quinta-feira, 7 de março de 2013


Crítica: Lúcio Cardoso. Crônica da Casa Assassinada (1959)

À muitas vozes, o coro neurótico de um mundo dissoluto:

            É decisiva a presença do tema da decadência da aristocracia rural na literatura brasileira. Mais até que decisiva, parece inesgotável. A Crônica da Casa Assassinada inaugura uma perspectiva completamente inusitada acerca desta situação, em que predomina um ambiente de loucura, doença e morte. É difícil, no entanto, rotulá-lo. Não se trata do gênero horror ou suspense, de tamanha tradição na literatura européia e, posteriormente, no cinema americano. Mais fiel seria argumentar que o livro se insere numa linha penumbrista, tal qual uma atualização do simbolismo decadentista do final do século XIX. Pela imensa força expressiva, principalmente quando se refere à criação de atmosferas densas, saturadas de culpa, medo e terror, é factível vinculá-lo àquela tradição que emana de Edgar Allan Poe, o maldito escritor norte-americano.
            Mas, pela proposta que seu enredo nos traz, pela estrutura do romance, o livro supera em complexidade qualquer realização do gênero feito no Brasil e poucas vezes igualado na literatura mundial. Tradicionalmente, essas narrativas fantásticas lançam mão de uma narrativa em primeira pessoa, em que há mais possibilidade de se investigar os meandros do inconsciente, suas frustrações e incoerências, enfim, a dimensão não-racional e não-objetiva da personalidade. Lúcio Cardoso vai mais além. Não há apenas um eu narrador que fornece à trama a sua coerência, mas muitos eus, em que as várias perspectivas vão se articulando para formar a unidade dramática. Narram a história, sob os mais diversos gêneros (carta, diário, memória, confissão, depoimento) onze personagens diferentes: Valdo, Ana, Demétrio, Nina, André, Timóteo, Betty, o Coronel, o médico, o farmacêutico e o padre. Cada um deles parte de um determinado contexto de onde observa os fatos que se desenrolam na Chácara dos Meneses, a si mesmos e o mundo. Isto tem algumas conseqüências. Em primeiro lugar, o leitor nunca está seguro da objetividade dos depoimentos, embora consiga fazer uma imersão na subjetividade dos narradores. Em segundo lugar, é possível ao leitor articular cada depoimento numa coerência pessoal. Ou seja, o leitor, nesta proposta, é convocado a recriar uma dada realidade representada literariamente, como se montasse um jogo de quebra-cabeças ou resolvesse uma charada.
            Além da estrutura do romance, é de se espantar a imensa capacidade do autor em criar determinadas atmosferas psicológicas que vão dando uma unidade estética ao livro. Mesmo que cada personagem fale e observe a partir de um lugar determinado, que possua uma personalidade autêntica e irrepetível, certos motivos dominam a obra como, por exemplo, o problema do pecado, da existência de Deus e do Mal, dos limites da loucura e da sanidade, do tempo, do conflito entre objetividade e subjetividade, da moral familiar. Evidente que essas questões, mal-resolvidas pelos narradores, vão suscitando inúmeros conflitos pessoais que, de uma forma ou de outra, acabam se entrelaçando para oferecer um insólito panorama do tema da decadência, expressa sob o peso da Tragédia que se instala definitivamente no seio da família Meneses.
            O fato do livro abordar um tema tabu (o incesto) demanda do escritor um grande esforço criativo para que não caia na seara do grotesco, do inverossímil e do mau gosto. Para que isto fosse possível, Lúcio Cardoso teve de concentrar toda a sua energia na construção dos personagens. A história não pode mover-se sem eles e, para convencer o leitor, sem sensacionalismo, foi preciso que cada um mostrasse sua dimensão mais humana, mais vital e necessária. De maneira que vale aqui o bordão: “quem tudo compreende, tudo perdoa”. O leitor quase nunca é tomado por uma sensação de asco ou de rejeição absoluta à trama, mesmo que trate de tema tão delicado. Seguindo pela vereda das motivações e da história de vida de cada personagem, é possível ir associando determinados símbolos e alcançando o sentido mais geral da obra.
            Há uma tal profusão de motivos, de representações inconscientes, de imagens oníricas e de arquétipos que qualquer interpretação pouco mais razoável deste livro daria margem para inúmeras discussões. Sente-se, de maneira permanente, a influência da fenomenologia heideggeriana, principalmente aquela advinda de O Ser e o Tempo quando o autor se detém nas considerações da existência como um fenômeno experimentado no tempo, cujo sentido último é a relatividade do próprio tempo enquanto definidor da condição humana. Mas, para além, não há como desprezar as referências à teologia dos antigos padres da Igreja, de toda a carga nietzscheana quando trata da moral, do óbvio pessimismo schopenhauriano e do existencialismo avant la lettre de Kierkegaard. No campo da psicologia, são evidentes a influência de Freud e de Jung, fazendo desta, uma daquelas obras infinitamente abrangentes, de filiação inequivocamente universalista.
            Dentre todas aquelas representações, a mais relevante, pelo menos para a estrutura do enredo, é a da Chácara dos Meneses, onde ocorre toda a ação. Se todos os personagens estão no tempo, a Chácara é o único ente que está no espaço. Apesar de sofrer os efeitos desintegradores do tempo – este é o motivo fundante da decadência – a casa resiste por estar alicerçada no espaço, aspirando a uma imobilidade total que a retenha diante da fúria avassaladora da transitoriedade. A família Meneses, principalmente o núcleo formado por Demétrio, Timóteo, Valdo e Ana, busca esta condição de imobilidade como escudo ante ao tempo. Mas, a entrada de Nina em cena, faz com que este precário equilíbrio seja rompido definitivamente, levando a todos a serem tragados pelo redemoinho inevitável da morte.
            A crença num Deus cuja perfeição é advinda de sua condição de imobilidade, portanto não sujeita ao tempo, é radicalmente invertida pelo padre Faustino. É o demônio, segundo ele, quem instila a ilusão da permanência. Deus é o movimento (uma referência a Spinoza), aquilo que impele os homens para a vida. Permanecer é morrer, silenciar é morrer, daí a casa como espaço da morte e da rejeição a Deus.
           
Por que é um clássico brasileiro:

            Se uma das condições para que uma obra seja considerada um clássico for a da sua inesgotabilidade, suscitando sempre novas interpretações e respostas, este livro, definitivamente, se insere neste rol. Uma das mais contendentes e desnorteadoras realizações do gênero, Crônica da Casa Assassinada leva aos limites a tendência do romance brasileiro à subjetividade e à investigação psicológica. Pelo inusitado da abordagem, pela estrutura do enredo, pela construção das personagens, deve ser compreendido como uma das mais complexas realizações da nossa literatura.       

Obras do autor:

Joaquim Lúcio Cardoso Filho nasceu em Curvelo (MG) em 1912 e morreu no Rio de Janeiro em 1968.
Romance: Maleita (1934), Salgueiro (1935), A luz no subsolo (1936), Dias perdidos (1943), Crônica da Casa Assassinada (1959), O viajante (1973).
Novela: Mãos vazias (1938), O desconhecido (1940), Inácio (1944), A professora Hilda (1946), Anfiteatro (1946), O enfeitiçado (1954).
Poesia: Poesias (1941), Novas poesias (1944), Poemas inéditos (1982).
Teatro: O escravo (1945);
Diário: Diário I (1961), Diário completo (1970).

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