Crítica: Graça Aranha. Canaã (1902).
As Sinestesias Filosóficas
É possível a felicidade num mundo marcado
pelo sofrimento? Esta pergunta, de caráter tão ostensivamente
schopenhauriano, mas que guarda vínculos com o cristianismo, com as filosofias
pós-platônicas e com o budismo, orienta o romance Canaã, certamente um dos mais insólitos de nossa literatura.
Insólito por ser, à primeira vista,
um romance filosófico, em que duas respostas à questão acima se opõem e se
combatem ferozmente. Para Milkau, alemão da Renânia, apenas o Amor, objetivado
numa vida despida de vaidades e engrandecida pelo trabalho poderia ser um
bálsamo para o homem, desorientado e derrotado na busca pela felicidade. Já
para Lentz, nascido na Prússia, é a guerra, a vontade de potência, a
consciência da raça, quem pode dotar a vida de sentido.
Durante a maior parte do romance, a
posição defendida por Milkau parece ser satisfatória. Longe da civilização,
vivendo de modo independente numa modesta colônia no interior do Espírito
Santo, Milkau pensa ter alcançado a tão desejada felicidade. Enquanto isso, o
amigo Lentz, apesar de acompanhá-lo, não deixa de demonstrar sua insatisfação com
uma existência passiva e contemplativa. Entretanto, ao tomar contato com o
drama da jovem Maria, desonrada, abandonada, vivendo na indigência e às portas
da loucura, Milkau compreende o quanto seu esforço fora vão. A felicidade
individual, apartada dos demais homens, evitando o contato com o mundo e
consequentemente com a dor, nada mais seria que uma manifestação do egoísmo e
do individualismo que Milkau pensara estar combatendo.
De fato, o embate teórico entre
Milkau e Lentz regride às grandes disputas entre um panteísmo absoluto (que se
firma na imanência de Deus na Natureza) e um realismo particularista, elegendo
a raça e a vontade como elemento explicador do mundo.
Ecos bastante audíveis de
Dostoievski, de Tolstoi, de Nietzsche, de Kierkegaard e de Schopenhauer
acompanham-nos ao longo da leitura, oferecendo uma mostra da filosofia européia
do romantismo. Graça Aranha, por ter sido diplomata e homem de cultura,
certamente havia se aproximado de alguma destas questões anteriormente à
escrita do texto.
Resumisse apenas a isto, Canaã já ocuparia um lugar de destaque
na ficção brasileira. Ocorre que o drama é entrecortado por uma das mais belas
prosas poéticas – de inegável teor impressionista – da nossa literatura. Sua
percepção da luz, da cor e dos perfumes compõem um quadro sinestésico da
natureza, que estrutura estilisticamente o romance.
Contraditoriamente ao debate
filosófico representado no texto, o autor não perde a oportunidade de julgar os
resultados da imigração européia no Brasil. Fica patente ao leitor a aprovação
que Graça Aranha dá à esta, compreendida como elemento de civilização e
progresso. Em tudo, o brasileiro é diminuído frente ao alemão: os costumes são
mais brutais, a moralidade é instintiva, as instituições são todas degeneradas.
Até mesmo a natureza do Brasil é menos perfeita à vida que as florestas da
Alemanha.
Esta percepção de uma suposta
inferioridade civilizatória e racial seria ainda incansavelmente repetida nos
meios intelectuais brasileiros. Este posicionamento, que alcançará inclusive o
Monteiro Lobato da primeira fase (Cidades Mortas e Urupês), só começou a ser
contestado pelo modernismo dos anos 20 e definitivamente sepultado pelos
estudos sociais da década de 1930.
Mas, malgrado esta característica,
que deve ser computada aos preconceitos da época, o livro pode ser lido como
uma tentativa dolorosa de auto-compreensão por parte do autor. Graça Aranha
titubeia entre a condenação e a redenção do futuro da nacionalidade através de
seus personagens e mesmo que não conseguisse inteiramente despir-se dos
preconceitos longamente assimilados como verdades, pelo menos ousou
expressá-los e lutar contra eles, obviamente com as armas com que dispunha
então.
Por que é um
Clássico Brasileiro:
A originalidade da concepção formal
do romance – fundamentada numa questão filosófica àquela época desconhecida no
país – aliada à sua bela expressão estilística, garantem à Canaã a sua atualidade e importância.
Põe em questão o problema da
viabilidade da cultura brasileira, ameaçada, pela civilização do Velho Mundo,
superior, segundo ele, e inevitavelmente triunfante. Mesmo reproduzindo uma
visão negativa da identidade nacional, não deixa de por em suspenso as suas
conclusões, ainda não plenamente convencido das verdades que professa.
Além de todas as modas, este é um livro que permanecerá naquilo que traz
de mais humano: a eterna busca de sentido para um mundo que teima em não fazer
sentido algum.
Obras do autor:
José Pereira da
Graça Aranha nasceu em São Luís do Maranhão em 1868 e morreu no Rio de Janeiro
em 1931. Publicou:
Romance: Canaã (1902), A Viagem
Maravilhosa (1930);
Teatro: Malazarte (1911);
Ensaio: A Estética da Vida (1921), Correspondência
de Machado de Assis e Joaquim Nabuco (1923), Futurismo – o manifesto de Marinetti e seus companheiros (1926);
Conferência: O Espírito Moderno (1924);
Autobiografia: O Meu próprio romance (1931).
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