domingo, 31 de março de 2013



Crítica: João do Rio. A alma encantadora das ruas.



A Bélle-Époque do avesso:

            A Alma encantadora das ruas é um precioso documento literário e antropológico acerca das transformações pelas quais passava o Rio de Janeiro na primeira década do século XX. Esta coleção de crônicas e contos, publicados em jornais e revistas da então Capital Federal, é o grande testemunho literário de João do Rio, o cronista deste mundo em ebulição, em que o convívio entre os contrastes de todos os matizes (culturais, sócio-espaciais, étnicos, comportamentais) passam a formar a própria identidade carioca. Documenta, a partir destes escritos, vários aspectos da vida urbana do Rio de Janeiro, hoje completamente sedimentados no nosso imaginário sobre a cidade.
            Este escritor é, antes de qualquer coisa, um observador arguto do cotidiano carioca. Sente por este cotidiano uma fascinação irrefreável, uma vontade radical em entregar-se a ele por completo, anulando-se na multidão. Entretanto, traveste-se para nós leitores, como alguém cuja perspectiva fosse ainda pertencente ao período anterior, monárquico e tradicionalista, permitindo então, espantar-se e zombar desta cultura urbana emergente. Esta é a tensão primordial que atravessa as crônicas do livro. O autor busca a cidade, sente-se atraído por ela como uma mariposa na lâmpada, ao mesmo tempo em que se faz de conservador, que pode francamente deplorar os novos tempos e seus costumes dissolutos.
            Não há como negar que esta estratégia discursiva seja eficiente. Assumindo essa ambiguidade, alcança os mais diversos públicos, de quem depende como leitores de suas crônicas no jornal. Deles obtém total complacência. Dos conservadores porque ri-se com eles dos outros; das classes populares porque ri-se delas sem ofendê-las, mas sempre dotado de uma sensibilidade graciosa e complacente. É o cronista de todos os cariocas, o homem que se põe a falar do seu mundo para aqueles que também o vivem. Enfim, é o cronista amigo, benfazejo, pilhérico, mordaz, bem ao jeito que o carioca admira.
            Herdeiro de uma longa tradição de cronistas, como Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Manuel Antonio de Almeida, também se viu continuado décadas afora, por um Marques Rebelo, um Vinícius de Morais, um Nélson Rodrigues ou um Carlos Heitor Cony. A cidade é que pulsa em suas páginas, protagonista de um drama cotidiano e eterno, onde os mais diversos acontecimentos são decifrados e arranjados para doar sentido a cidade. Para lê-la e traduzi-la.
            Há entre todos esses escritores cariocas uma certa tonalidade, diríamos casual, que parece ter se consagrado como o estilo carioca de narrar. Certamente esse estilo não é invenção de um escritor ou de uma tradição de escritores. Parece-me que surge, antes, espontaneamente, da maneira mesma como o carioca convive com o outro, como dialoga, como se expressa oralmente. E, de todos os escritores aqui citados, João do Rio é o que mais escreveu como se estivesse falando. Não é de se admirar que tenha também realizado inúmeras conferências – tipo de coqueluche da época – cujo sucesso era medido pela capacidade do orador em aproximar-se de seu público e dele tornar-se íntimo.
            Sob o disfarce de uma crônica de costumes cujo mote é deplorar a dissolução dos costumes, temos um vigoroso estudo do estágio da cultura brasileira à época. Ora, o período, sob a perspectiva das elites, era a de total conformação aos padrões civilizados  e bem-comportados da Bélle Époque. As reformas urbanas desencadeadas pelo prefeito Pereira Passos nada mais foram que uma tentativa de ajustar-se a marcha do Brasil àquela da moda européia. Não somente o novo urbanismo da capital refletia o espírito de macaqueação das nossas elites colonizadas, mas também o gosto artístico, a educação, o modo de ver o mundo. A ideologia reinante buscava mascarar o Brasil real e disfarçá-lo sob uma caricatura moderna. A elite tinha uma profunda vergonha do Brasil, quiçá de si mesmos.
            O movimento esboçado nas crônicas de João do Rio permite-nos suspeitar de uma primeira tentativa de auto-aceitação nacional, coisa que só se realizaria na década de 1930. João do Rio jamais inferioriza o povo; não quer aplicar qualquer teoria racial, alardear qualquer inferioridade ou julgar. Mais do que tudo, ele reconhece a singularidade da cultura popular, que subverte, embaralha, confunde e desmoraliza a ideologia neocolonial em curso. Partindo de sua própria cultura o povo ressignifica aquilo que crê compreender, fundindo numa nova trama, significados diversos do conteúdo original. É por isso que ainda hoje, podemos rir a valer das troças de João do Rio: o povo é inteligente, mesmo que às vezes pareça ingênuo. Não está muito incomodado com o mundo dos brancos que desconhece e não compreende. Busca, quase sempre, sobreviver em meio a uma cidade cheia de contradições, vivê-la, divertir-se, gozar. E faz isso sem que pareça atordoado com os vaticínios condenatórios das teorias raciais. Pouco se lixa. Se o mundo dos brancos constantemente volta-lhes as costas, não se sente diminuído em ignorar-lhe também.
            As crônicas sempre tem uma estrutura similar, que se repete constantemente. O autor, em primeiro lugar, chama a atenção do leitor para qualquer aspecto da vida da cidade. Pode ser um motivo banal, corriqueiro, como olhar pelas janelas ou andar pelas ruas. Pode ser coisa insuspeita, a revelação de uma cidade desconhecida pelo mundo oficial, pelos bulevares e pelos ministérios. Logo, somos seduzidos pelo assunto, pois o autor soube transformá-lo em algo interessante, revelando o pitoresco da coisa, fazendo algum gracejo que porventura nos captasse a atenção.
            Depois, vamos tomando intimidade com esse novo mundo, perdendo o medo do desconhecido e assim, baixando a guarda. João do Rio faz com que tudo, ao cabo, passe por completamente natural. Assim, o leitor torna-se íntimo, desfaz as suspeitas, deixa-se levar. Quanto mais vamos adiante na leitura, mais este mundo, outrora ignorado ou desconhecido, nos comove. Ele nos toca. E assim, deixamos nossos preconceitos em suspenso. Nos aceitamos. Tudo isso faz o autor em poucas páginas.
            A descoberta de João do Rio que nossa geração tem empreendido permite retomar alguns elos perdidos no caminho da nossa afirmação nacional. Sob toda uma ideologia desdenhosa quanto ao futuro do país vemos que foi possível a existência de outras vozes, contraditórias e destoantes daquilo que se propagou à época.

