quinta-feira, 28 de março de 2013




Crítica: Octávio de Faria. Mundos Mortos (1937)



O Diabo e a Crise da Civilização Ocidental:

            Não deixa de ser curioso o fato de o Brasil, sendo um país de origens católicas, não houvesse produzido uma forte e contínua tradição literária católica. Fosse somente pelo inaudito, a obra de Octávio de Faria já garantiria um lugar destacado em nossas letras. Mas há muito mais a ser considerado. O autor faz parte de uma geração de brilhantes intelectuais católicos, dentre os quais destacaram-se os nomes de Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção e Gustavo Barroso. Viveu, neste sentido, uma época de apogeu cultural e político da Igreja no país, trilhada, é bem verdade, nas sendas do conservadorismo militante que flertou com as ideologias autoritárias do período. A representatividade da obra de Octávio de Faria, como testemunho desse momento histórico, é mais uma razão para que Mundos Mortos fosse incluído neste estudo.
            Para além do critério de representatividade histórica, é fato não ser possível desmerecer as virtudes intrínsecas de Octávio de Faria como escritor e como ficcionista. Neste sentido, produziu a gigantesca série de romances sob o título de Tragédia Burguesa, da qual Mundos Mortos é o primeiro de uma lista de quinze volumes. Iniciada em 1937, a série só se concluiria em 1979 portanto, mais de quarenta anos depois, num esforço criativo sem paralelos na história literária brasileira, ombreando-se às grandes realizações do gênero, como a Comédia Humana de Honoré de Balzac e Guerra e Paz de Leon Tolstoi. A saga, se é que podemos nos referir assim à Tragédia Burguesa, gira em torno da eterna luta entre a Redenção e o Pecado, na qual os homens tomam parte na qualidade de coadjuvantes. Evidentemente, pelo caráter da obra, as ditas excelências da doutrina católica funcionam como verdades eternas que deveriam guiar os homens através dos dissabores da vida. Não acredito que se poderia esperar algo de diferente de um escritor que fez de sua obra um tributo de amor à religião a que tanto se devotou.
            Mas, mesmo sendo naturalmente dogmática, a Tragédia Burguesa não chega a ser panfletária, muito menos proselitista, pelo menos na maior parte do tempo. Antes disso, procura compreender as razões do afastamento do homem moderno de Deus e da religião, buscando enxergar nas conseqüências deste afastamento, as manifestações de uma crise da consciência ocidental. Em grandes linhas, as características deste novo mundo descristianizado são, para o autor: o individualismo egoísta, a generalização do hedonismo, o relativismo dos valores éticos, a indiferença religiosa e o niilismo existencial, fazendo com que o homem moderno só alcance o mundo pela perspectiva do desespero, da angústia e da insatisfação. As personagens de Octávio de Faria são, assim, estudos de caso do homem que se afasta da Fé movido pelas mais diversas razões (conveniência, vaidade, orgulho, desespero), encontrando no seu caminho apenas desgostos e decepções, que o fazem sentir a degradação do próprio ser. O reencontro com as verdades da religião redime-os, salva-os muitas vezes, embora ainda predomine um ambiente generalizado de Pecado e extravio.
            Em Mundos Mortos são executados os primeiros movimentos da Tragédia Burguesa. Num colégio católico, muitos dos alunos são acometidos de dúvidas a respeito da Fé e da própria existência de Deus. Este é o momento da perda da pureza da infância, quando o homem se lança perigosamente nos caminhos do desvio e da perdição. Os casos de Ivo Freitas e Roberto Dutra são desenvolvidos de perto pelo autor. O primeiro lança-se num combate insano contra suas tendências sensuais, apelando desesperadamente para o Padre Luis, seu confessor, e para orações. Mas, pouco a pouco, esmorece na luta e é tragado de vez para uma vida de devassidão. Já Roberto Dutra, que alimenta uma paixão secreta por Carlos Eduardo, revolta-se contra o procedimento repressivo do reitor do colégio e abandona de vez a fé na Igreja e em Deus. Ambos acabam sendo vítimas da escuridão que lhes domina a alma, restando-lhes somente o sofrimento da culpa que os persegue.
            Por outro lado, Carlos Eduardo é em tudo, o símbolo da pureza e da inocência. Moço inteligente, ativo, companheiro e leal, é surpreendido pela morte num atropelamento banal. A morte de Carlos Eduardo, faz com que muitos dos rapazes do colégio passem a duvidar ainda mais da existência de um Deus provedor e justo, considerando o mundo como um absurdo generalizado. Frustram-se as tentativas de Padre Luís em demonstrar que os desígnios de Deus são misteriosos e não cabe aos homens julgar, mas apenas aceitar passivamente a incompreensibilidade das Suas ações. O final do romance é marcado por uma atmosfera de revolta contra a Fé, marcando bem o clima de insatisfação ante as explicações religiosas, sumamente vagas e resignadas.
            A principal observação que se fez a Mundos Mortos é a de que o protagonista principal do romance não é sequer mencionado, mas sempre subentendido: o próprio Diabo, que se insinua na vida das personagens, levando-as ao fundo e triunfando no seu propósito em afastá-los de Deus e da Verdade. É inegável que assim seja e, sob este ponto de vista, as personagens acabam destituídas de verossimilhança e realidade, sendo antes de tudo, marionetes na disputa entre Deus e o Diabo que, no caso, controlaria verdadeiramente as ações. O fundo didático e exortativo da obra, se ainda não está completamente claro em Mundos Mortos será ainda descortinado nos volumes posteriores. Estamos, neste caso, diante de um problema teológico, muito mais do que diante de uma questão literária pois, se é o Diabo o responsável pela queda do homem, será ele também, por conseqüência, quem fará deste mundo o cenário da sua glória. Assim, pergunta-se onde está Deus, como Ele opera e qual a Sua responsabilidade diante da decadência moral do homem? E, em último caso, qual o papel que o homem deve assumir para manter-se íntegro e infenso ao poder do Mal?
           
Por que é um clássico brasileiro:

            Mundos Mortos é o primeiro livro da série Tragédia Burguesa, um amplo questionamento sobre o lugar da Fé e da religião no mundo moderno. Obra de caráter religioso, vê a decadência da civilização ocidental pelo lado da descristianização que leva o homem a trilhar o caminho do desvio e da perdição. Pela temática e pela exaustiva meditação teológica, este é um livro sem paralelos na história da literatura brasileira.

Obras do autor:

Octávio de Faria nasceu em 1908 no Rio de Janeiro e morreu em 1980 na mesma cidade. Publicou:
Romance: Mundos Mortos (1937), Os Caminhos da Vida (1939), O Lodo das Ruas (1942), O Anjo de Pedra (1944), Os Renegados (1947), Os Loucos (1952), O Senhor do Mundo (1957), O Retrato da Morte (1961), Ângela ou as Areias do Mundo (1963), A Sombra de Deus (1966), O Cavaleiro da Virgem (1971), O Indigno (1976), O Pássaro Oculto (1979). Estes romances compõem o conjunto ficcional Tragédia Burguesa.
Novela: Novelas da Masmorra (1966), Três Novelas da Masmorra (1969).
Teatro: Três Tragédias à Sombra da Cruz (1939).
Ensaio: Maquiavel e o Brasil (1931), Destino do Socialismo (1933), Cristo e César (1937), Fronteiras da Santidade (1940), Significação do Far-West (1952), Pequena Introdução à História do Cinema (1964).
Crítica Literária: Dois Poetas (1935), Coelho Neto (1958), Leon Bloy (1969).

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