domingo, 10 de março de 2013







Crítica: Dyonélio Machado. Os Ratos (1935)


Sob a normalidade cotidiana escondem-se os abismos da existência:

Uma Porto Alegre sufocante, ameaçadora, paira sobre um homem desesperado. Bastam-lhe apenas cinqüenta e três mil réis para saldar a dívida que tem com o leiteiro e livrar-se do vexame e do falatório dos vizinhos. Não tem parentes ou amigos a quem recorrer. Resta-lhe pedir a estranhos: o diretor da repartição, um conhecido com quem já não fala, o agiota mal-intencionado. Troca, para sobreviver, uma humilhação por outra: não pagar a conta e ficar mal-falado na vizinhança ou pedir o dinheiro e ser desmoralizado perante os “cidadãos de bem”.
Tem de salvar a sua honra e aplacar a fome do filho pequeno. Pede. Todos negam-lhe o dinheiro. Um homem clama diante da cidade. É uma quantia pequena, suficiente apenas para salvar os últimos vestígios de sua dignidade. Mas, a cidade vira-lhe as costas, indiferente. Não valerá a quantia dispensada. Que valor pode ter alguém como Nazianzeno: um sujeito comum, sem diploma ou amigos influentes, miseravelmente pago e esquecido numa repartição pública? Com quais garantias, favores ou obséquios poderá retribuir a solicitude dos cidadãos?
Este é um romance que se propõe a desvelar a condição alienada do homem comum. O mundo, antes de tudo, se apresenta como uma ameaça. É preciso saber defender-se, estabelecer relações, procurar inserção na lógica do favor, fazer um bico, ganhar um troco. Nazianzeno é vítima do mundo. Incapaz de lidar e conviver com o monstro de concreto, acaba sozinho. Na rua predomina o acordo, o conhecimento, o favor, o jeitinho. Só uns poucos detêm o acesso às suas facilidades, pois já se despojaram das antiquadas noções de honra e de valor pessoal. Onde predomina a coisificação das pessoas, os vencedores são as mais preciosas mercadorias.
Resta-lhe, contudo, o lar. A mulher, fragilizada pelas sucessivas privações, ainda o acompanha. O menino pequeno, alheio a tudo, é o mais indefeso. Ainda assim, a esfera doméstica é constantemente assaltada pelo eco intrometido da rua: a maledicência dos vizinhos, a arrogância dos cobradores põem o lar na defensiva. Esta fragílima estrutura é o único anteparo de que dispõe Nazianzeno contra o mundo. A ameaça do leiteiro é a senha: do pagamento depende a sua sobrevivência.
Durante o dia em que se empenha em levantar a quantia, Nazianzeno enxerga apenas um ponto: a ameaça do leiteiro. Além disso tudo torna-se embaçado, difuso. As recriminações, as lições de moral, as humilhações e o mais, dançam-lhe ao redor, sem contudo, eclipsar o foco de sua preocupação. Bastaria conseguir o dinheiro, resolver o problema com o leiteiro e teria uma segunda chance, acredita. O mundo recomeçaria do nada. Revitalizado já seria um outro Nazianzeno, pronto a corrigir seu passado de imprudência.
Depois de uma experiência fracassada na roleta, onde gasta os seus últimos cinco mil réis, recorre ao agiota. Este não tem dinheiro para agora, mas enxerga uma possibilidade. É possível uma garantia? Um conhecido em comum tem um anel de bacharel empenhado. Uma transação possibilitará o empréstimo. Nazianzeno desce aos submundos da agiotagem e das pequenas trapaças de Porto Alegre. Com o estômago vazio, tudo o mais lhe escapa. Não compreende as sucessivas idas e vindas, as negociações à meia luz nos bares infectos, o blefe e a dissimulação da gatunagem miúda. Enfim, exausto, consegue o dinheiro.
Aquela a redenção de sua dignidade. A mulher, aliviada, suspira. À noite, ela dorme o sono dos justos. Mas Nazianzeno, não. Uma noite sem sonhos é invadida pelas imagens do leiteiro recebendo o dinheiro e pelos gestos de desdém de Nazianzeno. A angústia, as constantes humilhações, todas as suas frustrações se concentram num só ponto: o de imaginar a surpresa do leiteiro. Aos poucos todas estas imagens do sonho e da vertigem se confundem na única imagem dos ratos devorando tudo, impestando a casa, que aos poucos, sucumbe.
Para compor esta trama, Dyonélio Machado utiliza-se de uma linguagem despojada de artificialismos, de pequenos e curtos períodos. Assim, impõe ao leitor um ritmo, que pode ser lento ou dramaticamente rápido, mas é sempre tenso, feito de expectativas, quase sempre frustradas. O avançar do romance vai descortinando um mundo impregnado de fortes imagens subconscientes, do sonho ao pesadelo, criando um ambiente de desespero quase que clautrofóbico. O fato do romance focar o submundo contribui para esta sensação enjoativa. Nunca se tem a certeza da libertação de Nazianzeno, talvez o pesadelo nunca termine, talvez seja apenas entrecortado por alguns momentos de relaxamento. Enfim, no geral, o clima sugerido é o de desconforto, de vertigem e de náusea, numa clara referência à obra de Franz Kafka. A expressão de Dyonélio, neste caso, só pode ter sido muito bem sucedida.

Por que é um clássico brasileiro:

Os Ratos, por seu ritmo vertiginoso, por sua força de sugestão ou pelos ambientes de terror que consegue suscitar, é uma das mais interessantes realizações do romance brasileiro da década de 1930. Neste sentido, as suas influências mais marcantes vêm da literatura de Franz Kafka, de Alfred Döblin (Berlin, Alexanderplatz) e, principalmente, de Dostoievski. Interessante notar que este romance de Dyonélio Machado se integra a outros clássicos da geração de 1930, com os quais forma um conjunto harmonioso pelo tema principal: o das frustrações do homem comum. Assim, inegavelmente, Os Ratos é irmão de Angústia (Graciliano Ramos) e de O amanuense Belmiro (Cyro dos Anjos), cada qual expressando uma possibilidade distinta de um motivo aparentemente inesgotável.

Obras do autor:

Dyonélio Machado nasceu em Quarai (RS) em 1895 e morreu em --- em Porto Alegre. Publicou:
Romance: Os ratos (1935), O louco do Cati (1942), Desolação (1944), Passos Perdidos (1945), Deuses Econômicos (1976), Prodígios (1980), Endiabrados (1980), Sol Subterrâneo (1981), Nuanças (1981), Fada (1982), Ele vem do fundão (1982).
Conto: Um pobre homem (1927).
Ensaio: A Política Contemporânea (1923)

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