
Crítica: Sergio Sant'Anna. Confissões de Ralfo (1975).
O romance-desestrutural:
Confissões
de Ralfo é um romance de vanguarda, trazendo consigo todas as conseqüências
deste fato, para o bem e para o mal. Compõe o quadro maior da renovação
artística brasileira da década de 1970, em que a busca pela expressão livre não
raro, colidia com as formas estereotipadas da arte. Particularmente no caso
deste livro, as investidas do autor voltam-se contra certo convencionalismo
próprio ao romance, questionando seus limites estruturais e procurando revelar
a fragilidade de suas bases. Neste caso, são seus alvos preferenciais a idéia
de verossimilhança do enredo e da construção psicológica dos personagens.
Esta rebeldia, inerente e
característica da literatura brasileira da época, remete ao projeto modernista
de 1922, agora reavaliado e submetido a um novo contexto de repressão política
e esvaziamento cultural. A arte de um modo geral, torna-se engajada, resistente
ao processo de aniquilamento da inteligência criativa e de pasteurização midiática que, nesta época, ainda esboçava os seus
primeiros movimentos. Ao mesmo tempo, e isto talvez pareça contraditório,
postar-se contra uma arte de consumo rápido, signifique a possibilidade de
rever as convenções particulares de seu gênero, no caso, da literatura. O
romance de Sérgio Sant’Anna neste sentido, irrompe contra a literatura fácil,
burguesa, que se acomoda diante das facilidades do gênero.
Para isto, não resta dúvida, acaba
tendo que munir-se da tradição. A renovação estética preconizada pela sua
geração não poderia ter partido do nada e construído um novo mundo sem passado.
Neste diálogo criativo entre a sua perspectiva contemporânea e a herança
cultural que o antecede que está toda a riqueza desta obra. A isso chamamos de
intertextualidade, como se fosse uma conquista recente, esquecendo que na literatura,
nenhum avanço se faz sem a prévia reelaboração do sentido da tradição, sempre
atualizada e por isso, viva. Há, dispersos pelas páginas, referências do
diálogo empreendido pelo autor com a literatura de Dostoiévksi, com os beatniks americanos, com a literatura
marginal européia, com os grandes clássicos da civilização como Homero e
Cervantes. Assim, finalmente, o ímpeto renovador de Confissões de Ralfo não se dá no vazio, pois não é uma obra
desesperada mas, antes de tudo, escora-se na capacidade de atualizar certos
problemas universais da literatura.
A idéia de uma autobiografia imaginária, presente no subtítulo do romance, revela
como a obra se insere nas teias da própria tradição. Uma autobiografia
pressupõe determinados vínculos com a memória individual e, neste caso, com um
passado vivido, experimentado por alguém que busca uma recuperação do sentido
de sua história pessoal. Quando o autor escreve uma autobiografia imaginária esta relação é solapada pela indefinição
das fronteiras entre verdade e ficção. No caso de Confissões de Ralfo a situação torna-se ainda mais complexa quando
se é incerta a posição do narrador. As Confissões
tanto podem resultar da projeção literária do autor (Sérgio) quanto do
personagem (Ralfo). Isto fica evidente, diversas vezes ao longo do texto,
quando se é indiferenciada a posição do narrador, às vezes em primeira pessoa,
às vezes em terceira pessoa. As explicações dadas no prólogo, no epílogo e nas
notas finais não fazem senão fortalecer esta sensação de insegurança quanto ao
lugar de cada um no contexto da obra.
Ralfo, por sua vez, não se comporta
como um narrador típico. Nem há uma unidade da sua personalidade (estilhaçada
nos mais diversos alter-egos), nem uma unidade da sua expressão, que pode ser
sarcástica, irônica, cômica, trágica, satírica, dependendo da situação. Tempo e
espaço também não seguem qualquer linearidade, idem no que tange às relações de
causa e efeito que são incessantemente transgredidas, principalmente quando o
leitor crê ter assentado uma determinada perspectiva. Confissões de Ralfo impede assim, uma postura contemplativa e
acomodada por parte do leitor, que é provocado a todo o momento a redefinir o
seu papel de intérprete da obra de arte. Ao fim, tem-se a impressão de que Confissões de Ralfo, pelo alcance da sua
proposta, seja o mais vigoroso anti-romance da literatura brasileira.
Como o objetivo do autor (Sérgio ou
Ralfo?) era o de exorcizar as suas inquietações existenciais, uma vez atingido
o propósito, não resta outra função a Ralfo e às suas memórias se não a
auto-destruição. Recuperada a tese da antropofagia modernista, o romance se
consome a si mesmo, tragando todo o seu fantástico e inusitado universo. É
possível, como alguns já propuseram, ler as Confissões
de Ralfo como uma sátira à ditadura militar brasileira mas,
particularmente, creio ter a obra um escopo muito mais ousado. Ralfo, pela sua
própria universalidade, desnuda as incongruências de todo o sistema da
modernidade, seja nas relações políticas, nos limites da loucura e da sanidade,
na imbecilidade da rotina alienada das grandes cidades ou, mesmo, no
artificialismo da autoridade e do poder institucional. Mais que tudo, Ralfo é o
peregrino em demanda de sua liberdade, condição de sua expressão autêntica e
original.
Por
que é um clássico brasileiro:
Confissões
de Ralfo é um clássico pelas razões inversas das que, comumente, o clássico
é reconhecido. A sua devastadora criação põe em suspenso as fundações do
romance, criando uma atmosfera que flerta com a sátira, a comédia e o grotesco.
Uma das fontes do processo de renovação da literatura brasileira e da geração
de 1970.
Obras
do autor:
Sérgio
Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro (1941). Publicou:
Romance: Confissões de Ralfo (1975), Simulacros
(1977), A tragédia brasileira (1984),
Um crime delicado (1997).
Novela: Amazona (1986);
Conto: O Sobrevivente (1969), Notas
de Manfredo Rangel, repórter (1973), O
Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), A senhorita Simpson (1989), Breve
história do espírito (1991), O
Monstro (1994), O vôo da madrugada (2003).
Poesia: Circo (1980), Junk-Box (1984);
Teatro: Um romance de geração (1981).
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