quarta-feira, 6 de março de 2013


Crítica: Graciliano Ramos. Angústia (1936)

Angústia, doença mortal:

A instabilidade social crônica marca os primeiros momentos da trajetória do personagem. De origem privilegiada, decai até a indigência, terminando por ocupar uma posição intermediária na hierarquia social, no estrato da baixa classe média urbana. A fragilidade de sua situação é evidente, pois depende de expedientes como o favor e a adulação para, no mínimo, manter-se longe da miséria mais completa. O jornalismo, que pratica amiúde, é apenas mais uma faceta destes expedientes, pois apenas redige matérias pagas para preservar este ou aquele interesse. Mesmo que se veja como um intelectual, Luís da Silva não goza de qualquer autonomia, estabilidade ou reconhecimento social.
A condição frustrada de intelectual faz com que Luís da Silva adquira uma percepção de desdém e de ojeriza em relação à sociedade. Custa-lhe, cada vez mais, submeter-se às convenções em razão das humilhações que sofre cotidianamente. Reage inconscientemente a este mundo opressivo, isolando-se em seus delírios de grandeza e de redenção pela literatura. Acalenta o sonho de produzir um grande romance, jamais começado, que fosse reconhecido internacionalmente e que pudesse arrancá-lo daquela situação de subserviência e decepções. Deseja ser identificado como um grande gênio, coberto de louvores e elogios, elevando-se diante da mesquinharia reinante e fazendo disto uma vingança contra a repetida desconsideração que sofre.
Ao mesmo tempo, Luís da Silva busca nas reminiscências de um passado glorioso, na história de seus antepassados, aquela distinção que deveria caber-lhe por direito. Não era um qualquer. Percebia-se, por tudo isto, superior aos demais: aos ricos, por não compartilhar de sua ardente e imoral disposição para o lucro; aos pobres, por se considerar superior intelectualmente. São as grandes vigas de sua personalidade: a frustração, a carência e o isolamento. Frustração nascida de sua condição de intelectual dependente; carência por esperar um reconhecimento nunca alcançado; isolamento por sua própria condição de classe. Luís não se enquadra na dinâmica fortemente hierarquizada da sociedade brasileira, não se adapta às circunstâncias sem um profundo sofrimento. Sente-se cada vez mais vilipendiado, rebaixado, descartado. Assim Graciliano Ramos define o lugar social do intelectual pobre na sociedade brasileira: esmagado entre a pobreza e a humilhação do favor; visto como instrumento de interesses graúdos; deslocado, fragilizado, marginalizado.
A angústia, doença mortal, na definição do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard é o sentimento do nada, a falta completa de sentido da vida. É este sentimento de desespero difuso, de medo e de insegurança permanentes, que permeia a vida de Luís da Silva. A situação só tende a se agravar quando conhece a jovem Marina. Moça pobre e ignorante, busca aproximar-se de Luís, pessoa que considera distinta. Sempre desdenhoso em relação aos mais pobres, Luís tenta afastar-se dela, a quem não poupa certas ironias. Mas acaba sucumbindo ao forte desejo sexual e propõe o casamento. Pensa, assim, fazer um favor à moça, salvando-a da miséria absoluta. Em troca, exige a eterna gratidão de Marina, sua obediência e passividade. Esta gratidão, contudo, nunca vem. A moça parece cada vez mais cética em relação ao futuro casamento: não aprova a qualidade dos presentes comprados por Luís, decepciona-se com a simplicidade da cerimônia encomendada.
Ao mesmo tempo, Marina conhece Julião Tavares, um sujeito balofo e repugnante, mas endinheirado e jeitoso com as mulheres. Em dois tempos, Marina quebra o compromisso com Luís e passa a viver um período de fantasia com Julião. Ele compra-lhe presentes caros, vestidos de festas, anéis de brilhantes. Exibe-se pela cidade de braços dados com a moça, vai a concertos e cinemas. Luís reage ardendo de ciúme.  Diante dele, a mulher – personificação da ingratidão que julga sofrer, do reconhecimento que nunca chega, da ignorância e da vileza que atribui aos mais pobres. Diante dele o homem rico – símbolo da ganância, da vaidade, da superficialidade admirada pela sociedade dos medíocres. Luís está opresso pelo obscurantismo das massas e pelo arbítrio dos poderosos. A situação chega ao extremo quando Julião abandona a moça grávida. Luís ainda espera uma reconciliação, um pedido de desculpas, o reconhecimento do erro e o preito de gratidão. Em vão. Só resta-lhe a saída da violência e tenciona assassinar Julião.
A revolta de Luís bem poderia ser sublimada se conseguisse transferir para a arena da política os conflitos que sofria subjetivamente. Seu amigo Moisés, filho de um agiota judeu é um engajado, um socialista que tenta influenciá-lo. Mas Luís teme as conseqüências terríveis da prisão, da perseguição política. Crê que pode vir a ser um pária. Ignora que pária ele já o é. Falta-lhe, ainda, a capacidade de doar-se, de abrir-se ao Outro num projeto utópico de redenção coletiva. Não é isto que Luís está buscando. Quer uma redenção egoísta, quer vingar-se da sociedade que o espezinha, espezinhando-a. Se buscarmos novamente Kierkegaard vamos notar que Luís é incapaz do “salto no escuro”, da entrega a algo maior, a Deus, à Revolução, ao Amor, ao Ideal. Não quer a paz de espírito, nem a pode alcançar. Está irremediavelmente escravo de suas frustrações e decepções, enfim, da angústia.
Talvez seja este o romance brasileiro que mais se aproxima da tradição do romance russo, como bem lembrou Oto Maria Carpeaux. Há nele traços inequívocos de Dostoievski, principalmente pela agudez da representação psicológica, pelos cenários sombrios e misteriosos, pela narração densa e obscura, pelas relações imagéticas suscitadas. Sem deixar de ser um romance político, destoa radicalmente de todos os outros romances de sua geração, inclusive dos próprios romances de Graciliano Ramos. Mas, guarda com S. Bernardo e Vidas Secas certa coerência temática: a da investigação das situações de conflito de classe, levados aos extremos do drama psicológico.

Por que é um clássico brasileiro:

Angústia revela a subjetividade e as contradições de um escritor irrealizado. As teias da opressão a que está submetido aparecem-lhe como incompreensão de seu talento nato. Raramente alcança elevar-se acima dos seus próprios dramas egoístas e compreender-se como um instrumento nas mãos dos grandes interesses. Resultado disso é a sua vaidade tola, a sua alienação completa e os seus preconceitos infundados. Sua revolta é sempre superficial e não se dirige às instituições, mas sim, às pessoas. Severa crítica à própria condição do intelectual brasileiro provinciano, imerso numa total incapacidade de compreensão do mundo e de abertura ao Outro.

Obras do autor:

Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, AL (1892) e morreu no Rio de Janeiro (1953).        Publicou:
Romance: Caetés (1933), S. Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas Secas (1937), Insônia (1947);
Conto: Dois Dedos (1945), Histórias Incompletas (1946), Alexandre e outros heróis (1962);
Literatura infanto-juvenil: A Terra dos Meninos Pelados (1939);
Autobiografia: Infância (1945), Memórias do Cárcere (1953);
Viagens e descrições de costumes: Viagem (1954), Viventes das Alagoas (1962);
Correspondência: Cartas (1980), Cartas de Amor a Heloísa (1992).

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