Crítica: Paulo Lins. Cidade de Deus (1997)
Decadência e queda da civilização
brasileira:
A leitura de Cidade de Deus proporciona ao leitor inúmeras considerações, haja
vista a complexidade e a gravidade dos temas que aborda. E possível lê-lo sob
vários prismas, sejam eles históricos, sociológicos, antropológicos,
psicossociais, etc, o que revela a grandeza e importância deste romance para a
cultura brasileira. Embora sinta-me atraído por cada uma destas perspectivas,
prefiro deter-me numa análise de cunho literário e assim, avaliá-lo na tradição
do romance brasileiro.
Em primeiro lugar, a temática do
cotidiano das classes populares marginalizadas, vivendo em favelas ou nas ruas,
não é algo novo na literatura brasileira, bastando que nos recordemos de O Cortiço (1890) de Aluízio de Azevedo
ou mesmo de Capitães da Areia (1937)
de Jorge Amado. Por outro lado, é inegável que tais questões nunca tiveram o
tratamento que mereceram, pelo menos no âmbito da literatura, que quando se
ocupa dos problemas sociais, o faz preferencialmente com referências ao
universo do trabalho, seja ele urbano ou rural. Obviamente que esta é uma
herança da crítica marxista, cuja influência no romance social brasileiro é
enorme. O mundo do marginalizado que transita nas fissuras do sistema econômico,
este sim, é desconhecido – com raras e louváveis exceções – pela literatura
brasileira.
Neste aspecto, a impressão que o
leitor guarda quando termina a leitura é a de que toda a literatura brasileira
antes de Cidade de Deus é desprovida
de realismo. Melhor dizendo, que não aborda questões tidas como fundamentais
para nossa auto-compreensão enquanto sociedade. É como se, de repente, todo o
nosso passado literário se resumisse a abordar frivolidades, elucubrações
inúteis e um existencialismo de classe média que denuncia o seu caráter
elitista e ideológico. Tudo isso, contudo, não passa de impressão: coisa natural e esperada, dada a narrativa impactante,
rápida, nervosa do texto.
Tal impressão, típica das
narrativas fortes, traz consigo o mérito de questionar e de influenciar os
rumos da literatura. É bem possível que, tendo em vista a exposição midiática,
sua qualidade literária intrínseca e a grande popularidade que este livro
alcançou, sua influência sob as gerações futuras seja bastante considerável,
imprimindo assim, novas possibilidades para um neo-realismo na literatura
brasileira. O resgate da linguagem coloquial, das gírias e das expressões
idiomáticas, aliado ao profundo senso da realidade nua e crua das ruas e à uma
dramaticidade oriunda do próprio contexto social são ingredientes fundamentais
para uma reabilitação do realismo na literatura. Cidade de Deus rompe, assim, com um ciclo de intenso formalismo
técnico e estético que havia dominado a literatura brasileira desde a década de
1990.
De uma maneira geral, como seria de se esperar, o tom predominante do
livro evoca uma realidade sombria, plenamente impregnada de decadência, que nem
as tentativas líricas de reproduzir certa beleza insólita da natureza, são
capazes de ofuscar. Um pessimismo generalizado quanto a viabilidade de um
processo civilizatório brasileiro parece ser o subtítulo de uma triste crônica
de uma sociedade que não deu certo, que
perdeu o seu rumo em algum momento da história. Esta perspectiva cética, vez
por outra aparece na literatura brasileira, encontrando em O Cortiço, o antepassado mais óbvio deste romance.
Tal como o romance de Aluízio de Azevedo, o de Paulo Lins elege o meio social como seu protagonista.
Estaríamos assim, revisitando o naturalismo? De certa maneira sim, muito embora
o naturalismo de Paulo Lins não seja fruto de um determinismo biológico, embora
pareça em linhas gerais, dependente de um determinismo social. Ou seja, as
forças sociais (moradia, emprego, escola, família ou a evidente falta delas) é
que, na maioria das vezes, determinam o lugar dos personagens na trama.
Outrossim, como conseqüência direta, a subjetividade dos personagens é posta em
segundo plano, de maneira que eles nos aparecem de forma esquemática, quase
horizontais. Compreendo que, para superar isto, Paulo Lins teria que escrever
um livro monumental, coisa impensável, tendo em vista, a já imensidão do
projeto a que ele se dedicou.
Cidade de Deus, por outro lado,
se distancia de O Cortiço num ponto
bem óbvio: a ação. Neste sentido, este é um mérito indiscutível da obra. Em
romances como esse, que geralmente procuram explicar uma dada realidade, a ação
geralmente é posta em segundo plano para realçar certas teses de cunho mais
sociológico do autor. Aqui, os eventos – recheados de uma violência inominável
e visceral – é que “explicam” a realidade. Ou seja, enxerga-se o mundo sob a
perspectiva da violência, o que faz desta obra uma interpretação interna do
fenômeno, coisa aliás, jamais realizada pela literatura brasileira.
São evidentes os méritos deste grande romance, que deve ser incluído, sem
titubeios, já entre os grandes da nossa história literária. Sem dúvida o mais
importante romance da década de 1990.
Por que é um
clássico brasileiro:
Cidade
de Deus é um clássico de nossa literatura por várias razões. A primeira
delas é por romper com o formalismo estético da geração anterior; a segunda,
por conseguir articular uma “explicação sociológica” com a dramaticidade
própria à literatura; terceiro, por encontrar um perspectiva “interna” ao fenômeno
para explicá-lo, sem cair na tentação de abordá-lo à distância. Tais
ingredientes deram a reputação e a popularidade a esta obra que são, sem
dúvida, muito merecidos.
Obras do autor:
Paulo
Lins nasceu no Rio de Janeiro em 1958. Publicou:
Romance: Cidade de Deus (1997)
Poesia: Sobre o sol (1986)
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