Crítica: Lúcio Cardoso. Crônica da Casa Assassinada (1959)
À muitas vozes, o coro neurótico de um mundo
dissoluto:
É decisiva a presença do tema da
decadência da aristocracia rural na literatura brasileira. Mais até que
decisiva, parece inesgotável. A Crônica
da Casa Assassinada inaugura uma perspectiva completamente inusitada acerca
desta situação, em que predomina um ambiente de loucura, doença e morte. É
difícil, no entanto, rotulá-lo. Não se trata do gênero horror ou suspense, de
tamanha tradição na literatura européia e, posteriormente, no cinema americano.
Mais fiel seria argumentar que o livro se insere numa linha penumbrista, tal
qual uma atualização do simbolismo decadentista do final do século XIX. Pela
imensa força expressiva, principalmente quando se refere à criação de
atmosferas densas, saturadas de culpa, medo e terror, é factível vinculá-lo àquela
tradição que emana de Edgar Allan Poe, o maldito escritor norte-americano.
Mas, pela proposta que seu enredo
nos traz, pela estrutura do romance, o livro supera em complexidade qualquer
realização do gênero feito no Brasil e poucas vezes igualado na literatura
mundial. Tradicionalmente, essas narrativas fantásticas lançam mão de uma
narrativa em primeira pessoa, em que há mais possibilidade de se investigar os
meandros do inconsciente, suas frustrações e incoerências, enfim, a dimensão
não-racional e não-objetiva da personalidade. Lúcio Cardoso vai mais além. Não
há apenas um eu narrador que fornece
à trama a sua coerência, mas muitos eus,
em que as várias perspectivas vão se articulando para formar a unidade
dramática. Narram a história, sob os mais diversos gêneros (carta, diário,
memória, confissão, depoimento) onze personagens diferentes: Valdo, Ana,
Demétrio, Nina, André, Timóteo, Betty, o Coronel, o médico, o farmacêutico e o
padre. Cada um deles parte de um determinado contexto de onde observa os fatos
que se desenrolam na Chácara dos Meneses, a si mesmos e o mundo. Isto tem
algumas conseqüências. Em primeiro lugar, o leitor nunca está seguro da
objetividade dos depoimentos, embora consiga fazer uma imersão na subjetividade
dos narradores. Em segundo lugar, é possível ao leitor articular cada
depoimento numa coerência pessoal. Ou seja, o leitor, nesta proposta, é
convocado a recriar uma dada realidade representada literariamente, como se
montasse um jogo de quebra-cabeças ou resolvesse uma charada.
Além da estrutura do romance, é de
se espantar a imensa capacidade do autor em criar determinadas atmosferas
psicológicas que vão dando uma unidade estética ao livro. Mesmo que cada
personagem fale e observe a partir de um lugar determinado, que possua uma personalidade
autêntica e irrepetível, certos motivos dominam a obra como, por exemplo, o
problema do pecado, da existência de Deus e do Mal, dos limites da loucura e da
sanidade, do tempo, do conflito entre objetividade e subjetividade, da moral
familiar. Evidente que essas questões, mal-resolvidas pelos narradores, vão
suscitando inúmeros conflitos pessoais que, de uma forma ou de outra, acabam se
entrelaçando para oferecer um insólito panorama do tema da decadência, expressa
sob o peso da Tragédia que se instala definitivamente no seio da família
Meneses.
O fato do livro abordar um tema tabu
(o incesto) demanda do escritor um grande esforço criativo para que não caia na
seara do grotesco, do inverossímil e do mau gosto. Para que isto fosse
possível, Lúcio Cardoso teve de concentrar toda a sua energia na construção dos
personagens. A história não pode mover-se sem eles e, para convencer o leitor,
sem sensacionalismo, foi preciso que cada um mostrasse sua dimensão mais
humana, mais vital e necessária. De maneira que vale aqui o bordão: “quem tudo compreende, tudo perdoa”. O
leitor quase nunca é tomado por uma sensação de asco ou de rejeição absoluta à
trama, mesmo que trate de tema tão delicado. Seguindo pela vereda das
motivações e da história de vida de cada personagem, é possível ir associando
determinados símbolos e alcançando o sentido mais geral da obra.
Há uma tal profusão de motivos, de
representações inconscientes, de imagens oníricas e de arquétipos que qualquer
interpretação pouco mais razoável deste livro daria margem para inúmeras
discussões. Sente-se, de maneira permanente, a influência da fenomenologia
heideggeriana, principalmente aquela advinda de O Ser e o Tempo quando o autor se detém nas considerações da
existência como um fenômeno experimentado no tempo, cujo sentido último é a
relatividade do próprio tempo enquanto definidor da condição humana. Mas, para
além, não há como desprezar as referências à teologia dos antigos padres da
Igreja, de toda a carga nietzscheana quando trata da moral, do óbvio pessimismo
schopenhauriano e do existencialismo avant
la lettre de Kierkegaard. No campo da psicologia, são evidentes a
influência de Freud e de Jung, fazendo desta, uma daquelas obras infinitamente
abrangentes, de filiação inequivocamente universalista.
Dentre todas aquelas representações,
a mais relevante, pelo menos para a estrutura do enredo, é a da Chácara dos Meneses, onde ocorre toda a
ação. Se todos os personagens estão no
tempo, a Chácara é o único ente
que está no espaço. Apesar de sofrer
os efeitos desintegradores do tempo – este é o motivo fundante da decadência –
a casa resiste por estar alicerçada no espaço, aspirando a uma imobilidade
total que a retenha diante da fúria avassaladora da transitoriedade. A família
Meneses, principalmente o núcleo formado por Demétrio, Timóteo, Valdo e Ana,
busca esta condição de imobilidade como escudo ante ao tempo. Mas, a entrada de
Nina em cena, faz com que este precário equilíbrio seja rompido
definitivamente, levando a todos a serem tragados pelo redemoinho inevitável da
morte.
A crença num Deus cuja perfeição é
advinda de sua condição de imobilidade, portanto não sujeita ao tempo, é
radicalmente invertida pelo padre Faustino. É o demônio, segundo ele, quem
instila a ilusão da permanência. Deus é o movimento (uma referência a Spinoza),
aquilo que impele os homens para a vida. Permanecer é morrer, silenciar é
morrer, daí a casa como espaço da morte e da rejeição a Deus.
Por
que é um clássico brasileiro:
Se uma das condições para que uma
obra seja considerada um clássico for a da sua inesgotabilidade, suscitando
sempre novas interpretações e respostas, este livro, definitivamente, se insere
neste rol. Uma das mais contendentes e desnorteadoras realizações do gênero, Crônica da Casa Assassinada leva aos
limites a tendência do romance brasileiro à subjetividade e à investigação
psicológica. Pelo inusitado da abordagem, pela estrutura do enredo, pela
construção das personagens, deve ser compreendido como uma das mais complexas
realizações da nossa literatura.
Obras
do autor:
Joaquim
Lúcio Cardoso Filho nasceu em Curvelo (MG) em 1912 e morreu no Rio de Janeiro
em 1968.
Romance: Maleita (1934), Salgueiro (1935),
A luz no subsolo (1936), Dias perdidos (1943), Crônica da Casa Assassinada (1959), O viajante (1973).
Novela: Mãos vazias (1938), O
desconhecido (1940), Inácio (1944),
A professora Hilda (1946), Anfiteatro (1946), O enfeitiçado (1954).
Poesia: Poesias (1941), Novas poesias
(1944), Poemas inéditos (1982).
Teatro: O escravo (1945);
Diário: Diário I (1961), Diário
completo (1970).
Nenhum comentário:
Postar um comentário