terça-feira, 5 de março de 2013




Crítica: Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem (1943)

Longe da razão ordinária, perto do coração selvagem:

            O surgimento de Clarice Lispector para a literatura brasileira é, em si mesmo, um evento de conseqüências radicais. Perto do Coração Selvagem, livro insólito, publicado quando tinha apenas 18 anos de idade, não encontra nenhum paralelo na história da literatura brasileira. Impregnado de uma atmosfera fortemente intimista, não reconhece antecessores no tradicional romance psicológico que, desde a publicação de O Ateneu (1888) vinha se consolidando como um dos caminhos habituais do nosso romance. Ao contrário, revela uma personalidade sob o signo da angústia, cujo objetivo maior é o traduzir em palavras o mistério maior da existência.
            Antes de ser uma escritora-filósofa, que consegue problematizar de maneira crítica a experiência do cotidiano, Clarice Lispector é uma escritora-artista, que através da própria intuição e da sensibilidade, alcança determinadas verdades comuns a toda uma época. Sua filiação intelectual mais próxima parece ser a de Sören Kierkegaard, escritor dinamarquês do século XIX, cujo existencialismo avant la lettre fez escola, influenciando a fenomenologia francesa do pós-guerra. Por essas ironias da história e do destino, houvesse Clarice Lispector nascido na França, certamente seria tomada como precursora da literatura de Sartre e de Camus.
             A densidade de seu texto, aliada à complexidade dos temas com os quais trabalha, faz com que sua obra seja de difícil leitura, permitindo, além disso, as mais controversas interpretações. Não é de hoje que surgem estudos psicanalíticos dos seus escritos, muitos aliás, que trazem significativas contribuições para a própria crítica literária. Mas, talvez o fato mais significativo esteja na verdadeira adoração com que muitos leitores cultuam a sua obra: será esta, talvez, a prova de que os dilemas e as angústias da autora não eram assim tão particulares, mas que, ao invés, alcançaram milhares de outras almas identificadas com as questões íntimas de Clarice. Para não se perder no emaranhado de problemas suscitados por seus textos, convém fazer uma abordagem mais didática daqueles temas introduzidos em Perto do Coração Selvagem.
            Temos a história de Joana, contada em episódios não lineares, desde sua infância até a dissolução de seu casamento com Otávio. Não se distingue, em muitas passagens, a voz da personagem da voz da autora, sendo aí claro o aspecto confessional de sua escrita. Mas estas “confissões” esbarram sempre numa fronteira que parece mais e mais intransponível: a da experiência interior e de sua tradução em palavras. O que Joana “sente”, digamos assim, aquilo que experimenta e vivencia, é encoberto por um véu de mistério que perde o halo quando escrito, quando dito. No início, acaba sendo tomada por uma sensação angustiosa, que impede de reconhecer-se clara e racionalmente, coisa que a faz extremamente introspectiva, causando estranheza a quantos estejam ao seu redor.
            A mais evidente conseqüência desta não adequação de seu ser racional com sua faceta sensível é a solidão. Alguns personagens, entre os quais a sua tia, o marido e a amante do marido, chegam a tomar-lhe por malvada, identificando-a como uma víbora. A própria Joana, ainda na juventude, não se furta a essa identificação com o mal. Neste caso, o mal é antes uma qualidade imputada pelos outros, que a vêem como alguém indisposta à abertura, sempre muito ciosa de si mesma, trancafiada nos meandros de seu próprio ego. Para Joana, a qualidade do mal é antes uma negação das possibilidades afetivas da abertura, que realmente um exercício da “maldade”, de trazer prejuízo a alguém.
            Entretanto, conforme amadurece, casa-se e depois, separa-se do marido, aprende a aceitar a carga do próprio destino. Inveja, contudo, a possibilidade de viver uma vida não refletida, inconseqüente, que tanto aprendeu a enxergar nos outros. Segundo ela, esta disposição acaba fazendo com que a personalidade reflita mais fielmente o íntimo da pessoa, enquanto uma postura intelectual em relação aos próprios sentimentos, acaba por dificultar o fruir da vida. Neste sentido é que se entrega a uma relação extraconjugal com um desconhecido, a quem chama simplesmente de o “homem”. Com ele, não necessita de referências para viver aquilo que sente: ama, beija, entrega-se, sem que o peso da reflexão obsessiva sobre si venha a distorcer seus sentimentos. Assim, a realização só se faz plena quando desiste de tentar justificar racionalmente seus sentimentos, quando abandona a palavra.
            O mais interessante disto tudo é que seu amante, o “homem” acaba ficando-lhe grato pela possibilidade de auto-descoberta suscitada por esta relação. Mesmo sem traduzir seus sentimentos em palavras, estes foram suficientemente fortes para tocar o outro e iniciar uma transformação. A partir de então, Joana desiste de tentar explicar-se, mesmo sem conseguir deixar de sentir. O episódio do rompimento com o marido, Otávio, também é exemplar neste processo de amadurecimento. Ao saber que engravidara a amante, reconhece não haver mais futuro no casamento. Constrange-lhe, no entanto, não ter ela também, engravidado de Otávio. A criança, se houvesse, poderia ser uma âncora no sentido da realização de sua humanidade. Chega, inclusive, a propor a Otávio um filho em comum, coisa que ele repudia, por nunca poder tê-la conhecido verdadeiramente. Essa rejeição (aliás, não a única rejeição sofrida por Joana) é o estopim de um processo de renovação de sua subjetividade: simbolicamente morre e ressuscita para si mesma, emergindo daí de maneira afirmativa, aceitando-se plenamente como tal.
A clarividência da autora consegue fazer com que o leitor compartilhe desta sensação de eterna inadequação com o mundo. Conduzido por Clarice, somos levados a vislumbrar estes recônditos nunca completamente esclarecidos de nós mesmos. Ou seja, mesmo sem a palavra exata, sem conseguir denominar necessariamente aquilo que sente, é possível alcançar a experiência do inenarrável junto com a autora e, finalmente, compreender-lhe os sentimentos. Esta talvez, seja uma das mais felizes realizações da literatura, a de expressar aquilo que sentimos, mas que não somos capazes de dizê-lo. Com Clarice estamos irmanados, pois os obstáculos são os mesmos. Há, entretanto, uma diferença: mesmo sem dizê-los, a autora consegue expressá-los: seja nas entrelinhas, seja nas associações fortuitas, seja nas sugestões.

