Imoralidades Literárias
Acabo de ler o número três da revista Pindaíba, cujos editores são amigos meus.
Recebi-a das mãos de Manoel Carlos, um guru místico e charadístico de uma comunidade de artesãos marginais de vanguarda.
A revista é um tributo à literatura ero-pornográfica. Não sei se o futuro guarda edições temáticas como esta. Só posso falar que me agradou bastante a leitura.
Isto porque pela primeira vez, a bemfadada revista traz certa coerência entre os textos, superando o espectro de manifesto anarco-surrealista para se afirmar como construção coletiva acerca de uma temática comum.
Contudo, quero expressar um sentimento muito particular que a sua leitura me suscitou .
Como os leitores hão de saber, tal gênero tem atrás de si (ops) uma tradição imemorial que remonta, sei lá, aos latinos.
Entretanto, desde o século XIX, o gênero tem experimentado certa estigmatização por parte do "gosto" literário dominante (aquele produzido pelos críticos, mormente diante de um vitorianismo burguês e pudico), muito embora, nunca tenha sido completamente esquecido (sexo é vida!), inclusive, por escritores canônicos.
Desde então, o gênero ero-pornográfico conheceu uma divisão que perdura. De um lado, os escritores meramente pornográficos, cujo objetivo maior é o de excitar. Escrevem em terceira pessoa e encaram a sexualidade (alheia) através do buraco da fechadura. São os "voyeurs". Dentre os brasileiros, podemos citar Carlos Zéfiro ou, se pretendem encarar o fato sublimado, Nélson Rodrigues (A Vida como Ela É).
Do outro lado, há os que encaram o desejo sexual (autocentrado, muitas vezes), como um impulso interior de mérito literário, vital. A questão da excitação é secundária diante da necessidade do autoconhecimento. A excitação sexual do leitor é atingida tangencialmente, num processo de identificação com uma subjetividade alheia, mesmo que estranha ou fora dos padrões.
A revista em questão - talvez intuitivamente - quer reatar as pontas deste cadarço. Senão, leiamos:
a) as ilustrações guardam referências ao primeiro modelo aqui discutido - pornográfico. Além disso, influenciadas pelo momento "retrô" que vivemos, nos fazem recordar o próprio Zéfiro, acima citado;
b) os textos, muito embora estejam mais próximos do segundo modelo, guardam um potencial transgressor, na medida em que a identificação com a subjetividade do escritor é mediada também por uma tendência narcísica-exibicionista que, como sabemos, influi decisivamente na libido do leitor.
c) O fato de haver este narcisismo-exibicionista não depõe, no meu ponto de vista, contra os escritos. Muito pelo contrário, já que falamos de literatura erótica e pornográfica. Os autores, desta feita, estão à procura de uma expressão mais sincera de si próprios, encarando tal fato como significativo para a construção de uma dada perspectiva literária autêntica.
Adiante, tratarei dos contistas que mais me agradaram, até para fazer justiça com a heterogeneidade expressiva presentes nas páginas da Pindaíba.
Até breve.
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