
Crítica: Emília Freitas. A Rainha do Ignoto (1899)
Ruído na paisagem:
Este Romance é uma das mais desconcertantes realizações da literatura
brasileira do século XIX. Tudo o que lhe diz respeito contrasta radicalmente
com o contexto da nossa produção ficcional, fazendo-o imune a qualquer
tentativa apressada de classificação. Neste sentido, de tão insólito, de tão
insperado, pode bem merecer a alcunha de mais estranho romance de toda a nossa
literatura.
O enredo conta-nos a história de Funesta, a Rainha do Ignoto, que é a
mestra suprema de uma sociedade feminina utópica, à maneira das amazonas das
antigas lendas. Esta sociedade tem como território a Ilha do Nevoeiro,
localizada em algum ponto da costa norte do Brasil, porém, desconhecida pelos
cartógrafos e marinheiros, já que o poder hipnótico das Paladinas do Ignoto os
impedem de avistar a ilha. O objetivo primeiro desta sociedade secreta é a
prática do bem, o consolo dos aflitos e a remediação dos males do mundo. Para
isso, empreendem ações ousadas, disfarçando-se e agindo sempre que se deparam
com a injustiça. As líderes desta organização são mulheres sábias, detentoras
de antigos conhecimentos esotéricos que incluem não só a prática da hipnose,
como também a mediunidade e a paranormalidade. São, outrossim, dedicadas à
ciência e o seu estágio de desenvolvimento tecnológico está muitas vezes mais
adiantado do que o padrão da época.
Bastasse considerar apenas isto e teríamos, num mesmo volume, um romance
fantástico, a primeira ficção científica da literatura brasileira, seu primeiro
romance esotérico e a primeira utopia social escrita no Brasil. Tudo isto
escrito por uma mulher: ou seja, o máximo de originalidade num meio dominado
por uma escrita basicamente masculina, de temas em definidos (romance urbano e
romance regionalista) e com uma perspectiva realista em suas linhas gerais.
Entretanto ainda é possível ver além: diante de nossos olhos se descortina um
romance simbolista-decadentista, impregnado de uma atmosfera ultrarromântica
que se articula com temas insólitos para revelar a mais ignorada e desconhecida
obra da nossa literatura.
Dada a complexidade e o inusitado da obra, é possível adentrar-lhe por
inúmeras portas. Em primeiro lugar, A
Rainha do Ignoto é um documento importante acerca da condição feminina no
Brasil do século XIX e não só porque escrito por uma mulher, mas sim por
manifestar-se claramente contra um modelo de dominação pariarcal cuja ideologia
impõe limites claros aos papéis considerados femininos. Além disso,
responsabiliza tal patriarcalismo e todos os valores a ele relacionados, por
muitos dos dissabores da vida. Ou seja, a autora crê que tais valores servem
não apenas para a manutenção de uma sociedade desigual e injusta, como também para
disseminação da ingorância que impedem homens e mulheres de alcançarem uma vida
plenamente realizada. As Paladinas do Ignoto representam a luz em combate às
trevas dos preconceitos socialmente arraigados. Neste sentido, o romance
resgata uma plataforma eminentemente iluminista (a igualdade entre homens e
mulheres, a liberdade da consciência, a necessária fraternidade entre os povos)
para defender uma agenda de emancipação feminina. Há neste esforço, um
pioneirismo desconcertante, haja visto ser Emília Freitas uma intelectual
irrealizada militando na periferia cultural do país. Tais questões, obviamente,
só ganhariam o merecido destaque muitas décadas depois da publicação deste
livro
As referências intelectuais aludidas no livro também contrastam com o
comum da nossa literatura. Consideremos, por hora, apenas as questões relativas
às práticas ocultistas e esotéricas. As Paladinas do Ignoto são mulheres
iniciadas em algum tipo de conhecimento gnóstico e detêm grande poder psíquico
paranormal. Ora, tal é simplesmente inconcebível e incompreensível caso
permaneçamos nos cículos estreitos do nosso romance. Simplesmente não há
referência a isso nos nossos círculos intelectuais mais públicos. As exceções
só podem advir, naquele momento histórico, à maçonaria e ao espiritismo. Aliás,
não raras vezes, Emília Freitas se refere ao círculo das Paladinas do Ignoto
como uma “maçonaria feminina”: um conhecimento secreto oriundo destas
sociedades foi, em algum momento, objeto do fascínio da escritora, que projetou
um equivalente feminino. Já o espiritismo, bem popular no Brasil desde sempre,
angariou as simpatias da autora, que transita com intimidade por questões
teológicas, místicas e sobrenaturais geralmente relacionadas aos estudos desta
religião.
