Crítica: Grande Sertão: Veredas (1956)
Transcendência ou Imanência do Mal?
Grande
Sertão: veredas é uma das encruzilhadas da literatura brasileira, linha de
chegada e ponto de partida de nossa produção ficcional. Verdadeira obra
seminal, propõe novas fundações para uma série de problemas técnicos, dentre os
quais, o da linguagem, o da construção do enredo, do tempo literário e da
subjetividade da narração. Tamanha foi a sua influência à posteridade, que é
possível considerar um antes e um depois de Grande
Sertão na história da literatura brasileira. As louvações à esta obra,
contudo, tendem a encobrir muitos de seus verdadeiros méritos e mais fascinam o
estudante que, realmente, o auxiliam na busca de sua compreensão. É necessário,
neste caso, pontuar didaticamente aquelas suas contribuições de maiores
repercussões para o desenvolvimento posterior da nossa literatura.
Em primeiro lugar, a linguagem aqui,
desfaz todos os limites clássicos do romance: limite entre lingua literária e
enredo, entre narrador e personagem, entre objetividade e subjetividade, entre
tempo e espaço literários. Todas estas oposições, digamos assim, foram
compreendidas como detentoras de uma existência necessária, “real” , que o
escritor deveria levar em conta quando se tratava de escrever romances. Ou
seja, visto que o romance deveria ser uma representação literária do mundo,
nada mais óbvio que carregar consigo as fundações cartesianas de nossa
compreensão do que é mundo. Este posicionamento encobre o fato de que a
literatura não é somente “representação”, mas como arte, também é “criação”,
“invenção”. E, em Grande Sertão , a
referência da criação do universo literário não é o mundo, mas a própria
linguagem. Neste caso, o sentido da criação rosiana depende exclusivamente de
si mesma, ou da linguagem, que fertiliza, suscita e problematiza toda a obra.
De fato, o processo de
problematização da linguagem literária vai se tornando mais evidente a partir
das experimentações de vanguarda no início do século XX. Os modernistas, por
exemplo, tinham clara a percepção de que para representar uma nova realidade
(digamos, a da velocidade contemporânea) se fazia necessária uma nova linguagem.
Um novo conteúdo, no caso, estaria dependente de uma nova forma. Em todo caso,
como já vimos, mantinham ainda uma crença na arte como representação. Somente
procuravam o meio mais apropriado para tal; no caso acima, uma “modernização”
da linguagem. Foi a geração seguinte, contudo, quem apontou para uma destruição
total das fronteiras entre forma e conteúdo, linguagem e enredo. Entre os
muitos casos que estudamos aqui, podemos, por exemplo, citar o de Graciliano
Ramos em Vidas Secas (1938).
Naquele romance, a linguagem não se presta a uma representação objetiva da
realidade sertaneja, antes, ela própria é aridez, dureza, estio. Ao invés de
retratar o universo das secas – tal como faria a linguagem
jornalística-descritiva – Graciliano Ramos criava um novo mundo, cujas
referências podiam estar no mundo ou na linguagem, ou nos dois, mas que nunca
eram simplesmente representação.
Pudéssemos tratar da literatura
universal do século XX, veríamos este tipo de desenvolvimento ocorrer naquelas
literaturas amadurecidas do Ocidente: Joyce, Kafka, Proust são exemplos deste
novo posicionamente estético: arte não é representação descritiva do mundo ou
imitação servil da realidade, antes é criação problematizada da linguagem, que
não deixa de dialogar com o mundo, mas não se submete a ele.
A segunda questão, ainda referente à
linguagem, diz respeito à própria narrativa. As narrativas tradicionais
fundamentam-se no pressuposto da objetividade do espaço e do tempo,
proporcionando linearidade aos enredos. Neste caso, toda história seria dotada
de um “início, meio e fim” e de um “onde”. Mesmo as técnicas de flasback, que podem parecer
desconcertantes, acabam, ao final, dando a sensação reconfortante de que “tudo
volta ao seu lugar”. Um dos instrumentos dos quais usou Guimarães Rosa para
subverter estes a-priori do
entendimento (no sentido que Kant dá) foi o de fiar-se num tempo e num espaço
subjetivados da memória. O narrador e protagonista deste romance, Riobaldo, não
expõe suas recordações linearmente, mas assume o tempo da memória, que é feita
de pausas, retificações, digressões, de maneira imaginativa e criativa, sem
levar em consideração a cronologia ou os limites entre verdade e falsidade.
Isto faz com que o leitor tenha que se esforçar em combinar o seu entendimento
da história com o ritmo da subjetividade do narrador, aceitando os seus
próprios fundamentos e desvencilhando-se das referências habituais de tempo e
espaço objetivos. Na prática, somos levados a um labirinto de memórias,
atravessando inúmeros planos narrativos, ao sabor das recordações e das
invenções de Riobaldo. Por isso muitos leitores referem-se à dificuldade de se
ler este romance: ora, a dificuldade não está na decifração da linguagem
propriamente dita, mas na aceitação do ritmo pessoal do narrador. Queremos, no
mais das vezes, impor-nos à obra com os nossos conceitos pré-estabelecidos, com
nosso senso de realidade. Isto é frustrado inúmeras vezes, até que aceitemos
Riobaldo como o fiador do sentido do texto.
