quarta-feira, 13 de março de 2013





Crítica: Mário de Andrade. Macunaíma, o heroi sem nenhum caráter (1928).

Modernismo e Identidade Nacional:

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter foi o romance que definiu os horizontes da moderna ficção brasileira, aliando a experimentação da linguagem ao universo da cultura popular. Esta síntese entre o moderno e o tradicional, expressão básica do manifesto modernista de 1922, deitou raízes não só em nosso meio literário, como também nas mais diversas artes, como a música, o cinema, o teatro e a arquitetura. É possível crer que, a partir de Macunaíma a expressão literária brasileira ganhou um caráter peculiar, que a distingue inteiramente das literaturas de outros países, tornando-a especificamente brasileira.
Para alcançar este estágio, no entanto, foi necessário buscar um ponto de partida materializado na idéia da necessidade de se “redescobrir o Brasil”. Esta redescoberta pretendia desconstruir uma imagem, acalentada pelas elites desde o segundo reinado, de que o Brasil deveria servir de continuidade ao projeto civilizatório europeu nas Américas.  Assim, a primazia deste esforço civilizatório cabia à raça branca, assumindo um papel aculturador dos outros diversos grupos étnicos, como índios e negros. Não era o caso de simplesmente negar a diversidade étnica na formação da cultura brasileira, mas de desqualificar aquelas heranças não-européias como capazes de contribuir para a construção da civilização tropical.
Ao rejeitar o projeto civilizatório oficial foi necessário buscar os elementos que pudessem construir um novo propósito ou finalidade nacional. Para tal, talvez a primeira lição que Macunaíma nos dê, seja a da aceitação de nossa própria identidade. O fato do personagem-título não ter “nenhum caráter” já confirma esta pretensão – a de que os padrões morais estrangeiros não são possíveis nesta nova civilização. A idéia de “aceitação” não foi algo, contudo, que se tenha realizado de uma só vez na cultura brasileira contemporânea. Muitos episódios de nossa história podem ser interpretados sob este viés, dentre os quais estão a emergência do nacionalismo de Vargas, a disseminação das teorias da “democracia racial” de Gilberto Freyre, a adoção do samba como expressão musical brasileira por excelência e até a vitória da Seleção Brasileira na Copa de 1958, destruindo aquilo que Nélson Rodrigues alcunhou de “síndrome de vira-latas”.
Então, dadas as condições históricas a que estava submetido, Macunaíma não foi capaz de realizar a definitiva auto-aceitação do povo brasileiro. Abriu, contudo, os caminhos para tal. E, ao invés de fazê-lo recorrendo simplesmente a um jargão nacionalista exaltado – caminho que trilharam outros modernistas – procurou deslocar a imagem tradicional do Brasil da situação de algo primitivo para a vanguarda da expressão artística.
Esta transformação foi possível, no campo da literatura, pelo trabalho experimental com a linguagem. Um processo semelhante, guardadas as devidas proporções, ocorreu com a literatura romântica. Naquela época, para consolidar o romance como uma arte brasileira, foi necessário dotar o gênero de uma linguagem específica, criando uma língua literária brasileira distinta da portuguesa. No caso, não eram importantes somente os temas e motivos nacionais, pois que os escritores neoclássicos da Arcádia, por exemplo, já buscavam estas situações. Foi a capacidade de reinventar a língua, aproximando-a do português falado no país quem criou o romance brasileiro.
Mário de Andrade mostrava ser alguém fundamentalmente preocupado em encontrar uma nova expressão literária que pudesse sustentar seu projeto de renovação artística. Em Macunaíma estas questões são bem sublinhadas ao longo do texto. O ritmo de que se vale na narrativa, baseado nas expressões míticas da literatura oral brasileira já é bem uma prova disso. Estas experimentações haviam nascido bem antes, já no tempo do poema Paulicéia Desvairada (1922), passando por seu romance Amar, verbo intransitivo (1927), mas se consolidam definitivamente em Macunaíma. É o exercício da oralidade tradicional e coloquial quem dá a forma ao romance, não como simples cópia, mas como reinvenção.
Analisando o texto mais detidamente, através de toda a saga ali estruturada, percebemos que o processo de formação da cultura brasileira, tal como visto por Mário de Andrade, se fundamenta em duas situações: a do encontro e a do conflito. Macunaíma e seus irmãos é quem vão ao encontro do Brasil. São eles que se propõem a descobri-lo a partir do seu Império na floresta. Inverte-se aí a situação, classicamente definida, de que é o branco, originário dos grandes centros do país, quem se presta ao descobrimento. Mas, tal como o descobrimento oficial se fez suscitando o conflito, o descobrimento de Macunaíma se faz pelos mesmos caminhos. O conflito, em ambos os casos, é motivado basicamente por uma (ou mais) oposição de valores. Ocorre que, tal como estávamos acostumados a ler, a defesa dos valores ocidentais e cristãos se fazia com a desqualificação dos valores tradicionais, índios e africanos. Macunaíma permite um descentramento deste ponto de vista, revelando as idiossincrasias e a artificialidade dos nossos costumes.
Mas não é a partir dos valores cristãos e ocidentais que nasce o conflito de Macunaíma. Mais do que isso, somos parte de uma imensa engrenagem, de um complexo sistema que coisificando as pessoas, dá vida às coisas. A ideologia burguesa, apoiada na premissa da busca do máximo conforto individual, é a vítima preferencial da sátira de Macunaíma: ele é quem nos mostra o quanto isto é privado de sentido, quanto isto é um absurdo em si mesmo. O lugar da cultura brasileira no futuro, só pode ser garantido mediante a desqualificação da civilização burguesa, promotora da mais perversa das igualdades – a que nos anula como entidades únicas, transformando-nos em simples engrenagens da imensa máquina do consumo global.

Por que é um clássico brasileiro:

            Macunaíma é uma das fontes da modernidade literária do romance brasileiro, rompendo com os padrões estéticos importados e procurando um novo caminho para a expressão da cultura. Fez isso aliando as experimentações lingüísticas ao universo maior da tradição brasileira. Os caminhos abertos por Macunaíma seriam ainda sentidos nas obras de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, entre outros, que buscam a singularidade da experiência nacional aliada à sofisticação expressiva da linguagem.

Obras do autor:

Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo em 1893 e lá faleceu em 1945. Publicou:
Romance: Amar, verbo intransitivo (1927), Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928);
Poesia: Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia Desvairada (1922), Losango Cáqui (1926), Clã do Jabuti (1927), Remate de Males (1930), Poesias (1941),  Lira Paulistana (1946), O Carro da Miséria (1947);
Conto: Primeiro Andar (1926), Belazarte (1934), Contos Novos (1956);
Crônica: Os filhos de Canelinha (1943);
Ensaio e História: A Escrava que não é Isaura (1925), Ensaios sobre a Música Brasileira (1928), Compêndio de História da Música (1929), Modinhas Imperiais (1930), Música, doce música (1933), O Aleijadinho de Álvares de Azevedo (1935), Lasar Segall (1935), O Movimento Modernista (1942), Aspectos da Literatura Brasileira (1943), O Baile das Quatro Artes (1943), O Empalhador de Passarinhos (s.d.), O Banquete (1978), Será o Benedito! (1992).

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