quinta-feira, 7 de março de 2013

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Crítica: Autran Dourado. Ópera dos Mortos. (1967)

A Matéria do Silêncio:

            O romance brasileiro, tão caracteristicamente realista, pouco se abriu para os horizontes mais sombrios e fantásticos da existência. Esta obra de Autran Dourado, pelo enredo que nos apresenta está, de certa maneira, muito mais próxima da literatura inglesa e norte-americana, e não têm sido poucos aqueles que o comparam a nomes como William Faulkner, Edgard Allan Poe ou mesmo, em alguns momentos, a Henry James (como em, principalmente The turn of the screw).
            Em Ópera dos Mortos estamos diante de uma realidade governada antes pelos mortos que pelos vivos. Ou seja, o passado torna-se algo tão decisivo para este mundo, que o presente nada mais é que o lapso de tempo em que este passado se atualiza. Não pode haver futuro, pois todas as possibilidades da existência já se esgotaram há muito. O que resta, somente, é o indefinível repetir das mesmas situações, ficando os homens incapazes de romper com o peso esmagador do tempo.
            O romance conta a história de Rosalina, filha do coronel João Honório Cota, um rico proprietário rural que acalenta sonhos fidalgos. Certa feita, ao disputar uma eleição municipal é traído por seus aliados, que se batem para o partido adversário. Se vê abandonado pela cidade que tanto amou, deixado sozinho por quem demonstrava consideração e apreço. Ferido em seus brios, encerra-se no seu casulo, cortando todos os laços sociais. Isolado, acalenta a mais completa desilusão, inflando-se num orgulho desmesurado. Morre-lhe a mulher e restando somente a filha, cria a menina nos mesmos sentimentos de revolta. Em sua casa, o velho relógio de parede está parado desde a morte da esposa. Com a sua morte, Rosalina pára também os relógios de bolso do pai. O tempo congelou no exato momento da traição: repetindo o gesto do pai, Rosalina evoca o passado, perpetuando-o e levando consigo o fardo do morto.
            Rosalina assume o propósito de mortificar a cidade de remorso. Sua reclusão é um brado acusatório, ela é um monumento da culpa coletiva. Abandonar seu posto e se permitir viver seria o mesmo que perdoar a população e trair a honra do pai. Acompanhada por uma criada muda, a velha Quiquina – aliás uma das mais impressionantes personagens da literatura brasileira – passa a vida fabricando flores de tecido e papel, encerrada num comovente silêncio em que dominam as melancólicas lembranças de sua infância.
            Quando contrata os serviços de José Passarinho, homem vindo de fora da cidade e, portanto, alheio aos eventos de sua infância, o equilíbrio de sua posição é abalado. Dentro dela, forças poderosas vão travando uma luta cada vez mais encarniçada. Por um lado, há a devoção à santa causa de seu pai; por outro, o aflorar cada vez mais intenso de uma sede de viver, materializada na sua paixão irrealizada por Emanuel, um antigo amor, que ela rejeitou somente para manter-se fiel à sua missão. Desta contradição virá à tona a tragédia de sua vida.
            Há um triplo desafio na escritura de Autran Dourado. Em primeiro lugar, deve-se criar uma prosa capaz de representar o silêncio que envolve os protagonistas, opção levada aos extremos quando tem que caracterizar a personagem Quiquina, uma muda. A saída encontrada pelo autor é a de se deter no ambiente do sobrado, intensamente fantasmagórico e pleno de melancolia. Enquanto as personagens silenciam, o sobrado fala. A obsessão dos detalhes, a minúncia das descrições, a caracterização delicada  dos gestos e olhares mais simples, vão criando uma densidade, uma atmosfera em que se pode sentir todo o peso daquele sobrado e de seus objetos.
            Ao passo em que a realidade do sobrado se manifesta cada vez mais tangível, a vida das personagens vai-se dissolvendo numa névoa feita de sonho, memória e loucura. Traduzir estas situações para a linguagem literária demanda um grande talento, virtude inquestionável de Autran Dourado. A penetração com que o autor disseca as mais profundas motivações inconscientes das protagonistas faz com que o enredo ganhe em dramaticidade, apontando sempre para o horizonte trágico que desde o início se apresenta. O conflito interior vivido por Rosalina, subjugada entre o peso do passado e a angústia de um presente irrealizado articula-se à própria arquitetura do sobrado. Durante a noite, Rosalina entrega-se ao devaneio sensual, motivada pelo vício da embriaguez, no andar superior do edifício. Ao longo do dia, entretanto, no andar térreo, assume a personalidade esperada por sua situação: mantém-se sisuda, vergando sob o peso de sua responsabilidade de filha ultrajada. A Rosalina diurna finge desconhecer a sua homônima noturna, até que isto se torna insuportável. O autor joga com os conceitos de consciente e inconsciente hauridos da psicanálise freudiana para compor um dos mais impressionantes enredos de nossa literatura contemporânea.
            O terceiro desafio é o de representar o empenho incessante de Rosalina contra o tempo. O movimento deve desaparecer para que o equilíbrio de sua condição se possa manter inalterado. Mas o ônus de enfrentar o tempo, querer-lhe fazer congelar, recai contra os homens, que sempre sairão em débito. Por alguns anos, Rosalina consegue a aparência de ter subjugado o tempo; não vê que apenas construíra algumas frágeis barreiras, facilmente arrastadas pela correnteza, a ponto de irromper, já indomável e ameaçadora. Ao avanço do tempo, resta a Rosalina o refúgio na demência, única alternativa viável diante do fracasso de sua vida.                                               

Por que é um clássico brasileiro:

Ópera dos Mortos é uma das mais desconcertantes criações literárias de todos os tempos. A matéria de memória, sonho e devaneio de que este romance é feito, nos leva às mais sombrias esferas do inconsciente. O drama de uma mulher, vítima do passado, irrealizada e neurótica, é a metáfora de um tempo mítico que, mesmo sepultado, se insurge contra os vivos e a eles quer dominar. Como retratista da decadência da aristocracia mineira, Autran Dourado é insuperável.

Obras do autor:

Henrique Autran Dourado nasceu em Patos de Minas (MG) em 1926. Publicou:
Romance e Novela: Teia (1947),  Sombras e exílio (1950), Tempo de Amar (1952), A Barca dos Homens (1961), Uma Vida em Segredo (1964), Ópera dos Mortos (1967), O Risco do Bordado (1970), Os Sinos da Agonia (1971), Novelário de Donga Morais (1976), A Serviço Del-Rey (1984), Lucas Procópio (1984), Um Artista Aprendiz (1989), Morte da Alegria (1990), Um Cavalheiro de Antigamente (1992), Ópera dos Fantoches (1994), Vida (1995), Confissões de Narciso (1997);
Conto: Três Histórias na Praia (1955), Armas e Corações (1978), Solidão, solitude (1972), As Imaginações Pecaminosas (1981), Violetas e Caracóis (1987);
Ensaio: Uma Poética do Romance (1973), Meu Mestre Imaginário (1982).

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