quarta-feira, 27 de março de 2013




Crítica: Graça Aranha. Canaã (1902).

As Sinestesias Filosóficas


        É possível a felicidade num mundo marcado pelo sofrimento? Esta pergunta, de caráter tão ostensivamente schopenhauriano, mas que guarda vínculos com o cristianismo, com as filosofias pós-platônicas e com o budismo, orienta o romance Canaã, certamente um dos mais insólitos de nossa literatura.
            Insólito por ser, à primeira vista, um romance filosófico, em que duas respostas à questão acima se opõem e se combatem ferozmente. Para Milkau, alemão da Renânia, apenas o Amor, objetivado numa vida despida de vaidades e engrandecida pelo trabalho poderia ser um bálsamo para o homem, desorientado e derrotado na busca pela felicidade. Já para Lentz, nascido na Prússia, é a guerra, a vontade de potência, a consciência da raça, quem pode dotar a vida de sentido.
            Durante a maior parte do romance, a posição defendida por Milkau parece ser satisfatória. Longe da civilização, vivendo de modo independente numa modesta colônia no interior do Espírito Santo, Milkau pensa ter alcançado a tão desejada felicidade. Enquanto isso, o amigo Lentz, apesar de acompanhá-lo, não deixa de demonstrar sua insatisfação com uma existência passiva e contemplativa. Entretanto, ao tomar contato com o drama da jovem Maria, desonrada, abandonada, vivendo na indigência e às portas da loucura, Milkau compreende o quanto seu esforço fora vão. A felicidade individual, apartada dos demais homens, evitando o contato com o mundo e consequentemente com a dor, nada mais seria que uma manifestação do egoísmo e do individualismo que Milkau pensara estar combatendo.
            De fato, o embate teórico entre Milkau e Lentz regride às grandes disputas entre um panteísmo absoluto (que se firma na imanência de Deus na Natureza) e um realismo particularista, elegendo a raça e a vontade como elemento explicador do mundo.
            Ecos bastante audíveis de Dostoievski, de Tolstoi, de Nietzsche, de Kierkegaard e de Schopenhauer acompanham-nos ao longo da leitura, oferecendo uma mostra da filosofia européia do romantismo. Graça Aranha, por ter sido diplomata e homem de cultura, certamente havia se aproximado de alguma destas questões anteriormente à escrita do texto.
            Resumisse apenas a isto, Canaã já ocuparia um lugar de destaque na ficção brasileira. Ocorre que o drama é entrecortado por uma das mais belas prosas poéticas – de inegável teor impressionista – da nossa literatura. Sua percepção da luz, da cor e dos perfumes compõem um quadro sinestésico da natureza, que estrutura estilisticamente o romance.
            Contraditoriamente ao debate filosófico representado no texto, o autor não perde a oportunidade de julgar os resultados da imigração européia no Brasil. Fica patente ao leitor a aprovação que Graça Aranha dá à esta, compreendida como elemento de civilização e progresso. Em tudo, o brasileiro é diminuído frente ao alemão: os costumes são mais brutais, a moralidade é instintiva, as instituições são todas degeneradas. Até mesmo a natureza do Brasil é menos perfeita à vida que as florestas da Alemanha.
            Esta percepção de uma suposta inferioridade civilizatória e racial seria ainda incansavelmente repetida nos meios intelectuais brasileiros. Este posicionamento, que alcançará inclusive o Monteiro Lobato da primeira fase (Cidades Mortas e Urupês), só começou a ser contestado pelo modernismo dos anos 20 e definitivamente sepultado pelos estudos sociais da década de 1930.
            Mas, malgrado esta característica, que deve ser computada aos preconceitos da época, o livro pode ser lido como uma tentativa dolorosa de auto-compreensão por parte do autor. Graça Aranha titubeia entre a condenação e a redenção do futuro da nacionalidade através de seus personagens e mesmo que não conseguisse inteiramente despir-se dos preconceitos longamente assimilados como verdades, pelo menos ousou expressá-los e lutar contra eles, obviamente com as armas com que dispunha então.            

Por que é um Clássico Brasileiro:

            A originalidade da concepção formal do romance – fundamentada numa questão filosófica àquela época desconhecida no país – aliada à sua bela expressão estilística, garantem à Canaã a sua atualidade e importância.
            Põe em questão o problema da viabilidade da cultura brasileira, ameaçada, pela civilização do Velho Mundo, superior, segundo ele, e inevitavelmente triunfante. Mesmo reproduzindo uma visão negativa da identidade nacional, não deixa de por em suspenso as suas conclusões, ainda não plenamente convencido das verdades que professa.
Além de todas as modas, este é um livro que permanecerá naquilo que traz de mais humano: a eterna busca de sentido para um mundo que teima em não fazer sentido algum.

Obras do autor:

José Pereira da Graça Aranha nasceu em São Luís do Maranhão em 1868 e morreu no Rio de Janeiro em 1931. Publicou:
Romance: Canaã (1902), A Viagem Maravilhosa (1930);
Teatro: Malazarte (1911);
Ensaio: A Estética da Vida (1921), Correspondência de Machado de Assis e Joaquim Nabuco (1923), Futurismo – o manifesto de Marinetti e seus companheiros (1926);
Conferência: O Espírito Moderno (1924);
Autobiografia: O Meu próprio romance (1931).

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