terça-feira, 12 de março de 2013




Crítica: Fernando Sabino. O Encontro Marcado (1956)

O caminho da sabedoria:

            Quais as razões do prolongado sucesso editorial deste romance? Desde seu lançamento em 1956, sucederam-se nada menos que 75 edições até 2004, algo completamente fora dos padrões do nosso mercado, o que põe Fernando Sabino ao lado de outros recordistas de vendagem, como Jorge Amado e Paulo Coelho. Não é possível, contudo, encontrar uma fórmula ou receita de sucesso para o seu desempenho editorial. Na realidade, O Encontro Marcado vai na contra-corrente da vulgarização da literatura: lida com questões existenciais, realiza um sofisticado diálogo filosófico e literário com a tradição, é fundamentalmente bem construído e razoavelmente complexo do ponto de vista de sua estrutura narrativa.
Neste caso, sua principal virtude é a da honestidade, do tom de franqueza que impõe à narrativa e da completa abertura ao leitor. Não é uma obra pedante, hermética. Ao invés, desde logo se encontra aqui um refúgio contra todos os disfarces do cotidiano, permitindo-se ver uma abertura para além de um mundo cada vez mais envolto numa penumbra de ironia, dissimulações e hipocrisia. Alinha-se no rol daquelas obras que marcam a vida de uma pessoa que, inevitavelmente, fará deste livro, um amigo, um companheiro para a caminhada da vida.
É impossível, quando da leitura, não relembrar do doutor Eugênio Fontes, protagonista de Olhai os Lírios do Campo (romance de Erico Veríssimo, de 1938) que guarda certa semelhança com Eduardo Marciano. Tal como Eugênio Fontes, Eduardo Marciano é um sujeito brilhante do ponto de vista intelectual, mas completamente irrealizado e insatisfeito em relação à própria vida. Determinados traços de caráter comuns são facilmente identificáveis: são ambos muito orgulhosos e vaidosos mas, abrem mão da carreira (médico e escritor) em prol de um casamento de interesse; a infelicidade no matrimônio desencadeia uma permanente sensação de inferioridade e impotência; o rompimento com as conveniências – que gera o inevitável sofrimento – acaba sendo a única alternativa no caminho da felicidade; e, finalmente, purgados na dor e na solidão, acabam encontrando um rumo na vida, que os redime diante de si mesmos.
São romances próximos em razão da perspectiva assumida, mas diversos quando se atenta para a irredutibilidade de cada experiência pessoal. O idealismo do doutor Eugênio Fontes traz consigo uma identificação com a questão social, com o sofrimento do outro. A medicina, no seu caso, é feita instrumento de transformação e assume uma inevitável conotação política. Já para Eduardo Marciano, não há idealismo que resista ao seu ceticismo profundo. Nem a religião, o amor ou a carreira conseguem aplacar a sua angústia vital e, neste caso, o processo de redenção é muito mais complicado. Eduardo não tem com que se agarrar: seu Deus é um ser distante e indiferente; sua profissão é naturalmente individualista e solitária; o amor nunca lhe tocou seriamente. Assim, o sofrimento diante do mundo é muito mais aguçado do que o de Eugênio, que consegue se resolver quando superados os traumas da infância e rompidas certas amarras sociais.
Comparativamente aos outros grandes romances da década de 1950 (uma época de retorno ao regionalismo) O Encontro Marcado sobressai-se quanto ao seu caráter contemporâneo. Não é só o ambiente urbano quem lhe dá essa feição, mas a própria linguagem literária como um todo. Os períodos curtos dão o ritmo da vida alucinante da cidade grande; os diálogos, apesar de alicerçados num coloquialismo datado, permitem a expressão dos problemas abordados, sem artificialismos; diferentemente do romance urbano da década de 1930, os personagens não são mais seres transplantados do meio rural para o meio urbano, enfrentando as contradições de uma adaptação mal-feita: já são seres plenamente urbanos, vivendo problemas urbanos e concebendo-se enquanto tais, sem saudade ou nostalgia pelo passado rural.
O romance, talvez por isto mesmo, tenha conseguido a dificílima proeza de manter-se atual, mesmo passados mais de meio século de seu lançamento. Mas, inegavelmente, o estilo pessoal do autor é quem lhe confere esta atualidade. Sua narrativa nunca é enfadonha ou pesada. Por ser ágil, não significa que seja superficial. A erudição e o conhecimento literário do autor (e dos personagens) não têm qualquer ranço de pedantismo, nem estão deslocados no contexto, muito pelo contrário, pois reatualizam a tradição com autenticidade, impregnando a vida com a arte.
Como O Encontro Marcado tem muito de autobiográfico, fortalece no espírito do leitor a impressão de franqueza. Alguns poucos romances brasileiros conseguem revelar escritores à vontade, numa abertura fraterna diante do mundo. Aqui, é possível vislumbrar o homem Fernando Sabino na sua relação íntima com a literatura. As experiências de leitura do jovem Eduardo Marciano (que devem ter sido muito próximas das suas, como bem atestam as referências ao final do livro) nos remetem à uma geração que procurou vivenciar a literatura como missão, incorporando criativamente às suas vidas, as questões estéticas e existenciais ali desdobradas. Neste sentido, a obra é o testemunho vivo de uma geração que fez da literatura um caminho de auto-descoberta e de identidade pessoal.

Por que é um clássico brasileiro:

            O Encontro Marcado é uma obra que consegue manter-se contemporânea, mesmo que lançada há tanto tempo. Contribuiu, talvez mais do que se tenha atentado, para a definição de um estilo brasileiro e urbano de narrativa longa, lançando mão de um ritmo ágil e de diálogos alicerçados no falar coloquial. Interessante manifestação de um país em avançado processo de urbanização, a transformar-lhe radicalmente a sua herança cultural, o livro acaba sendo o retrato de uma geração insubmissa diante de uma realidade de atraso cultural e político.

Obras do autor:

Fernando Tavares Sabino nasceu em Belo Horizonte (1923). Publicou:
Romance e Novela: A Marca (1944), A Vida Real (1956), O Encontro Marcado (1956), O Grande Mentecapto (1976), O Menino no espelho (1982), A faca de dois gumes (1985), O tabuleiro de damas (1988), O bom ladrão (1991), Zélia, uma paixão (1991), Aqui estamos todos nus (1993), Com a graça de Deus (1994), O Homem feito (1998).

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