grande testemunho literário de João do Rio, o
cronista deste mundo em ebulição, em que o convívio entre os contrastes de
todos os matizes (culturais, sócio-espaciais, étnicos, comportamentais) passam
a formar a própria identidade carioca. Documenta, a partir destes escritos,
vários aspectos da vida urbana do Rio de Janeiro, hoje completamente
sedimentados no nosso imaginário sobre a cidade.
Este escritor é, antes de qualquer coisa, um observador
arguto do cotidiano carioca. Sente por este cotidiano uma fascinação
irrefreável, uma vontade radical em entregar-se a ele por completo, anulando-se
na multidão. Entretanto, traveste-se para nós leitores, como alguém cuja
perspectiva fosse ainda pertencente ao período anterior, monárquico e
tradicionalista, permitindo então, espantar-se e zombar desta cultura urbana
emergente. Esta é a tensão primordial que atravessa as crônicas do livro. O
autor busca a cidade, sente-se atraído por ela como uma mariposa na lâmpada, ao
mesmo tempo em que se faz de conservador, que pode francamente deplorar os
novos tempos e seus costumes dissolutos.
Não há como negar que esta estratégia discursiva seja
eficiente. Assumindo essa ambiguidade, alcança os mais diversos públicos, de
quem depende como leitores de suas crônicas no jornal. Deles obtém total
complacência. Dos conservadores porque ri-se com eles dos outros; das classes
populares porque ri-se delas sem ofendê-las, mas sempre dotado de uma
sensibilidade graciosa e complacente. É o cronista de todos os cariocas, o
homem que se põe a falar do seu mundo para aqueles que também o vivem. Enfim, é
o cronista amigo, benfazejo, pilhérico, mordaz, bem ao jeito que o carioca
admira.
Herdeiro de uma longa tradição de cronistas, como Machado
de Assis, Aluísio Azevedo e Manuel Antonio de Almeida, também se viu continuado
décadas afora, por um Marques Rebelo, um Vinícius de Morais, um Nélson
Rodrigues ou um Carlos Heitor Cony. A cidade é que pulsa em suas páginas,
protagonista de um drama cotidiano e eterno, onde os mais diversos
acontecimentos são decifrados e arranjados para doar sentido a cidade. Para
lê-la e traduzi-la.
Há entre todos esses escritores cariocas uma certa
tonalidade, diríamos casual, que parece ter se consagrado como o estilo carioca
de narrar. Certamente esse estilo não é invenção de um escritor ou de uma
tradição de escritores. Parece-me que surge, antes, espontaneamente, da maneira
mesma como o carioca convive com o outro, como dialoga, como se expressa
oralmente. E, de todos os escritores aqui citados, João do Rio é o que mais
escreveu como se estivesse falando. Não é de se admirar que tenha também
realizado inúmeras conferências – tipo de coqueluche da época – cujo sucesso
era medido pela capacidade do orador em aproximar-se de seu público e dele
tornar-se íntimo.
Sob o disfarce de uma crônica de costumes cujo mote é
deplorar a dissolução dos costumes, temos um vigoroso estudo do estágio da
cultura brasileira à época. Ora, o período, sob a perspectiva das elites, era a
de total conformação aos padrões civilizados
e bem-comportados da Bélle Époque.
As reformas urbanas desencadeadas pelo prefeito Pereira Passos nada mais foram
que uma tentativa de ajustar-se a marcha do Brasil àquela da moda européia. Não
somente o novo urbanismo da capital refletia o espírito de macaqueação das
nossas elites colonizadas, mas também o gosto artístico, a educação, o modo de
ver o mundo. A ideologia reinante buscava mascarar o Brasil real e disfarçá-lo
sob uma caricatura moderna. A elite tinha uma profunda vergonha do Brasil,
quiçá de si mesmos.
