terça-feira, 26 de março de 2013




Crítica: Paulo Lins. Cidade de Deus (1997)



Decadência e queda da civilização brasileira:


            A leitura de Cidade de Deus proporciona ao leitor inúmeras considerações, haja vista a complexidade e a gravidade dos temas que aborda. E possível lê-lo sob vários prismas, sejam eles históricos, sociológicos, antropológicos, psicossociais, etc, o que revela a grandeza e importância deste romance para a cultura brasileira. Embora sinta-me atraído por cada uma destas perspectivas, prefiro deter-me numa análise de cunho literário e assim, avaliá-lo na tradição do romance brasileiro.
            Em primeiro lugar, a temática do cotidiano das classes populares marginalizadas, vivendo em favelas ou nas ruas, não é algo novo na literatura brasileira, bastando que nos recordemos de O Cortiço (1890) de Aluízio de Azevedo ou mesmo de Capitães da Areia (1937) de Jorge Amado. Por outro lado, é inegável que tais questões nunca tiveram o tratamento que mereceram, pelo menos no âmbito da literatura, que quando se ocupa dos problemas sociais, o faz preferencialmente com referências ao universo do trabalho, seja ele urbano ou rural. Obviamente que esta é uma herança da crítica marxista, cuja influência no romance social brasileiro é enorme. O mundo do marginalizado que transita nas fissuras do sistema econômico, este sim, é desconhecido – com raras e louváveis exceções – pela literatura brasileira.
            Neste aspecto, a impressão que o leitor guarda quando termina a leitura é a de que toda a literatura brasileira antes de Cidade de Deus é desprovida de realismo. Melhor dizendo, que não aborda questões tidas como fundamentais para nossa auto-compreensão enquanto sociedade. É como se, de repente, todo o nosso passado literário se resumisse a abordar frivolidades, elucubrações inúteis e um existencialismo de classe média que denuncia o seu caráter elitista e ideológico. Tudo isso, contudo, não passa de impressão: coisa natural e esperada, dada a narrativa impactante, rápida, nervosa do texto.
Tal impressão, típica das narrativas fortes, traz consigo o mérito de questionar e de influenciar os rumos da literatura. É bem possível que, tendo em vista a exposição midiática, sua qualidade literária intrínseca e a grande popularidade que este livro alcançou, sua influência sob as gerações futuras seja bastante considerável, imprimindo assim, novas possibilidades para um neo-realismo na literatura brasileira. O resgate da linguagem coloquial, das gírias e das expressões idiomáticas, aliado ao profundo senso da realidade nua e crua das ruas e à uma dramaticidade oriunda do próprio contexto social são ingredientes fundamentais para uma reabilitação do realismo na literatura. Cidade de Deus rompe, assim, com um ciclo de intenso formalismo técnico e estético que havia dominado a literatura brasileira desde a década de 1990.
De uma maneira geral, como seria de se esperar, o tom predominante do livro evoca uma realidade sombria, plenamente impregnada de decadência, que nem as tentativas líricas de reproduzir certa beleza insólita da natureza, são capazes de ofuscar. Um pessimismo generalizado quanto a viabilidade de um processo civilizatório brasileiro parece ser o subtítulo de uma triste crônica de uma sociedade que não deu certo,  que perdeu o seu rumo em algum momento da história. Esta perspectiva cética, vez por outra aparece na literatura brasileira, encontrando em O Cortiço, o antepassado mais óbvio deste romance.
Tal como o romance de Aluízio de Azevedo, o de Paulo Lins elege o meio social como seu protagonista. Estaríamos assim, revisitando o naturalismo? De certa maneira sim, muito embora o naturalismo de Paulo Lins não seja fruto de um determinismo biológico, embora pareça em linhas gerais, dependente de um determinismo social. Ou seja, as forças sociais (moradia, emprego, escola, família ou a evidente falta delas) é que, na maioria das vezes, determinam o lugar dos personagens na trama. Outrossim, como conseqüência direta, a subjetividade dos personagens é posta em segundo plano, de maneira que eles nos aparecem de forma esquemática, quase horizontais. Compreendo que, para superar isto, Paulo Lins teria que escrever um livro monumental, coisa impensável, tendo em vista, a já imensidão do projeto a que ele se dedicou.
Cidade de Deus, por outro lado, se distancia de O Cortiço num ponto bem óbvio: a ação. Neste sentido, este é um mérito indiscutível da obra. Em romances como esse, que geralmente procuram explicar uma dada realidade, a ação geralmente é posta em segundo plano para realçar certas teses de cunho mais sociológico do autor. Aqui, os eventos – recheados de uma violência inominável e visceral – é que “explicam” a realidade. Ou seja, enxerga-se o mundo sob a perspectiva da violência, o que faz desta obra uma interpretação interna do fenômeno, coisa aliás, jamais realizada pela literatura brasileira.
São evidentes os méritos deste grande romance, que deve ser incluído, sem titubeios, já entre os grandes da nossa história literária. Sem dúvida o mais importante romance da década de 1990.

Por que é um clássico brasileiro:

            Cidade de Deus é um clássico de nossa literatura por várias razões. A primeira delas é por romper com o formalismo estético da geração anterior; a segunda, por conseguir articular uma “explicação sociológica” com a dramaticidade própria à literatura; terceiro, por encontrar um perspectiva “interna” ao fenômeno para explicá-lo, sem cair na tentação de abordá-lo à distância. Tais ingredientes deram a reputação e a popularidade a esta obra que são, sem dúvida, muito merecidos.

Obras do autor:

Paulo Lins nasceu no Rio de Janeiro em 1958. Publicou:
Romance: Cidade de Deus (1997)
Poesia: Sobre o sol (1986)

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