
Crítica: Graciliano Ramos. Angústia (1936)
Angústia, doença mortal:
A instabilidade social crônica marca os primeiros momentos da trajetória
do personagem. De origem privilegiada, decai até a indigência, terminando por
ocupar uma posição intermediária na hierarquia social, no estrato da baixa
classe média urbana. A fragilidade de sua situação é evidente, pois depende de
expedientes como o favor e a adulação para, no mínimo, manter-se longe da
miséria mais completa. O jornalismo, que pratica amiúde, é apenas mais uma
faceta destes expedientes, pois apenas redige matérias pagas para preservar
este ou aquele interesse. Mesmo que se veja como um intelectual, Luís da Silva
não goza de qualquer autonomia, estabilidade ou reconhecimento social.
A condição frustrada de intelectual faz com que Luís da Silva adquira uma
percepção de desdém e de ojeriza em relação à sociedade. Custa-lhe, cada vez
mais, submeter-se às convenções em razão das humilhações que sofre
cotidianamente. Reage inconscientemente a este mundo opressivo, isolando-se em
seus delírios de grandeza e de redenção pela literatura. Acalenta o sonho de
produzir um grande romance, jamais começado, que fosse reconhecido
internacionalmente e que pudesse arrancá-lo daquela situação de subserviência e
decepções. Deseja ser identificado como um grande gênio, coberto de louvores e
elogios, elevando-se diante da mesquinharia reinante e fazendo disto uma
vingança contra a repetida desconsideração que sofre.
Ao mesmo tempo, Luís da Silva busca nas reminiscências de um passado
glorioso, na história de seus antepassados, aquela distinção que deveria
caber-lhe por direito. Não era um qualquer. Percebia-se, por tudo isto,
superior aos demais: aos ricos, por não compartilhar de sua ardente e imoral
disposição para o lucro; aos pobres, por se considerar superior
intelectualmente. São as grandes vigas de sua personalidade: a frustração, a
carência e o isolamento. Frustração nascida de sua condição de intelectual
dependente; carência por esperar um reconhecimento nunca alcançado; isolamento
por sua própria condição de classe. Luís não se enquadra na dinâmica fortemente
hierarquizada da sociedade brasileira, não se adapta às circunstâncias sem um
profundo sofrimento. Sente-se cada vez mais vilipendiado, rebaixado,
descartado. Assim Graciliano Ramos define o lugar social do intelectual pobre
na sociedade brasileira: esmagado entre a pobreza e a humilhação do favor;
visto como instrumento de interesses graúdos; deslocado, fragilizado,
marginalizado.
A angústia, doença mortal, na
definição do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard é o sentimento do nada, a
falta completa de sentido da vida. É este sentimento de desespero difuso, de
medo e de insegurança permanentes, que permeia a vida de Luís da Silva. A
situação só tende a se agravar quando conhece a jovem Marina. Moça pobre e
ignorante, busca aproximar-se de Luís, pessoa que considera distinta. Sempre
desdenhoso em relação aos mais pobres, Luís tenta afastar-se dela, a quem não
poupa certas ironias. Mas acaba sucumbindo ao forte desejo sexual e propõe o
casamento. Pensa, assim, fazer um favor à moça, salvando-a da miséria absoluta.
Em troca, exige a eterna gratidão de Marina, sua obediência e passividade. Esta
gratidão, contudo, nunca vem. A moça parece cada vez mais cética em relação ao
futuro casamento: não aprova a qualidade dos presentes comprados por Luís,
decepciona-se com a simplicidade da cerimônia encomendada.
Ao mesmo tempo, Marina conhece Julião Tavares, um sujeito balofo e
repugnante, mas endinheirado e jeitoso com as mulheres. Em dois tempos, Marina
quebra o compromisso com Luís e passa a viver um período de fantasia com
Julião. Ele compra-lhe presentes caros, vestidos de festas, anéis de
brilhantes. Exibe-se pela cidade de braços dados com a moça, vai a concertos e
cinemas. Luís reage ardendo de ciúme.