A atmosfera do romance, impregnada de uma melancolia radical, de uma
tristeza sem amargor, de uma doce tentativa de compreensão do estágio infantil
em que repousa a humanidade, também é singular. Não se procura, à diferença dos
românticos, realistas ou naturalistas brasileiros, explicar a sociedade, mas
antes de tudo, buscar alternativas para a sua regeneração. Assim, tal não se
incumbe de ser um romance de “tese”, mas antes um panfleto libertário que
propugna por uma total subversão dos papéis sexuais. Neste sentido, ou seja,
levando em consideração tais problemas, só podemos situar convenientemente este
romance se pudermos pô-lo em diálogo com o romance inglês.
A tradição literária da Inglaterra (e em muito menor proporção, a da
França) sempre lançou mão de temas aparentemente fantásticos para representar
questões importantes no âmbito doméstico. Basta recordar dos romances de Swift
numa linha que alcança H.G. Wells, Stevenson, Mary Shelley e chega até Orwell e
Burgess. Caso pensássemos na poesia, teríamos um marco no misticismo de William
Blake. Este universo, tão caracteristicamente inglês, apenas tangencialmente se
infiltrou na literatura das línguas neorromânticas, sendo, no que diz respeito
à atmosfera soturna, revelado na poesia de um Baudelaire ou nos contos de
terror de um Guy de Maupassant. Em todo caso, contrasta radicalmente com o
realismo, tão peculiar à tradição das literaturas das línguas neorromânticas.
Emília Freitas, que escrevia e lia tanto em inglês como em francês, certamente
tomou consciência de tal expressão, e isto talvez tenha criado raízes muito
mais profundas na sua sensibilidade do que a própria tradição do romance em
português.
O fantástico de sua obra acabou sendo desdenhado como inverossímil, como
delirante, como infantilidade, ainda nos estreitos círculos provincianos do
Ceará. Daí porque o livro não tenha alçado maiores vôos no cenário brasileiro. Foi
incompreendido e assim permaneceu por mais de um século. Resta agora, à nossa
geração, lê-lo e reabilitá-lo, não só para fazer jus ao nome de Emília Freitas
mas também porque A Rainha do Ignoto
é um capítulo importante para a compreensão dos caminhos alternativos nos quais
a literatura brasileira se embrenhou.
Por que é um
clássico brasileiro:
A
Rainha do Ignoto éum livro desconcertante, não só pelo pionerismo dos temas
que aborda, como também pela maneira pela qual trata deles. Assim, podemos
considerá-lo nossa primeira obra de esoterismo, o primeiro livro fantástico, a
primeira ficção científica, a primeira utopia social e o primeiro livro
feminista do Brasil. Sendo tanto, é de se espantar a demora em reabilitá-lo no
âmbito da literatura brasileira, já que é documento necessário a compreensão
dos seus caminhos e das questões que levanta.
Obras da autora;
Emília Freitas
nasceu em Aracati (CE) em 1855 e morreu em Manaus em 1908. Publicou:
Romance: A Rainha do Ignoto (1899), O
Renegado (s/d);
Poesia:
Canções
do Lar (1891).
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