
Crítica: Erico Veríssimo. O Continente (1949)
O Brasil numa perspectiva gaúcha:
A série ficcional O Tempo e o Vento, iniciada com o
romance O Continente, é a prova maior
do talento criativo de Erico Veríssimo. Digo isto não somente pela qualidade
literária do texto ou pelas questões que ele vem a suscitar, mas antes de tudo,
por simbolizar o poder de seu autor em reinventar-se, metamorfoseando-se num
escritor que rompe radicalmente com a sua obra e, ao mesmo tempo, se mostra
disponível para abraçar o desafio de criar algo completamente novo.
O escritor que conhecíamos então, havia
fundado a sua literatura sob a perspectiva da análise existencial de seus
personagens, ambientados no universo urbano porto-alegrense (ou da pequena
cidade interiorana), sendo vívidas as suas preocupações sociais e revelando uma
tendência à crítica aos valores morais de seu tempo. Neste caso, Erico
Veríssimo alinhava-se perfeitamente ao romance brasileiro de 1930, embora
ostentasse suas qualidades muito próprias, que o puseram num lugar à parte
dentro do contexto maior daquela geração. Dentre estas peculiaridades estavam,
talvez, o seu conhecimento da língua e da literatura inglesa, que o permitiu
incorporar determinadas tendências e inéditas estratégias narrativas no
universo literário brasileiro. Caminhos
Cruzados (1935) foi, neste sentido, o mais experimental de seus romances,
revelando um leitor (e tradutor) entusiasta de Katherine Mansfield, Aldous Huxley,
entre outros, que contribuíram para a formação de seu estilo todo pessoal de
escrever e de narrar.
A partir de O Continente, a posição de Erico Veríssimo no cenário literário
brasileiro se altera. Os personagens, antes consumidos por certa angústia, agora
apresentam-se despidos de maiores dramas e conflitos: são homens e mulheres
muito práticos, cujo objetivo maior é o da própria sobrevivência num ambiente e
numa sociedade hostis; a rusticidade é, neste sentido, uma das marcas de origem
destes personagens que, acabam tornando-se mais horizontais do que as outras
criações literárias de Erico Veríssico. Interessante de perceber é que este
fato não lhes tira o interesse dramático, muito pelo contrário. Talvez os
personagens de O Continente sejam
mais vivos e felizes que qualquer outros que lhes tenham antecedido. A ação
externa, que os impele para uma vida de realização preenche-lhes o suposto
vazio interior, minimizando uma situação que poderia beirar o caricatural.
Engana-se, contudo, quem procura em O
Continente um
romance masculino, ou seja, um romance onde predominem a ação guerreira, a
aventura, o companheirismo desinteressado e viril dos gaúchos. Pouquíssimas
ações se passam no campo de batalha. Todas as guerras que são referidas no
romance, são experimentadas muito mais pelo impacto que causam numa determinada
realidade, do que, realmente, pelo lado ativo, da luta. Como o romance tem a
difícil missão de lidar com sete gerações de personagens, a guerra acaba
cumprindo um papel especial, a de fazer a transição entre uma geração e outra, impondo
limites às situações históricas particulares que constrói. Os homens, que
poderiam ter sido os heróis deste romance, ou são destemidos gaúchos cujo
destino é morrer na guerra ou são taciturnos camponeses que levam uma vida de
trabalho incessante e infelicidade completa. Certos tipos são impagáveis, sendo
o maior deles o Capitão Rodrigo Cambará, manifesta personificação da alma
gaúcha e brasileira. Outros, seguem-lhe de perto e não há como esquecer-se de
Fandango, personagem que funciona como expressão da cultura popular do Rio
Grande do Sul, com seus ditos, com sua mentalidade tradicional, com suas
maneiras abertas e francas.
Enquanto os homens morrem na guerra,
somem-se nas longas invernadas, ausentam-se nas tropas, as mulheres esperam. O
universo doméstico é o verdadeiro palco onde se desenrola a ação de O Continente, cujas atrizes principais
são as mulheres, principalmente Ana Terra e Bibiana. Dotadas de uma invulgar
capacidade em sobreviver diante das maiores adversidades e sob as mais
terríveis tragédias, trazem consigo o gérmen da civilização brasileira que
garante a posse daquelas terras. O risco que correm em ver a descendência extinta,
tantas as mortes na família, fazem com que se tornem mulheres obstinadas, cujo
núcleo da existência se dá no interior do lar sendo, por isso, somente a
família o seu espaço de realização. Ana Terra ainda é a mãe mitológica do
gaúcho, verdadeira mãe-terra, síntese deste ímpeto incontrolável pela vida. Não
à toa, na velhice torna-se parteira, trazendo à luz praticamente toda uma
geração de moradores da cidade de Santa Fé. Sua neta, Bibiana Terra-Cambará tem
a incumbência de manter viva a família Cambará, diante das mortes do marido
(Rodrigo) e do filho (Bolívar), restando-lhe somente o neto.