Diante dele, a mulher – personificação da ingratidão que julga sofrer,
do reconhecimento que nunca chega, da ignorância e da vileza que atribui aos
mais pobres. Diante dele o homem rico – símbolo da ganância, da vaidade, da
superficialidade admirada pela sociedade dos medíocres. Luís está opresso pelo
obscurantismo das massas e pelo arbítrio dos poderosos. A situação chega ao
extremo quando Julião abandona a moça grávida. Luís ainda espera uma
reconciliação, um pedido de desculpas, o reconhecimento do erro e o preito de
gratidão. Em vão. Só
resta-lhe a saída da violência e tenciona assassinar Julião.
A revolta de Luís bem poderia ser sublimada se conseguisse transferir
para a arena da política os conflitos que sofria subjetivamente. Seu amigo
Moisés, filho de um agiota judeu é um engajado, um socialista que tenta
influenciá-lo. Mas Luís teme as conseqüências terríveis da prisão, da
perseguição política. Crê que pode vir a ser um pária. Ignora que pária ele já
o é. Falta-lhe, ainda, a capacidade de doar-se, de abrir-se ao Outro num
projeto utópico de redenção coletiva. Não é isto que Luís está buscando. Quer
uma redenção egoísta, quer vingar-se da sociedade que o espezinha,
espezinhando-a. Se buscarmos novamente Kierkegaard vamos notar que Luís é
incapaz do “salto no escuro”, da entrega a algo maior, a Deus, à Revolução, ao
Amor, ao Ideal. Não quer a paz de espírito, nem a pode alcançar. Está
irremediavelmente escravo de suas frustrações e decepções, enfim, da angústia.
Talvez seja este o romance brasileiro que mais se aproxima da tradição do
romance russo, como bem lembrou Oto Maria Carpeaux. Há nele traços inequívocos
de Dostoievski, principalmente pela agudez da representação psicológica, pelos
cenários sombrios e misteriosos, pela narração densa e obscura, pelas relações
imagéticas suscitadas. Sem deixar de ser um romance político, destoa
radicalmente de todos os outros romances de sua geração, inclusive dos próprios
romances de Graciliano Ramos. Mas, guarda com S. Bernardo e Vidas Secas
certa coerência temática: a da investigação das situações de conflito de
classe, levados aos extremos do drama psicológico.
Por que é um
clássico brasileiro:
Angústia revela a subjetividade
e as contradições de um escritor irrealizado. As teias da opressão a que está
submetido aparecem-lhe como incompreensão de seu talento nato. Raramente
alcança elevar-se acima dos seus próprios dramas egoístas e compreender-se como
um instrumento nas mãos dos grandes interesses. Resultado disso é a sua vaidade
tola, a sua alienação completa e os seus preconceitos infundados. Sua revolta é
sempre superficial e não se dirige às instituições, mas sim, às pessoas. Severa
crítica à própria condição do intelectual brasileiro provinciano, imerso numa
total incapacidade de compreensão do mundo e de abertura ao Outro.
Obras do autor:
Graciliano Ramos
nasceu em Quebrangulo, AL (1892) e morreu no Rio de Janeiro (1953).
Publicou:
Romance: Caetés (1933), S. Bernardo (1934),
Angústia (1936), Vidas Secas (1937), Insônia (1947);
Conto: Dois Dedos (1945), Histórias
Incompletas (1946), Alexandre e
outros heróis (1962);
Literatura infanto-juvenil: A Terra dos Meninos Pelados (1939);
Autobiografia: Infância (1945), Memórias do
Cárcere (1953);
Viagens e descrições de costumes: Viagem (1954), Viventes das Alagoas (1962);
Correspondência: Cartas (1980), Cartas de Amor
a Heloísa (1992).
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