segunda-feira, 11 de março de 2013


Crítica: Emília Freitas. A Rainha do Ignoto (1899)


Ruído na paisagem:

Este Romance é uma das mais desconcertantes realizações da literatura brasileira do século XIX. Tudo o que lhe diz respeito contrasta radicalmente com o contexto da nossa produção ficcional, fazendo-o imune a qualquer tentativa apressada de classificação. Neste sentido, de tão insólito, de tão insperado, pode bem merecer a alcunha de mais estranho romance de toda a nossa literatura.
O enredo conta-nos a história de Funesta, a Rainha do Ignoto, que é a mestra suprema de uma sociedade feminina utópica, à maneira das amazonas das antigas lendas. Esta sociedade tem como território a Ilha do Nevoeiro, localizada em algum ponto da costa norte do Brasil, porém, desconhecida pelos cartógrafos e marinheiros, já que o poder hipnótico das Paladinas do Ignoto os impedem de avistar a ilha. O objetivo primeiro desta sociedade secreta é a prática do bem, o consolo dos aflitos e a remediação dos males do mundo. Para isso, empreendem ações ousadas, disfarçando-se e agindo sempre que se deparam com a injustiça. As líderes desta organização são mulheres sábias, detentoras de antigos conhecimentos esotéricos que incluem não só a prática da hipnose, como também a mediunidade e a paranormalidade. São, outrossim, dedicadas à ciência e o seu estágio de desenvolvimento tecnológico está muitas vezes mais adiantado do que o padrão da época.
Bastasse considerar apenas isto e teríamos, num mesmo volume, um romance fantástico, a primeira ficção científica da literatura brasileira, seu primeiro romance esotérico e a primeira utopia social escrita no Brasil. Tudo isto escrito por uma mulher: ou seja, o máximo de originalidade num meio dominado por uma escrita basicamente masculina, de temas em definidos (romance urbano e romance regionalista) e com uma perspectiva realista em suas linhas gerais. Entretanto ainda é possível ver além: diante de nossos olhos se descortina um romance simbolista-decadentista, impregnado de uma atmosfera ultrarromântica que se articula com temas insólitos para revelar a mais ignorada e desconhecida obra da nossa literatura.
Dada a complexidade e o inusitado da obra, é possível adentrar-lhe por inúmeras portas. Em primeiro lugar, A Rainha do Ignoto é um documento importante acerca da condição feminina no Brasil do século XIX e não só porque escrito por uma mulher, mas sim por manifestar-se claramente contra um modelo de dominação pariarcal cuja ideologia impõe limites claros aos papéis considerados femininos. Além disso, responsabiliza tal patriarcalismo e todos os valores a ele relacionados, por muitos dos dissabores da vida. Ou seja, a autora crê que tais valores servem não apenas para a manutenção de uma sociedade desigual e injusta, como também para disseminação da ingorância que impedem homens e mulheres de alcançarem uma vida plenamente realizada. As Paladinas do Ignoto representam a luz em combate às trevas dos preconceitos socialmente arraigados. Neste sentido, o romance resgata uma plataforma eminentemente iluminista (a igualdade entre homens e mulheres, a liberdade da consciência, a necessária fraternidade entre os povos) para defender uma agenda de emancipação feminina. Há neste esforço, um pioneirismo desconcertante, haja visto ser Emília Freitas uma intelectual irrealizada militando na periferia cultural do país. Tais questões, obviamente, só ganhariam o merecido destaque muitas décadas depois da publicação deste livro
As referências intelectuais aludidas no livro também contrastam com o comum da nossa literatura. Consideremos, por hora, apenas as questões relativas às práticas ocultistas e esotéricas. As Paladinas do Ignoto são mulheres iniciadas em algum tipo de conhecimento gnóstico e detêm grande poder psíquico paranormal. Ora, tal é simplesmente inconcebível e incompreensível caso permaneçamos nos cículos estreitos do nosso romance. Simplesmente não há referência a isso nos nossos círculos intelectuais mais públicos. As exceções só podem advir, naquele momento histórico, à maçonaria e ao espiritismo. Aliás, não raras vezes, Emília Freitas se refere ao círculo das Paladinas do Ignoto como uma “maçonaria feminina”: um conhecimento secreto oriundo destas sociedades foi, em algum momento, objeto do fascínio da escritora, que projetou um equivalente feminino. Já o espiritismo, bem popular no Brasil desde sempre, angariou as simpatias da autora, que transita com intimidade por questões teológicas, místicas e sobrenaturais geralmente relacionadas aos estudos desta religião.
A atmosfera do romance, impregnada de uma melancolia radical, de uma tristeza sem amargor, de uma doce tentativa de compreensão do estágio infantil em que repousa a humanidade, também é singular. Não se procura, à diferença dos românticos, realistas ou naturalistas brasileiros, explicar a sociedade, mas antes de tudo, buscar alternativas para a sua regeneração. Assim, tal não se incumbe de ser um romance de “tese”, mas antes um panfleto libertário que propugna por uma total subversão dos papéis sexuais. Neste sentido, ou seja, levando em consideração tais problemas, só podemos situar convenientemente este romance se pudermos pô-lo em diálogo com o romance inglês.
A tradição literária da Inglaterra (e em muito menor proporção, a da França) sempre lançou mão de temas aparentemente fantásticos para representar questões importantes no âmbito doméstico. Basta recordar dos romances de Swift numa linha que alcança H.G. Wells, Stevenson, Mary Shelley e chega até Orwell e Burgess. Caso pensássemos na poesia, teríamos um marco no misticismo de William Blake. Este universo, tão caracteristicamente inglês, apenas tangencialmente se infiltrou na literatura das línguas neorromânticas, sendo, no que diz respeito à atmosfera soturna, revelado na poesia de um Baudelaire ou nos contos de terror de um Guy de Maupassant. Em todo caso, contrasta radicalmente com o realismo, tão peculiar à tradição das literaturas das línguas neorromânticas. Emília Freitas, que escrevia e lia tanto em inglês como em francês, certamente tomou consciência de tal expressão, e isto talvez tenha criado raízes muito mais profundas na sua sensibilidade do que a própria tradição do romance em português.
O fantástico de sua obra acabou sendo desdenhado como inverossímil, como delirante, como infantilidade, ainda nos estreitos círculos provincianos do Ceará. Daí porque o livro não tenha alçado maiores vôos no cenário brasileiro. Foi incompreendido e assim permaneceu por mais de um século. Resta agora, à nossa geração, lê-lo e reabilitá-lo, não só para fazer jus ao nome de Emília Freitas mas também porque A Rainha do Ignoto é um capítulo importante para a compreensão dos caminhos alternativos nos quais a literatura brasileira se embrenhou.



Por que é um clássico brasileiro:

            A Rainha do Ignoto éum livro desconcertante, não só pelo pionerismo dos temas que aborda, como também pela maneira pela qual trata deles. Assim, podemos considerá-lo nossa primeira obra de esoterismo, o primeiro livro fantástico, a primeira ficção científica, a primeira utopia social e o primeiro livro feminista do Brasil. Sendo tanto, é de se espantar a demora em reabilitá-lo no âmbito da literatura brasileira, já que é documento necessário a compreensão dos seus caminhos e das questões que levanta.

Obras da autora;

Emília Freitas nasceu em Aracati (CE) em 1855 e morreu em Manaus em 1908. Publicou:
Romance: A Rainha do Ignoto (1899), O Renegado (s/d);
Poesia: Canções do Lar (1891).

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