Crítica: Octávio de Faria. Mundos Mortos (1937)
O Diabo e a Crise da Civilização Ocidental:
Não deixa de ser curioso o fato de o
Brasil, sendo um país de origens católicas, não houvesse produzido uma forte e
contínua tradição literária católica. Fosse somente pelo inaudito, a obra de
Octávio de Faria já garantiria um lugar destacado em nossas letras. Mas há
muito mais a ser considerado. O autor faz parte de uma geração de brilhantes
intelectuais católicos, dentre os quais destacaram-se os nomes de Alceu Amoroso
Lima, Gustavo Corção e Gustavo Barroso. Viveu, neste sentido, uma época de
apogeu cultural e político da Igreja no país, trilhada, é bem verdade, nas
sendas do conservadorismo militante que flertou com as ideologias autoritárias
do período. A representatividade da obra de Octávio de Faria, como testemunho
desse momento histórico, é mais uma razão para que Mundos Mortos fosse incluído neste estudo.
Para além do critério de
representatividade histórica, é fato não ser possível desmerecer as virtudes
intrínsecas de Octávio de Faria como escritor e como ficcionista. Neste
sentido, produziu a gigantesca série de romances sob o título de Tragédia Burguesa, da qual Mundos Mortos é o primeiro de uma lista
de quinze volumes. Iniciada em 1937,
a série só se concluiria em 1979 portanto, mais de
quarenta anos depois, num esforço criativo sem paralelos na história literária
brasileira, ombreando-se às grandes realizações do gênero, como a Comédia Humana de Honoré de Balzac e Guerra e Paz de Leon Tolstoi. A saga, se
é que podemos nos referir assim à Tragédia
Burguesa, gira em torno da eterna luta entre a Redenção e o Pecado, na qual
os homens tomam parte na qualidade de coadjuvantes. Evidentemente, pelo caráter
da obra, as ditas excelências da doutrina católica funcionam como verdades
eternas que deveriam guiar os homens através dos dissabores da vida. Não acredito
que se poderia esperar algo de diferente de um escritor que fez de sua obra um tributo
de amor à religião a que tanto se devotou.
Mas, mesmo sendo naturalmente
dogmática, a Tragédia Burguesa não
chega a ser panfletária, muito menos proselitista, pelo menos na maior parte do
tempo. Antes disso, procura compreender as razões do afastamento do homem
moderno de Deus e da religião, buscando enxergar nas conseqüências deste
afastamento, as manifestações de uma crise da consciência ocidental. Em grandes
linhas, as características deste novo mundo descristianizado são, para o autor:
o individualismo egoísta, a generalização do hedonismo, o relativismo dos
valores éticos, a indiferença religiosa e o niilismo existencial, fazendo com
que o homem moderno só alcance o mundo pela perspectiva do desespero, da
angústia e da insatisfação. As personagens de Octávio de Faria são, assim,
estudos de caso do homem que se afasta da Fé movido pelas mais diversas razões
(conveniência, vaidade, orgulho, desespero), encontrando no seu caminho apenas
desgostos e decepções, que o fazem sentir a degradação do próprio ser. O
reencontro com as verdades da religião redime-os, salva-os muitas vezes, embora
ainda predomine um ambiente generalizado de Pecado e extravio.
Por outro lado, Carlos Eduardo é em
tudo, o símbolo da pureza e da inocência. Moço inteligente, ativo, companheiro
e leal, é surpreendido pela morte num atropelamento banal. A morte de Carlos
Eduardo, faz com que muitos dos rapazes do colégio passem a duvidar ainda mais
da existência de um Deus provedor e justo, considerando o mundo como um absurdo
generalizado. Frustram-se as tentativas de Padre Luís em demonstrar que os
desígnios de Deus são misteriosos e não cabe aos homens julgar, mas apenas
aceitar passivamente a incompreensibilidade das Suas ações. O final do romance
é marcado por uma atmosfera de revolta contra a Fé, marcando bem o clima de
insatisfação ante as explicações religiosas, sumamente vagas e resignadas.
A principal observação que se fez a Mundos Mortos é a de que o protagonista
principal do romance não é sequer mencionado, mas sempre subentendido: o
próprio Diabo, que se insinua na vida das personagens, levando-as ao fundo e
triunfando no seu propósito em afastá-los de Deus e da Verdade. É inegável que
assim seja e, sob este ponto de vista, as personagens acabam destituídas de
verossimilhança e realidade, sendo antes de tudo, marionetes na disputa entre
Deus e o Diabo que, no caso, controlaria verdadeiramente as ações. O fundo
didático e exortativo da obra, se ainda não está completamente claro em Mundos
Mortos será ainda descortinado nos volumes posteriores.
Estamos, neste caso, diante de um problema teológico, muito mais do que diante
de uma questão literária pois, se é o Diabo o responsável pela queda do homem,
será ele também, por conseqüência, quem fará deste mundo o cenário da sua
glória. Assim, pergunta-se onde está Deus, como Ele opera e qual a Sua
responsabilidade diante da decadência moral do homem? E, em último caso, qual o
papel que o homem deve assumir para manter-se íntegro e infenso ao poder do
Mal?
Por que é um
clássico brasileiro:
Mundos
Mortos é o primeiro livro da série Tragédia
Burguesa, um amplo questionamento sobre o lugar da Fé e da religião no
mundo moderno. Obra de caráter religioso, vê a decadência da civilização
ocidental pelo lado da descristianização que leva o homem a trilhar o caminho
do desvio e da perdição. Pela temática e pela exaustiva meditação teológica,
este é um livro sem paralelos na história da literatura brasileira.
Obras do autor:
Octávio de Faria
nasceu em 1908 no Rio de Janeiro e morreu em 1980 na mesma cidade. Publicou:
Romance: Mundos Mortos (1937), Os
Caminhos da Vida (1939), O Lodo das
Ruas (1942), O Anjo de Pedra (1944),
Os Renegados (1947), Os Loucos (1952), O Senhor do Mundo (1957), O
Retrato da Morte (1961), Ângela ou as
Areias do Mundo (1963), A Sombra de
Deus (1966), O Cavaleiro da Virgem (1971),
O Indigno (1976), O Pássaro Oculto (1979). Estes romances
compõem o conjunto ficcional Tragédia
Burguesa.
Novela: Novelas da Masmorra (1966), Três
Novelas da Masmorra (1969).
Teatro: Três Tragédias à Sombra da
Cruz (1939).
Ensaio: Maquiavel e o Brasil (1931), Destino
do Socialismo (1933), Cristo e César (1937),
Fronteiras da Santidade (1940), Significação do Far-West (1952), Pequena Introdução à História do Cinema (1964).
Crítica Literária: Dois Poetas (1935), Coelho
Neto (1958), Leon Bloy (1969).
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