A história de Riobaldo, em meio às
inúmeras aventuras de jagunço, realiza um diálogo com o romance de cavalaria
europeu e com a tradição oral brasileira. Neste diálogo, que não é mera apropriação
passiva, o autor recria o gênero, contribuindo para isso, a invenção que
realiza de uma linguagem apropriada ao seu fim. Daí que a prosa de Guimarães
Rosa é tão eivada de recursos literários os mais diversos: como a arcaização e
criação de vocábulos por meio de justaposições, afixações e hibridismos; a
incorporação da oralidade à língua literária, com toda gama de cacofonias,
onomatopéias e ruídos. É bom ainda que se diga, que os ditos “excessos” do
autor, que apontariam para uma obra barroca, na realidade são necessidades da
expressão do seu próprio universo ficcional. Não há propriamente excesso, mas
um esforço permanente em impregnar a linguagem da vida, como se ela fosse a
criadora de um novo mundo.
Além das questões realmente formais
da literatura rosiana, Grande Sertão é
uma obra rica de conteúdo simbólico. Resumidamente, são duas as questões que
estruturam o enredo: a tentativa de se compreender a existência e a realidade do
Mal (e, consequentemente do Diabo, como seu criador) e a relação de tensão
sexual entre Diadorim e Riobaldo, impossível e por isso mesmo, tão dilacerante.
A articulação destes planos se dá na fala de Riobaldo: pois, como os cavaleiros
do Santo Graal, procura o sentido mesmo da existência, obscuro por detrás das
aparências que iludem e confundem o homem, levando-o ao erro e escravizando-o
na ignorância.
Riobaldo empreende esta cruzada por
entre os mais longínquos sertões da sua memória na demanda da verdade. O Diabo,
através de seus ardis, é quem busca confundir o homem, mestre na arte de iludir
e de desencaminhar. Uma dúvida se impõe: o Mal seria uma condição mesma da
realidade ou efeito das artimanhas do Diabo? E, neste problema, qual o papel de
Deus? Assume um papel de transcendência a este mundo ou o mundo é ele mesmo,
englobando tudo, bem e mal, erro e verdade? Sertão, neste caso é o espaço –
físico e metafísico – onde o drama humano se desenvolve. Há os ermos do coração
e os ermos das lonjuras, ambos lugares perigosos, pois é lá que as forças
demoníacas se manifestam com mais força. As provações que sofre Riobaldo no
cangaço, têm a mesma qualidade das que sente em seu coração. Sua batalha
espiritual, assim, não reconhece as fronteiras do subjetivo e do objetivo, mas
quer enxergar em tudo uma totalidade que lhe parece necessária e que o Diabo
quer fazer fragmentada. A demanda pela verdade é um esforço pela totalidade do
sentido.
Necessariamente, Riobaldo tem de confiar apenas em si mesmo e afastar-se
do engano que a todo momento lhe é sugerido. Entretanto, o amor que sente por
Diadorim, o mantém permanentemente sobressaltado. Como pode ele apaixonar-se
por um homem? Ao invés do problema estar no mundo, não estaria nele mesmo?
Diadorim é a chama da dúvida radical que o leva a duvidar das mais íntimas
certezas e que, ao cabo, o faz por tudo em suspenso. Não há
espaço para certezas se intimamente Riobaldo encontra-se consumido pelo erro. Só
ao final do romance, quando se descobre a identidade feminina de Diadorim é que
Riobaldo se reconcilia consigo e com a verdade.
É, difícil situar a influência de Grande Sertão: veredas na literatura
brasileira. As suas conquistas formais levaram tempo para serem assimiladas
pelas gerações seguintes e a fama de livro obscuro e complexo dificultaram
ainda mais esta apropriação. Assim, passariam quase vinte anos para que a obra
viesse a fecundar nossa produção ficcional, cujos resultados mais representativos
foram: Sargento Getúlio (1971) de
João Ubaldo Ribeiro, Avalovara (1973)
de Osman Lins e Lavoura Arcaica
(1975) de Raduan Nassar, todos eles romances que se apóiam no trabalho de
ressignificação do mundo pela linguagem empreendido por Guimarães Rosa. As gerações
mais recentes, principalmente a pertencente aos experimentalismos formais da
década de 1990, também buscaram inspiração no mestre mineiro. É bem possível,
finalmente, que esta obra continue a exercer uma influência ainda duradoura na
nossa literatura, cujos contornos, obviamente, não se pode prever.
Por que é um
clássico brasileiro:
Uma obra como esta possibilita
infinitas interpretações, usos e reapropriações. As tentativas de esgotá-las
através da crítica tradicional foram infrutíferas, mas o mais importante é que
se constitui num amplo caudal de propostas e inovações técnicas, formais e
filosóficas que permanecerão por longo tempo à espreita da literatura
brasileira. Implodiu a herança do nosso regionalismo, ao mesmo tempo em que se
constituiu como a sua mais elaborada expressão. Soube magistralmente recuperar
a tradição do romance psicológico, transformando-o em algo que foi além da
simples perquirição dos estados da alma dos personagens.
Obras do autor:
João Guimarães
Rosa nasceu em Codisburgo (MG) em 1908 e morreu no Rio de Janeiro em 1967.
Publicou:
Romance: Grande Sertão: Veredas (1956).
Conto: Sagarana (1946), Corpo de
Baile (1956), Primeiras Estórias (1962).
Nenhum comentário:
Postar um comentário