Por que é um clássico brasileiro:

            Perto do Coração Selvagem é a abertura magistral para o universo ficcional de Clarice Lispector. Obra sem filiações com correntes ou autores deixou, contudo, inúmeros seguidores. A experiência linguística das fronteiras do incompreensível e do reconhecível, levou a literatura brasileira a um patamar diferente, que rompeu com o mero romance psicológico e abriu às experimentações mais radicais da criação literária.
Obras da autora:

Clarice Lispector nasceu em Chechelnik, na Ucrânia em 1920 e morreu no Rio de Janeiro em 1977. Publicou:
Romance: Perto do Coração Selvagem (1943), O Lustre (1943), A Cidade Sitiada (1949), A Paixão segundo G.H. (1964),  Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969), Água Viva (1973), A Hora da Estrela (1977), Um sopro de vida (1978).
Conto: Laços de Família (1960), A Legião Estrangeira (1964), Felicidade Clandestina (1971), Onde estivestes de noite (1974), A Via Crucis do Corpo (1974), A Bela e a Fera (1979).
Crônica: Para não esquecer (1978), A Descoberta do Mundo (1984), Como nasceram as estrelas (1987), Minhas queridas (2007).
Infantil: A Mulher que matou os peixes (1968), A vida intima de Laura (1974), Quase de Verdade (1978).

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