Embora seja um romance regionalista,
o escopo da sua problematização é bem mais amplo. Não quer ser apenas um épico
gaúcho, mas um estudo da formação brasileira a partir de uma perspectiva
gaúcha. Sistematicamente, o autor busca dialogar com a história brasileira na
tentativa de compreender o sentido da nacionalidade. Mas, como seria de se
esperar, este sentido só pode ser apreendido regionalmente, em razão das
condições materiais e ideológicas objetivas que condicionam a percepção
intelectual do homem.
O livro, neste sentido, pode ser
apreendido em dois momentos distintos. O primeiro, que vai do século XVIII até
a Guerra dos Farrapos (1835-1845) busca reconstituir os processos que deram
origem à cultura gaúcha, fundamentada na particularidade da colonização da
região sul, em que predominou a pecuária extensiva e, consequentemente, uma
intensa mobilidade espacial da população. A guerra, como evento determinante na
formação da cultura sulista, define o caráter do povo, o gosto da hierarquia, o
patriarcalismo das relações sociais, a formação das grandes estâncias, o
espírito despojado e militarista dos homens. Num segundo momento, do final da
Guerra dos Farrapos até à Revolução Federalista (1895), o imigrante entra em cena. Traz consigo
novos hábitos e rotinas de trabalho, completamente estranhos aos habitantes
originais da província. Desta interseção entre brasileiros e imigrantes – que
não é fraterna, nem cordial, mas fundamentada num processo de dupla assimilação
conflituosa – nasce a atual cultura gaúcha, que é brasileira, mas de um modo
todo especial de sê-la.
Nos desdobramentos posteriores, que
abrangem os romances O Retrato (1951)
e O Arquipélago (1961), a fundação da
identidade gaúcha dá sentido à evolução histórica nacional. Perdem, contudo,
muito do caráter épico do romance, para dar lugar à uma ampla reflexão acerca
do Brasil e do papel do Rio Grande do Sul na construção do país.
Por
que é um clássico brasileiro:
A tentativa de se produzir uma nova
interpretação do país que mantenha evidente a sua origem regional, faz desse um
livro raro entre nós. O caráter épico do romance evidencia, mais do que tudo, a
imensa capacidade de criação e o talento narrativo do autor, que se impôs
definitivamente como um dos grandes gênios da língua.
Obras
do autor:
Érico
Veríssimo nasceu em Cruz
Alta (RS) em 1905 e morreu em Porto Alegre em 1975.
Publicou:
Romance: Fantoches (1932), Clarissa (1933),
Música ao Longe (1935), Caminhos Cruzados (1935), Um lugar ao sol (1936), Olhai dos Lírios do Campo (1938), Saga (1940), O Resto é Silêncio (1943), Mãos
de meu filho (1948), O Continente (1949,
da série O Tempo e o Vento), O Retrato (1951, da série O Tempo e o Vento), Noite (1954), O arquipélago (1961, da série O Tempo e o Vento), O Senhor Embaixador (1965), O Prisioneiro (1967), Um certo capitão Rodrigo (1970), Incidente em Antares (1971), Ana Terra (1971),
Literatura Infanto-Juvenil: A vida de Joana D’Arc (1935), Meu ABC (1936), Rosa Maria no Castelo Encantado (1936), Os Três Porquinhos Pobres (1936), As aventuras do avião vermelho (1936), As aventuras de Tibicuera (1937), Urso com música na barriga (1938), Outra vez os três porquinhos (1939), Aventuras no mundo da higiene (1939), A vida do elefante Basílio (1939), Gente e Bichos (1956).
Narrativas de Viagem: Gato preto em campo de neve (1941), A volta do gato preto (1946), México (1957), Israel em Abril (1969).
Biografia, Ensaio e Crítica Literária: Breve história da literatura brasileira (1944),
Um certo Henrique Bertaso (1972), Solo de Clarineta (1973, 1976).
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