sábado, 30 de março de 2013



Crítica: Lygia Fagundes Telles. Ciranda de Pedra (1954)



A dialética da rejeição e da liberdade:

            Não haverá, para muitas pessoas, experiência mais terrível que a da rejeição. Ocorrendo durante a infância e a adolescência, então, isto se torna uma chaga permanente na alma, fragilizando, diminuindo a pessoa, que se faz carente e insegura. No final das contas, fica-se diante de um círculo vicioso: a pessoa é insegura porque não experimentou o amor, e não consegue mais amar por conta de sua insegurança. Romper com isto exige coragem, mas mais do que tudo, uma capacidade de amadurecer para superar as armadilhas do próprio coração. Esta é a história de Virgínia.
            Filha do adultério, cujo resultado foi a desagregação da família, a loucura da mãe e o suicídio do verdadeiro pai, Virgínia nasce sob a sombra do infortúnio e da tragédia. Desde sempre o mundo vira-lhe as costas, como a um ser maldito que carrega a marca da desventura. Sozinha, é mandada viver com Natércio, ex-marido de sua mãe, que ela acredita ser o seu pai. Não consegue compreender porque aquele pai, tão carinhoso para com as outras filhas, a trate com tamanha indiferença. Terá sido alguma coisa que fez? Falou o que não devia?
            As irmãs desprezam-na. Acham-na inconveniente, intrometida, chata. Não brincam com ela. Otávia e Bruna têm três amiguinhos que freqüentam sua casa: o doce Conrado, Afonso e Letícia. Destes, somente Conrado parece querer-lhe bem, ou pelo menos, notar a sua presença. Todos os outros a ignoram. A menininha quer entrar no círculo, dar as mãos nesta ciranda que não se abre, fechada sobre si mesma. Em vão. Resta-lhe apenas a solidão. Natércio, a pedido seu, a interna num colégio de freiras, onde vai viver toda a sua adolescência, saindo apenas por volta dos vinte anos.
            A experiência do desprezo formou no caráter de Virgínia uma tendência à introspecção quase que contemplativa, impregnada dum sentimento de auto-piedade aniquiladora. Não houve, desta maneira, situação em que viesse a adaptar-se melhor do que o internato religioso. Melhor aluna do colégio, alcançou o respeito das irmãs. Passou a ser admirada e fez-se notada por sua inteligência. Nas férias, recusava-se a sair do colégio e tomar parte nos divertimentos da família. Estudava mais, movida por um impulso de auto-afirmação que, no fundo, também é exibicionista. Mas, formada, havia de deixar o colégio. Sem fé suficiente para tornar-se freira, restava-lhe apenas retornar ao mundo, aquele mesmo mundo que a rejeitara anos atrás.
            Qual não foi a sua surpresa quando o estreito círculo de amizade de suas irmãs, abre-lhe as portas da convivência? Na realidade, o círculo estava para se desagregar. Bruna, que era extremamente moralista e religiosa, casara com Afonso, mas traía o marido constantemente; Afonso, que se formara em engenharia, não exercia seriamente a profissão, refugiando-se no álcool, incapaz de viver sem a ajuda do sogro; Otávia tornara-se uma artista plástica afetada e promíscua; Letícia que era lésbica, acabou, por isso, sendo expulsa do grupo; resta Conrado, um impotente sexual que se refugia do mundo na solidão de sua Chácara.
            Todos estão a cercar Virgínia, engalfinham-se por sua atenção. Letícia propõe morarem juntas; Afonso a assedia sexualmente; Conrado a ama à sua maneira, platonicamente. Rompe-se o equilíbrio. Bruna não suporta ver o marido desejar-lhe a irmã. Otávia não quer ser destituída do posto de ídolo feminino de Conrado. Letícia e Afonso odeiam-se, como dois rivais em disputa pela dama. Num primeiro momento, Virgínia não pode se conter de felicidade: a ciranda de pedra finalmente abriu-se. Está convidada a tomar parte na brincadeira.
            Mas, ao participar daqueles segredos, e pior, ser o fiel da balança daquelas relações tumultuosas, Virgína vai-se dando conta de como aquele círculo que parecia mágico, não é nada mais que uma camarilha de ódios, ressentimentos e mágoas. Não quer mais participar desta encenação. Resta-lhe duas opções: continuar a ser a criança que era, tomando parte eternamente no jogo ou crescer, e superar as fixações e as carências que sempre a acompanharam.
            Romance psicológico muito bem urdido, mostra força quando consegue dar verossimilhança à situações tão incomuns, ou pelo menos, de tanta intensidade dramática, quando há risco de se cair no mau gosto e no dramalhão. A pertinácia da caracterização das personagens, a evocação de atmosferas saturadas de tensão, aliado ao uso econômico e cirúrgico da palavra, fazem deste um romance único. A temática, certamente vinculada a reflexão acerca da decadência dos valores tradicionais e ao lugar da liberdade individual num mundo regido por convenções, é desenvolvida num tom de franqueza e abertura.

Por que é um clássico brasileiro:

            Ciranda de Pedra é uma obra de rara densidade psicológica, revelando para a literatura brasileira, situações ainda não totalmente descortinadas. O romance tem uma vocação universalista na medida em que enfoca uma determinada temática sem fazer referências às especificidades históricas ou geográficas esperadas. Isto, no caso da nossa tradição literária, ainda tão arraigadamente naturalista, é algo admirável. Lygia Fagundes Telles se revela uma mestra na criação de histórias, que nunca são superficiais mas, ao contrário, pretendem abrir clareiras na busca da autenticidade da vida.

Obras da autora:

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo (1923). Publicou:
Romance: Ciranda de Pedra (1954), Verão no aquário (1963), As Meninas (1973), As horas nuas (1989).
Conto: Porão e sobrado (1938), Praia viva (1944), O cacto vermelho (1946), Histórias do desencontro (1958), Histórias escolhidas (1964), O jardim selvagem (1965), Antes do baile verde (1970), Seminário dos ratos (1977), Mistérios (1981), A estrutura da bolha de sabão (1991), A noite escura e mais eu (1995), Histórias de mistério (2004), Meus contos preferidos (2004), Meus contos esquecidos (2005), Conspiração das nuvens (2007).
Ficção e Memória: A disciplina do amor (1980), Invenção e memória (2000), Durante aquele estranho chá (2002).

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