O movimento esboçado nas crônicas de João do Rio
permite-nos suspeitar de uma primeira tentativa de auto-aceitação nacional,
coisa que só se realizaria na década de 1930. João do Rio jamais inferioriza o
povo; não quer aplicar qualquer teoria racial, alardear qualquer inferioridade
ou julgar. Mais do que tudo, ele reconhece a singularidade da cultura popular,
que subverte, embaralha, confunde e desmoraliza a ideologia neocolonial em curso. Partindo de
sua própria cultura o povo ressignifica aquilo que crê compreender, fundindo
numa nova trama, significados diversos do conteúdo original. É por isso que
ainda hoje, podemos rir a valer das troças de João do Rio: o povo é
inteligente, mesmo que às vezes pareça ingênuo. Não está muito incomodado com o
mundo dos brancos que desconhece e não compreende. Busca, quase sempre,
sobreviver em meio a uma cidade cheia de contradições, vivê-la, divertir-se,
gozar. E faz isso sem que pareça atordoado com os vaticínios condenatórios das
teorias raciais. Pouco se lixa. Se o mundo dos brancos constantemente
volta-lhes as costas, não se sente diminuído em ignorar-lhe também.
As crônicas sempre tem uma estrutura similar, que se
repete constantemente. O autor, em primeiro lugar, chama a atenção do leitor
para qualquer aspecto da vida da cidade. Pode ser um motivo banal, corriqueiro,
como olhar pelas janelas ou andar pelas ruas. Pode ser coisa insuspeita, a
revelação de uma cidade desconhecida pelo mundo oficial, pelos bulevares e
pelos ministérios. Logo, somos seduzidos pelo assunto, pois o autor soube
transformá-lo em algo interessante, revelando o pitoresco da coisa, fazendo
algum gracejo que porventura nos captasse a atenção.
Depois, vamos tomando intimidade com esse novo mundo,
perdendo o medo do desconhecido e assim, baixando a guarda. João do Rio faz com
que tudo, ao cabo, passe por completamente natural. Assim, o leitor torna-se
íntimo, desfaz as suspeitas, deixa-se levar. Quanto mais vamos adiante na
leitura, mais este mundo, outrora ignorado ou desconhecido, nos comove. Ele nos
toca. E assim, deixamos nossos preconceitos em suspenso. Nos
aceitamos. Tudo isso faz o autor em poucas páginas.
A descoberta de João do Rio que nossa geração tem
empreendido permite retomar alguns elos perdidos no caminho da nossa afirmação
nacional. Sob toda uma ideologia desdenhosa quanto ao futuro do país vemos que
foi possível a existência de outras vozes, contraditórias e destoantes daquilo
que se propagou à época.
Por que é um clássico
brasileiro:
As crônicas de A
Alma encantadora das ruas abriram-se à linguagem informal do carioca,
assumindo a sua descontração e franqueza. Ao mesmo tempo, abriu caminhos para o
longo e tortuoso processo de auto-aceitação da civilização brasileira. Sem ser
sisudo, sem querer ser científico, escreveu um dos maiores documentários sobre
a cultura brasileira nos inícios do século XX.
Obras do autor:
João do Rio (pseudônimo de
João Paulo Alberto Coelho Barreto) nasceu no Rio de Janeiro em 1881 e morreu na
mesma cidade em 1921. Publicou (livro):
Romance: A profissão de Jacques Pedreira (1910); Memórias
de um rato de hotel (1911);
Teatro: Clotilde (1907);
Um chá das cinco (1916);
Crônica: A Alma encantadora das ruas (1908); Os dias
passam (1912); Pall-Mall Rio (1917);
No tempo de Venceslau (1917); Celebridade, desejo (1932, póstumo);
Conto: A mulher e os espelhos (1919); O
rosário da ilusão (1921);
Ensaio: O Ramo de loiro (1921);
Literatura infantil: Era uma vez (1909,
com Viriato Correa)
Conferências: Psicologia urbana (1911), Portugal d’Agora (1911)
e Vida vertiginosa (1911); Sésamo (1917).
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