Por que é um clássico brasileiro:

            As crônicas de A Alma encantadora das ruas abriram-se à linguagem informal do carioca, assumindo a sua descontração e franqueza. Ao mesmo tempo, abriu caminhos para o longo e tortuoso processo de auto-aceitação da civilização brasileira. Sem ser sisudo, sem querer ser científico, escreveu um dos maiores documentários sobre a cultura brasileira nos inícios do século XX.

Obras do autor:

João do Rio (pseudônimo de João Paulo Alberto Coelho Barreto) nasceu no Rio de Janeiro em 1881 e morreu na mesma cidade em 1921. Publicou (livro):
Romance: A profissão de Jacques Pedreira (1910); Memórias de um rato de hotel (1911);
Teatro: Clotilde (1907); Um chá das cinco (1916);
Crônica: A Alma encantadora das ruas (1908); Os dias passam (1912); Pall-Mall Rio (1917); No tempo de Venceslau (1917); Celebridade, desejo (1932, póstumo);
Conto: A mulher e os espelhos (1919); O rosário da ilusão (1921);
Ensaio: O Ramo de loiro (1921);
Literatura infantil: Era uma vez (1909, com Viriato Correa)
Conferências: Psicologia urbana (1911), Portugal d’Agora (1911) e Vida vertiginosa (1911); Sésamo (1917).

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